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Covid-19. Atletas infetados em risco de sofrer arritmias. Médicos alertam para necessidade de exames prévios

Um editorial publicado por dois médicos portugueses - um deles trabalha na unidade de performance do Benfica - numa revista científica internacional alerta para o risco de quem foi infetado pelo novo coronavírus desenvolver inflamações no miocárdio, uma das causas de morte súbita em atletas. Quanto aos profissionais, inclusive os jogadores de futebol que preparam o regresso à atividade desportiva, a mensagem é de que é preciso ter cautela

Christiana Martins

Valerio Pennicino

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Alguns dos doentes com covid-19 têm apresentado complicações cardíacas, como a miocardite (inflamação do músculo cardíaco do miocárdio) e arritmias, desde os primeiros casos relatados em Wuhan, na China. Com base nesta constatação, dois médicos portugueses escreveram o editorial da "Sports Med", publicado a 7 de maio. Nos casos mais graves, com recurso a internamento, 12% dos doentes apresentavam níveis elevados de troponina, indicando lesão miocárdica. Outras investigações citadas neste artigo referem que foram registadas arritmias agudas em 7% dos pacientes com covid-19. E a análise de seis estudos, com um total de 1527 pacientes infestados, 8,0% sofreu lesão cardíaca aguda com incidência cerca de 13 vezes maior em pacientes críticos internados em unidades de terapia intensiva.

Tendo por base este retrato, o texto, assinado por Hélder Dores, professor de Fisiopatologia na Nova Medical School e cardiologista do Benfica, e por Nuno Cardim, coordenador da Unidade de Imagiologia Cardíaca do Laboratório de Ecocardiografia e do Centro de Doenças Cardíacas Hereditárias e Miocardiopatias do Hospital da Luz Lisboa, alerta que é preciso cautela antes de os atletas regressarem à atividade desportiva. “Nesse contexto de incerteza, é essencial garantir condições de equidade e segurança para a proteção de todas as partes interessadas retomar atividades esportivas - um único atleta pode ser um vetor de transmissão. Os médicos devem estar envolvidos na decisão e contribuir para estabelecer protocolos específicos para avaliar atletas afetados pelo covid-19. A avaliação cardíaca é de extrema importância devido à complicações diretas da doença e do efeitos adversos potenciais de alguns medicamentos utilizados no tratamento“. Em causa, está a utilização eventual “de esteróides; antibióticos e antimaláricos, antivirais, anti-inflamatórios ou imunossupressores, com implicações para treino de exercícios”.

O artigo avança ainda que, “em alguns casos, o envolvimento cardíaco ocorreu mesmo em pacientes sem sintomas e sinais de pneumonia”, reforçando a importância da investigação cardiológica. E é claro no que respeita aos jogadores de futebol profissional: “Apesar dos muitos aspectos e dúvidas que resta esclarecer sobre a covid-19 e as implicações da doença nas várias sociedades científicas, há alta pressão para retomar as competições desportivas, principalmente no futebol, devido a fatores económicos e competitivos. No entanto, do ponto de vista clínico, parece-nos prematuro reiniciar o exercício antes de um controlo claro desta infecção”.

Os dois médicos sublinham ainda que "um melhor esclarecimento da evolução da doença e das potenciais complicações cardiorrespiratórias a longo prazo também é necessário". Até porque, explicam, o exercício e o treino "podem contribuir para o desenvolvimento de algumas condições cardiovasculares, mesmo em indivíduos aparentemente saudáveis". E atletas clinicamente recuperados de uma infecção comprovada - "mesmo com doença leve, sem doença cardíaca sintomas ou internação hospitalar" -, podem ter uma lesão miocárdica. Por isso, recomendam "uma avaliação médica, antes de o atleta retomar os treinos".

Mas mesmo estes exames requerem cuidados específicos: "Devido ao risco de transmissão, esses exames devem ser realizados com cuidado e seguindo todas as medidas de proteção recomendadas, especificamente em relação ao teste ergométrico, para o qual pode ser difícil encontrar instalações." E, se confirmado algum caso positivo de infeção grave, deve ser tratado como outros casos de miocardite, com recurso, por exemplo, a ressonância magnética cardíaca. E, se o diagnóstico de miocardite ou miopericardite for estabelecido, o atleta terá de parar por um período de três a seis meses, de acordo com a gravidade clínica e duração da doença.

Em declarações ao Expresso, Hélder Dores sublinhou a importância de todos os atletas terem atenção aos riscos em causa com a pandemia. "Temos de ter em conta que o exercício físico, de elevada carga, pode ser o gatilho para gerar um problema grave. E este é um alerta para o vasto grupo de atletas, não só os profissionais, que, em geral, estão em instituições organizadas e estão a ser bem acompanhados".