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Pedro Cruz

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Subdiretor de informação da SIC

Ala, arriba! O Varzim fez-se de gente do mar que não sabia nadar. De valentia, coragem, arrojo. De gente sem medo

Pedro Cruz escreve sobre o seu Varzim Sport Club e sobre o que é ser poveiro. Porque se joga a Taça da Liga, esta quarta-feira: FC Porto-Varzim (19h, SportTV)

Pedro Cruz

Gualter Fatia

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Comecem por estranhar o título, se chegarem a lê-lo. Só um poveiro o percebe.
E, onde quer que haja um poveiro, a esta hora, sorri diante do aparelho onde escolheu ler estas linhas.

[Digo-vos, no fim, o que quer dizer]

O meu pai contava sempre com orgulho a história daquele treinador que era "maluco", algures nos anos sessenta, e que no princípio de cada época perguntava ao plantel:

– Quem daqui não sabe nadar?

Pobres dos que não sabiam.

Saía do treino, atravessava a rua e mandava-os saltar de um penhasco. Tinham de ir até ao fundo do mar e trazer um punhado de areia na mão.

Sem condescendências.

Só chegados à superfície com areia do fundo guardada na mão podiam, então, fazer parte do plantel.

Não se pode ser um lobo do mar e ter medo dele.
Não se pode ser do Varzim e não amar a Póvoa.
Não se podia jogar no Varzim sem dar provas.

De coragem, de compromisso, de valentia, de galhardia, como diz o hino.

O Varzim fez-se nisto. De gente do mar que não sabia nadar. De valentia dentro do campo. De coragem, arrojo, sem medo da luta, sem virar a cara aos desafios, a olhar nos olhos os adversários.

O Varzim é isto. Clube de gente sem medo.

Aquela bancada onde me sento sempre foi feita a pulso, aos fins de semana, por sócios e não sócios, pescadores e outros, que, tijolo a tijolo, a ergueram.

Sem subsídios, sem peditórios, sem mão estendida. Feita com as nossas próprias mãos. Por isso, dá tanto gozo lá entrar.

É como se estivéssemos em casa. E estamos.

Ser do Varzim não é uma escolha. Nasce connosco, faz parte do património genético e de uma herança que deixámos a quem vem depois.

Tivemos um treinador que obrigou o plantel a usar camisola preta, em vez das riscas verticais pretas e brancas. Tinha a teoria que, vestidos de preto, os seus atletas impunham mais respeito e que o preto assustava os adversários.

Tinha razão.

Por dois anos consecutivos, ficámos em quinto lugar. Foi nos anos oitenta e não havia essa coisa da Liga Europa. Nunca fomos a provas europeias. Se fosse hoje, estaríamos lá.

Podia, agora, enumerar números e factos.

Da quantidade de jogadores da cantera do Varzim - sim, o Varzim sempre teve o que agora se chama «formação», e era boa - que foram parar ao Benfica e ao FC Porto (sobretudo) e que se tornaram grandes nomes do futebol. Alguns passaram fronteiras (pronto, não insistam, cito apenas alguns, de memória, para não dizerem que faço bluff)

Fonseca
Tibi
Lima Pereira
André
Vitoriano
Vata
Rui Barros
André André
Bruno Alves

O Varzim nunca se vergou.
É de antes quebrar que torcer.

Quarta-feira, no Dragão, diante do Porto, espero que seja assim.

Um jogo de coragem, alma, raça, galhardia, respeito mas não medo.
De olhar nos olhos e fazer das tripas coração.
De deixar a pele em campo, se for preciso.
De sair do campo de cabeça erguida. Seja qual for o resultado.

Pior do que perder é não ir a jogo.

Quando a bola começar a rolar, não interessa nada que um jogador do FC Porto pague todo o nosso plantel. Só interessa aquele emblema, aquelas riscas. E lembrar que, por duas vezes, o Varzim ficou melhor classificado que o FC Porto no Campeonato Nacional de Futebol.

Venham eles.

O Porto, o Benfica, o Sporting, quem for.

Ah!

E “Ala Arriba” é um grito coletivo.

Quando os barcos chegavam a terra ficavam na zona da maré. Depois, era preciso puxá-los para cima, à força de braços, de voluntarismo, de união, de coletivo.

Na Póvoa, não contamos até três.
Na Póvoa, o Mestre dá a contagem:

- Ala, ala!
- Arriba

(e ao arriba, que quer dizer para cima, todos puxavam ao mesmo tempo).

É isto que nos faz fortes.

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