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O grande Boavista

O escritor Bruno Vieira Amaral escreve sobre o Boavistão da canela até ao pescoço, a antítese do futebol de gala e sapato de verniz, futebol dos salões jogado como valsa, entretenimento para multimilionários árabes, russos e chineses

Bruno Vieira Amaral

MIGUEL RIOPA

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Para além do futebol de gala e sapato de verniz, futebol dos salões jogado como valsa, entretenimento para multimilionários árabes, russos e chineses; para além do futebol global do glamour da Champions, do futebol palco de celebridades, do futebol para proteger os artistas; para além do futebol elegante que desliza sobre o relvado, do futebol dos maravilhosos golos impossíveis, das jogadas enleantes protagonizadas por superestrelas intocáveis; para além do futebol de luxo, do futebol Louis Vuitton, do futebol dos cem milhões para cima; para além deste futebol que é, digamo-lo sem pejos ideológicos, um triunfo do capitalismo, com a circulação obscena de dinheiro, o vedetismo de intermediários, a mercantilização do jogo e a asseptização de jogadores e treinadores por via de discursos calibrados por departamentos de comunicação e marketing num fenómeno de gentrificação em que as origens populares do desporto só interessam na medida em que lhe emprestem uma pátina de autenticidade que os milhões, por si só, não conseguem criar; para além deste futebol subsiste um outro futebol.

Um futebol bairrista, de dentes rilhados, língua mordida e de “até ao pescoço é canela”, um futebol pouco tocado pelas musas mas banhado na glória operária do próprio suor, um futebol que não desiste até ao último minuto e para o qual cada bola é a última, um futebol de navalhada metafórica e impropérios de presidiário, um futebol que entra de carrinho e sai de maca de braço no ar a pedir que não o tirem de campo, um futebol de correrias, pontapé para a frente e que grita do outro lado das quatro linhas “safa!”, um futebol em que um corte é festejado como um golo e os golos são festejados como golpes, um futebol demasiado simples para ser filosofia e demasiado tosco para ser arte, um futebol que é apenas uma vontade em ação, a vida da rua transplantada para um retângulo verde e as suas regras idealistas, um futebol como aquilo que acontece na vida das pessoas comuns num domingo à tarde. Esse futebol, cuja mitologia é tão importante para o sucesso da Premier League, que tenta preservar essa pureza prístina e conjugá-la com a hipermodernidade do futebol global e os seus projetos de superligas europeias, vai sobrevivendo em pequenas bolsas de resistência, arrastado por rebeldes como Diego Simeone ou ancorado em certas ideias de identidade que se recusam a morrer sem dar luta.

Em Portugal nenhum clube representa tão bem esse futebol como o Boavista. Mesmo quando se aproximou dos grandes, mesmo quando foi campeão, mesmo quando tinha nas suas fileiras artistas como João Vieira Pinto ou Ion Timofte, nunca o Boavista perdeu aquela fibra lutadora, briguenta, insubmissa que geralmente se associa ao período de Jaime Pacheco, mas que é, na verdade, património do clube e dos seus adeptos. Mais do que património, é o seu código genético, a sua identidade. E em nenhum jogo essa identidade é mais atiçada e viva do que nos desafios contra os grandes e, em especial, no derby da Invicta. Ser o segundo clube de uma cidade que se confunde com o primeiro clube não é um handicap, é uma razão de ser. Por isso, quando enfrenta o principal clube da cidade, o Boavista não está apenas a disputar três pontos, está a defender o seu território. Que este espírito continue vivo após um período negro em que o clube poderia ter desaparecido, é prova da força desta ideia.

O jogo de ontem foi feio, quezilento, suado, rasgadinho, ou seja, foi jogado de acordo com a cartilha boavisteira. Teve peripécias sul-americanas, entradas marciais e bancadas em ebulição; bancos nervosos, trocas de insultos e um ambiente geral de campo de batalha, numa demonstração de que o futebol é a continuação da vida verdadeira por outros meios. Sem momentos de génio nem espaço para o brilho dos solistas, triunfaram os estivadores, os operários. Quase no fim do jogo, o boavisteiro Rochinha corria atrás dos adversários como um

perdigueiro em busca da caça, na fronteira da legalidade, nos limites do esforço, como se nada mais existisse fora do campo. Se o golo de Hernâni resolveu o jogo, aquela jogada de Rochinha definiu-o, captou a sua essência. Ainda antes do jogo acabar, alguns jogadores do Boavista caíram no relvado, mas não havia nada a lamentar. Nem a injustiça do resultado, nem a crueldade de um golo sofrido no último minuto. Durante noventa minutos deram tudo. Deram-nos tudo. Deram-nos futebol sem filtros, sem rendas, sem enfeites. Futebol cru. Futebol vivo.