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Emotiva. Vibrante. Dramática. "Loca". A final da Libertadores contada por quem esteve lá

Maximiliano Benozzi é jornalista no jornal argentino "Clarín" e esteve no Bernabéu a assistir à finalíssima da Libertadores, depois de também ter assistido ao drama no Monumental. Eis o relato de "mais uma história do futebol sul-americano, daquelas que parecem inventadas"

Maximiliano Benozzi

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Emotiva. Vibrante. Dramática. "Loca". Efusiva. Efervescente. Foi assim esta final da Libertadores entre os dois eternos rivais da Argentina, com um vencedor: River Plate, campeão da América pela quarta vez; e com um perdedor: Boca Juniores, que ficou à porta da sua sétima conquista na prova.

O Santiago Bernabéu foi o cenário em que se disputou um dos Superclássicos mais tremendos da história, que dificilmente poderá ser esquecido, uma vez que nunca tinha havido uma Copa assim, que é a Liga dos Campeões sul-americana, mas que tem muitas diferenças para a sua congénere europeia, logicamente, sobretudo a nível organizacional. Se não, não teria sido exportada drasticamente para Espanha.

Logicamente, apesar da imponência do Bernabéu, faltou ao jogo a paixão com que se vive o futebol na Argentina. O Monumental teria sido um caldeirão num jogo assim, um autêntico coliseu romano (de facto a construção do estádio do River inspirou-se nesse lugar histórico de Roma). O Bernabéu foi apenas frio.

É verdade que os hinchas que chegaram de Buenos Aires, de outras partes do mundo ou os que viviam Madrid tentaram dar-lhe cor. Com bombos, bandeiras, cachecóis, camisolas. Muita cor. Os do Boca na bancada sul. Os do River na Norte.

É uma imagem curiosa, esse duelo de hinchadas, porque no futebol argentino já praticamente não nos é possível vê-lo, porque os adeptos visitantes estão praticamente proibidos de ir ao estádio do rival. Sim, parece mentira, mas é mesmo assim. Coisas de terceiro mundo, é o que nos dizem.

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Houve muita segurança no Bernabéu. A polícia espanhola foi muito cuidadosa e rigorosa, revistou tudo e todos. Não houve falhas nem problemas. Os hinchas do Boca retiraram-se em silêncio, cabisbaixos, tristes, mas sem criar incidentes. Os hinchas do River ficaram por ali um bom bocado a festejar. Claro, a glória era deles e a Copa também. E os jogadores do River fizeram-lhes a vontade e deram a volta olímpica ao Bernabéu.

Quem o imaginaria? A Casa Branca do futebol mundial, que também tem parecenças com o River, que dizem que tem a Casa Branca do futebol argentino. E mais: tem em comum Alfredo Di Stéfano, glória do Real Madrid, "a flecha loira". Onde é que ele começou a carreira futebolística? No River. Parece o destino a piscar-nos o olho. É que Di Stéfano também foi treinador, tanto do River como do Boca. E conseguiu ser campeão nos dois.

Chris Brunskill/Fantasista

Notava-se também no Bernabéu que havia muitos neutros. Espanhóis que não eram nem do River nem do Boca. Gente que estava na bancada mas não sofreu. Ficaram a desfrutar o espetáculo. Não se exaltaram. Comiam pipocas enquanto os Xeneizes os Millonarios comiam as unhas.

Mesmo assim, o jogo começou com um clima muito tenso. Nervos. Dificuldades. Bola repartida. E a tensão foi passando para as tribunas.

Silêncio.

De vez em quando, um cântico. E a devolução de outro, do outro lado. Cânticos para aquecer.

O Boca foi melhorando e Benedetto, avançado da equipa de Barros Schelotto, marcou, mesmo antes do final da 1ª parte. A festa foi azul e amarela no intervalo, mas cautelosa. Ninguém queria festejar antes do tempo.

E fizeram bem. Porque o que se seguiu para os Xeneizes foi um pesadelo - um verdadeiro filme de terror.

Matthias Hangst

Com Juan Quintero, ou a partir dele, o River começou a reerguer-se. Os seus hinchas começaram-se a levantar-se no topo norte e indignaram-se quando o árbitro uruguaio Andrés Cunha (exibição fraca) não marcou penálti a uma falta de Andrada a Pratto.

Já era noite no Bernabéu e os hinchas do River começaram a sentir que a noite poderia ser deles. Marcelo Gallardo, treinador que é uma lenda do River (o primeiro como treinador a conquistador duas Libertadores, a de 2015 e a deste ano; e ainda tem outra como jogador, em 1996), ensinou-lhes a acreditar e a confiar.

E Pratto teve a sua vingança. Depois de uma jogada de Nacho Fernández e de Palacios, empatou o jogo. Como na Bombonera. Queixavam-se dos 14 milhões de dólares que pagaram por ele, mas ele devolveu-os na totalidade nestas finais.

Os 90 minutos terminaram empatados e a tensão no ar cresceu. O silêncio agora falava e dizia que havia nervos em todo o lado. Porque ninguém sabia de onde viria a bala. E a preocupação mudou de dono quando o colombiano Wilmar Barrios foi expulso. Começava a desmoronar-se o mundo para o Boca. Resistiram, mas não alcançaram.

OSCAR DEL POZO

Juan Fernando Quintero, já na 2ª parte do prolongamento, meteu lá dentro uma bomba canhota que foi um punhal cravado no peito dos hinchas do Boca. E uma alegria para os do River. Emoção pura nas bancadas, finalmente. O Boca foi à procura do empate, para os penáltis, mas o River aguentou.

E encerrou a história com Pity Martínez, esse loco que enlouqueceu os hinchas do River - os que estavam ali e os que viveram tudo a partir da Argentina. Que maneira incrível de fechar uma final!

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Depois do apito final, festa no topo norte e deceção no topo sul. Os do River com a glória nas mãos, num sonho maravilhoso, e real. River é campeão da América... no Bernabéu. Ainda custa crer nesta frase. É quase de conto de crianças ou de filme de cinema. Ganhou o River a final que durou 28 dias, depois de suspensões e incidentes argentinos. O River consagrou-se rei da América em Espanha. Valha-nos o paradoxo.

É mais uma história do futebol sul-americano, daquelas que parecem inventadas.