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O improvável Seferovic e o supersónico Nakajima

Em vez de uma, são duas as figuras deste fim de semana futebolístico. E é sobre elas que o escritor Bruno Vieira Amaral escreve nesta crónica que começa com uma célebre noite de julho de 2016

Bruno Vieira Amaral

Carlos Rodrigues

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Desde os acontecimentos da célebre noite de julho de 2016 em Paris, o conceito de herói improvável, que atingiu aí o seu zénite, conheceu uma desvalorização no mercado onde se transacionam os lugares-comuns futebolísticos. Como superar o guião escrito por um argumentista mordaz em que o mais verberado dos jogadores de uma equipa entra em campo para resolver um jogo com um golo todo dele no atabalhoamento, na fúria e na felicidade? Perto de Éder e do remate que deu a Portugal o primeiro grande título tudo tem o aroma familiar da previsibilidade.

Mas o conceito não perdeu toda a utilidade. O Benfica viveu um desses momentos de heroísmo improvável sub-Éder na passada terça-feira, com Alfa Semedo a marcar um golo de recorte ederiano quando a equipa, após um daqueles lapsos vitorianos em que passa de dominadora a saco de pancada, estava encostada às cordas, a encaixar sucessivos golpes do adversário na esperança meio atordoada de ouvir o gongo salvador.

No domingo, o conceito do herói improvável foi recuperado, embora o caso de Haris Seferovic apresente algumas particularidades. Desde logo, em Atenas, o avançado suíço já tinha marcado um golo e, no jogo de ontem, entrou como titular. Portanto, a improbabilidade de vestir o fato de herói tem menos que ver com o momento atual do que com o trajeto do suíço no clube. Veja-se: Seferovic chegou à Luz para ser o quarto avançado, lugar que, graças aos seus desempenhos na época passada, soube preservar, mesmo que, à sua frente, Mitroglou e Jiménez tenham dado lugar à sociedade Castillo e Ferreyra, duas dispendiosas incógnitas.

Convém dizer que o quarto avançado de um plantel tem quase o mesmo estatuto de um terceiro guarda-redes, é o segundo pneu sobresselente, um seguro contra ondas de lesões, castigos, tsunamis e outras catástrofes naturais ou disciplinares.

Deve caracterizar-se por um respeito mórbido pela hierarquia e por uma humildade quase patológica ou, pelo menos, de índole masoquista. O quarto avançado ideal é aquele que, lançado já nos descontos para queimar tempo, entra com a convicção fantasiosa de que poderá fazer o suficiente para evitar o tracinho que, na avaliação dos jornais desportivos aos jogadores, vale por um “nada a assinalar”. No fundo, o quarto avançado é aquele jogador cuja maior qualidade será a paciência de saber esperar pela sua oportunidade que, regra geral, chega num obscuro jogo da Taça da Liga ou quando, por azar ou incompetência, nenhum dos outros três concorrentes se encontra disponível.

Por tudo o que se viu até agora, pode afirmar-se com algum grau de certeza que Haris Seferovic é um dos melhores quartos avançados da história recente do Benfica, ultrapassando nessa peculiar liga nomes como o de Franco Jara, Rodrigo Mora e um Funes Mori de que poucos se lembrarão.

Seferovic chegou à Luz alvo de uma desconfiança inabitual sobretudo quando o plantel tinha três avançados que davam garantias de qualidade e golos. No entanto, a partir do momento que o clube deixou de comprar futebolistas por catálogo ou por resumos manhosos no Youtube os adeptos habituaram-se a dar o benefício da dúvida até às mais suspeitas contratações. E, de início, Seferovic justificou essa ténue confiança dos adeptos com golos. Estaria ali uma daquelas surpresas que depois rendem milhões? A ilusão durou pouco. O avançado suíço desapareceu no triângulo do Seixal, a deambular algures entre o campo de treinos, o ginásio e a sala de palestras. Os adeptos mais benevolentes atribuíam-lhe, sem muita convicção, aquelas qualidades menores que separam o jogador fraco do jogador completamente inepto e irrecuperável – “abre espaços para os outros”, “é esforçado”, “cria bom ambiente”, enfim, tudo o que serve para subtrair um jogador à má vontade e ao juízo implacável dos 60 mil treinadores que quinzenalmente se juntam na Luz.

Este ano, as contratações para a frente de ataque não entusiasmaram ninguém, mas foram em número suficiente para que Seferovic se mantivesse no posto que tão briosamente ocupou na época passada. Só que o peso excessivo de Castillo, a depressão de Ferreyra e a lombalgia de origem árabe de Jonas, obrigaram Rui Vitória e os adeptos a olhar para o mais feio dos filhos e a descortinar nele atributos até então ignorados. Neste contexto de fragilidade e carência atacante, cada passe certo de Seferovic tem merecido não só suspiros de alívio, mas fortes aplausos, cada assistência é um certificado de qualidade e cada golo uma prova de que poderá estar ali um génio tardiamente reconhecido. Assim, um golo contra o Porto a garantir uma rara vitória é, com toda a naturalidade, matéria de lenda, e eleva Seferovic, ainda que temporariamente, à categoria de raro São Jorge benfiquista capaz de, com uma estocada, derrubar o aparentemente invencível dragão.

Porém, se o golo de Seferovic teve algo de transcendente, para não dizer esotérico, seria uma extraordinária injustiça não destacar o engenheiro nipónico que, pouco depois do jogo da Luz, procedeu à desmontagem do conjunto de peças que, desde o início da época, José Peseiro vinha a montar pacientemente e que, em certos momentos, chegou a parecer uma equipa competitiva e sólida. Os fãs de Fórmula 1 recordar-se-ão de Satoru Nakajima, o primeiro japonês a realizar uma temporada inteira naquela modalidade (e que, segundo as más línguas, devia o seu lugar não ao mérito, mas à influência da Honda). O seu homónimo também é rápido e o grande mistério é saber que negociatas andam por aí para que um jogador como estes ainda esteja no Portimonense.

Aquela rapidez asiática e meio descerebrada que caracterizava o futebol de países como a Coreia do Sul e também o futebol do atual treinador do Portimonense, um extremo que, mais do que à antiga, era obsoleto, com uma velocidade que lhe permitia chegar à linha de fundo mais depressa do que as câmaras de televisão podiam acompanhar, mas que o fazia de olhos no chão e sem visão periférica, aquela rapidez, dizia eu, não é a de Shoya Nakajima. Esta é de outra natureza, é a rapidez do pensamento e da execução. Ao vê-lo jogar, passam-me vários nomes pela cabeça – Xavi, Iniesta, Pirlo, Deco, Speedy González – mas desconfio mesmo é que Nakajima jogue assim por doping tecnológico.

Passo a explicar: em minha casa, oiço sempre os vizinhos a gritar golo antes de ver o golo no meu televisor. Ora, Shoya Nakajima joga como se estivesse a receber as imagens antes de todos os outros jogadores em campo. Por isso, os futuros adversários andariam bem em descobrir qual o fornecedor de televisão do japonês porque poderá residir aí o segredo para o travar. Caso contrário, arriscam-se a jogar em desvantagem com um delay de alguns segundos, tempo suficiente para desmontar qualquer equipa, sobretudo aquelas que se movimentam em câmara lenta.

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