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Breve história da brevidade (Bruno Vieira Amaral sobre a condição do interino)

O escritor Bruno Vieira Amaral escreve esta semana sobre o fado do treinador interino: há Chalana, Peseiro e Tiago Fernandes

Bruno Vieira Amaral

AFP

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Em 1590, Giovanni Battista Castagna tornou-se o 229º Papa da Igreja Católica com o nome de Urbano VII. A 27 de setembro, treze dias após a eleição, morreu de malária (ou, se quisermos ser mais danbrownistas que Dan Brown, vítima de uma terrível conspiração dos templários). O príncipe Luís António, duque de Angoulême, foi rei de França durante vinte minutos, entre a abdicação do seu pai, Carlos X, e a sua própria abdicação em favor do sobrinho, Henrique V. O nono presidente dos Estados Unidos, William Henry Harrison, tomou posse a 4 de março de 1841. Adoeceu logo a seguir e, apesar dos esforços dos médicos que lhe ministraram ópio e aplicaram sanguessugas e óleo de rícino, morreu exatamente um mês depois, a 4 de abril daquele ano, vítima de pneumonia. Em 1963, João Guimarães Rosa foi finalmente eleito para a Academia Brasileira das Letras, mas só aceitou tomar posse a 16 de novembro de 1967. Três dias depois, sofreu um enfarte e morreu.

Há, na história da humanidade, muitos outros exemplos de reinados breves, de lideranças efémeras e de domínios momentâneos cuja única razão para os lembrarmos é a sua própria brevidade. No caso do futebol, mais precisamente no caso dos treinadores de futebol, isso gerou uma categoria à parte, a do treinador interino, uma das espécies mais curiosas do desporto. Após uma chicotada psicológica, e mesmo quando já têm em mente o sucessor, os dirigentes costumam deixar um hiato entre a saída de um treinador e o anúncio do novo ocupante do lugar. Para gerir o grupo, recorrem a um dos adjuntos ou a uma antiga glória do clube capaz de amortecer a insatisfação e impaciência dos sócios. Os jogos orientados pelos treinadores interinos são um limbo em que as derrotas não doem tanto e as vitórias satisfazem apenas o suficiente para gerar a suspeita, infundada na maior parte das vezes, de que talvez aquela fosse uma boa solução a longo prazo. Anunciado o novo treinador, o interino esfuma-se, desaparece numa nuvem de agradecimentos ao seu espírito de missão e regressa abnegadamente às funções anteriores ou vai treinar um obscuro clube cipriota.

Ao contrário de todos os outros treinadores, cujo futuro depende dos resultados, o treinador interino já sabe que, independentemente dos resultados, o seu destino é o despedimento. Bem, despedimento não é a “mot juste”. Chamemos-lhe remoção indolor do cargo. É que os reinados dos interinos, por definição breves, têm essas características: tudo neles é indolor, intangível, invisível e olvidável. É como se nunca tivessem acontecido. Ou quase. Eu, por exemplo, lembro-me bem do crime lesa-pátria que foi a passagem sumária de Fernando Chalana pelo banco do Benfica. Ver uma das maiores glórias do clube completamente exposta aos ataques dos adversário e sem a proteção da famosa “estrutura” foi um dos momentos mais negros da presidência de Luís Filipe Vieira.

Mesmo assim, os adeptos poupam o interino ao julgamento severo reservado a todos os treinadores. Para quê gastar munições com quem está ali a apagar um fogo? Por isso, o treinador interino goza de uma irresponsabilidade acompanhada da indulgência dos adeptos que lhe permite proceder às experiências táticas mais extravagantes, emitir as declarações mais obtusas nas conferências de imprensa e lançar, ao arrepio da lógica e do bom senso, os jogadores mais improváveis. Ninguém lhe liga. Ou quase. Regressando a Fernando Chalana, reza a lenda que foi ele, na sua primeira experiência como interino em 2002, a inventar Miguel a lateral-direito.

No domingo, Tiago Fernandes, incumbido de fazer a ponte entre José Peseiro e, ao que tudo indica, Marcel Keizer, ou seja, encarregado de ligar o desastre ao desconhecido, também quis adaptar um jogador a novas funções e apostou em Lumor, um lateral-esquerdo a quem foi pedido que fizesse de lateral-esquerdo. Após o jogo, que terminou com uma vitória suada do Sporting e serviu para mostrar pela enésima vez que José Peseiro é capaz de ser o treinador mais azarado do mundo, o interino afirmou que a sua equipa podia ter ganhado por três ou quatro a um. Outro treinador veria as suas escolhas e as suas afirmações submetidas a um minucioso escrutínio. Já o interino beneficia da liberdade da sua irrelevância e do horizonte curto da sua permanência no lugar. Como um condenado à morte tem direito a escolher uma última refeição, o interino tem direito a banquetear-se com declarações delirantes e apostas originais.

Na verdade, Tiago Fernandes podia ter feito uma dupla de centrais com Viviano e Bas Dost, podia ter dito que o resultado mais justo seria uma vitória do Sporting por cinco a zero ou que o União da Madeira merecia ter marcado três golos. Um interino é quase inimputável e tem todo o direito a trocar o nome dos adversários, as posições dos jogadores e o sistema de jogo. Digamos que o interino é uma espécie de inconsciente dos treinadores que vivem reprimidos com medo do cutelo. Ora, para o interino, a única certeza da vida é o cutelo e essa certeza liberta-o da lei que subjuga os outros. Numa época em que muitos clubes querem encontrar o seu Ferguson, um treinador para a vida toda, seria melhor que alguns treinadores fossem possuídos pelo espírito livre, um tanto anárquico e irresponsável, do interino, como se a carreira acabasse amanhã, como se cada jogo fosse o último. É que, para os treinadores interinos, normalmente é.