Tribuna Expresso

Perfil

Coronavírus

Há uma equipa nos Estados Unidos que não teve qualquer caso de covid-19. Como? De muitas maneiras

O Seattle Seahawks foram a única equipa da NFL sem qualquer caso de covid-19 ao longo da temporada, que terminou no domingo com o Super Bowl. Antecipar o problema, soluções criativas e ir além dos protocolos poderá explicar este caso de sucesso

Lídia Paralta Gomes

Steph Chambers/Getty

Partilhar

Muitos positivos e jogos adiados. Esta tem sido a realidade das temporadas da NBA e da NFL - que terminou no domingo com o Super Bowl -, e uma realidade assumida quando os responsáveis por estas que são duas das mais importantes ligas desportivas dos Estados Unidos decidiram que a vida tinha de continuar, apesar da covid-19.

Contudo, há uma equipa nos Estados Unidos que passou toda a temporada sem qualquer caso de covid-19: os Seattle Seahawks, da NFL. O segredo esteve na organização, na antecipação, no conhecimento e em ir além dos protocolos impostos pela liga, isto sem nunca terem a necessidade de colocar os jogadores numa verdadeira bolha, como fez a NBA para terminar a temporada passada.

Ainda antes do início da pré-temporada, no final da primavera, os Seattle Seahawks colocaram o diretor do departamento de performance, Sam Ramsden, como responsável pela aplicação do protocolo. Não sendo um profissional de saúde, Ramsden é um respeitado veterano da estrutura da equipa do estado de Washington, com mais de 20 anos de casa. De acordo com o “New York Times”, tal como outras equipas da NFL, os Seahawks começaram por medidas básicas como a colocação de divisórias nos chuveiros e nos cacifos do centro de treinos. Contudo, foram mais longe: abriram mais dois balneários para evitar aglomerações e as reuniões passaram a ser feitas em salas maiores ou mesmo em campos de treino exteriores.

Além disso, todo o sistema de ventilação foi melhorado e as refeições passaram a ser feitas em tendas gigantes colocadas no exterior da academia da equipa. No que diz respeito à alimentação, os Seahawks optaram por nova solução alternativa: sabendo que vários contágios em outras equipas tinham acontecido na fila para a cantina e cafetaria, todos os pedidos de comida passaram a ser feitos através de uma aplicação de entregas, algo que foi também usado em hotéis nos jogos fora de Seattle.

Os responsáveis pela logística das viagens da equipa optaram também por dividir os quase 140 jogadores e membros do staff em sete autocarros nos percursos entre os estádios e os aeroportos, ao contrários dos recomendados quatro.

Os Seahawks caíram cedo nos playoffs mas a vitória mais importante foi a da segurança

Os Seahawks caíram cedo nos playoffs mas a vitória mais importante foi a da segurança

Tim Nwachukwu/Getty

Explica ainda o “New York Times” que, além dos quase 36 mil testes feitos ao longo dos últimos meses - os Seahawks foram os maiores defensores da testagem diária na NFL, algo que inicialmente não estava nos planos da liga -, dentro das instalações de treinos da equipa todos os dias eram distribuídos a jogadores e treinadores sensores que monitorizavam as distâncias mantidas entre eles e durante quanto tempo se encontravam.

Ramsden, pela proximidade que tinha com os jogadores, acabou por se tornar num elemento chave de todo este plano, recordando constantemente os atletas e outros membros da estrutura da necessidade de cumprir as regras sanitárias como o distanciamento e o uso de máscaras - diz o “New York Times” que o responsável ordenou a colocação de um aviso sonoro nos altifalantes nas instalações da equipa, que soava de 12 em 12 minutos, instando toda a gente a circular e não provocar ajuntamentos.

Famílias testadas e um treinador preocupado

O treinador Pete Carroll acabou por ser também parte ativa da implementação do protocolo. Para tal, procurou junto de médicos informações sobre testagem, o que levou os Seahawks a usarem não só o laboratório oficial da NFL como outro de retaguarda. Em consequência, a equipa conseguiu descobrir e provar alguns casos de falsos positivos ao longo da temporada.

Conhecido pelo seu espírito competitivo, Pete Carroll encontrou ainda formas alternativas de manter os seus jogadores motivados na hora de cumprir com as regras e evitar riscos desnecessários. Para tal, dividiu os jogadores em grupos e inventou um concurso, em que o vencedor seria a equipa que registasse menos contactos próximos - de acordo com o “New York Times”, venceu a equipa formada pelos wide receivers da equipa.

O treinador Pete Carroll foi parte ativa na motivação dos atletas

O treinador Pete Carroll foi parte ativa na motivação dos atletas

Icon Sportswire/Getty

Fora das instalações, a organização optou por não controlar a vida familiar dos jogadores e ao invés apostou novamente na testagem, investindo por conta própria em kits e em pessoal médico que testaram frequentemente familiares e amigos próximos dos atletas. Qualquer visita vinda de fora de Seattle tinha regras específicas: a pessoa em causa era obrigada a fazer teste à chegada à cidade e isolar-se durante 24 horas antes de um novo teste. Só com dois negativos a visita era autorizada.

Ao longo da temporada, os Seahawks tiveram apenas uma mão-cheia de jogadores indisponíveis devido à covid-19, mas sempre por contactos próximos que depois não resultaram em testes positivos. E apesar da equipa ter caído nos playoffs mais cedo do que as projeções apontavam, Pete Carroll sublinhou aos meios de comunicação dos Seahawks que nada apaga a grande vitória da temporada, que foi manter jogadores e staff saudáveis.

“Estivemos em cima do problema durante todo o ano e a nossa grande preocupação agora é que os jogadores, ao saírem para as suas terras natais, levem as lições que aprendemos e a disciplina que ganhámos e que partilhem isso com as famílias e com as pessoas com quem vão estar”, frisou o treinador, campeão da NFL com os Seahawks na época de 2013.