Tribuna Expresso

Perfil

Crónica

Mourinho à deriva

Bruno Vieira Amaral escreve, esta semana, sobre José Mourinho e como o treinador português entrou numa espiral negativa que, mais do que catastrófica ou apocalíptica, é assustadoramente mediana

Bruno Vieira Amaral

NurPhoto

Partilhar

Toda a gente tem uma teoria sobre o declínio de José Mourinho: a maldição da terceira época, o estar talhado para orientar clubes que não partem como favoritos, a frustração de não ter sido convidado para treinar o Barcelona, a ascensão de Guardiola, o desgaste dos anos no Real Madrid, a relação com Jorge Mendes em que, a dada altura, Mourinho é que passou a ser o representante dos interesses do empresário, o episódio Eva Carneiro, a suposta incapacidade de lidar com o ego de mega-estrelas etc. O que torna este declínio espectacular e irresistível aos olhos do público é o seu protagonista e o navio que comanda. Não é um daqueles trajetos descendentes em que um treinador outrora prestigiado vai treinando clubes de segunda ordem até desaparecer do mapa. Não. É o desgoverno da personalidade mais magnética do futebol moderno num dos maiores e mais ricos clubes do mundo, à vista de toda a gente, sem espaço para recuos ou fugas ao foco mediático.

Aconteça o que acontecer numa jornada da Premier League, é certo que haverá um artigo em todos os jornais com o nome de Mourinho na manchete. Se o campeonato inglês fosse uma série televisiva, a história de Mourinho, os seus insucessos, dramas, desvarios, zangas e conferências de imprensa antológicas, continuaria a ser um dos principais, se não o principal, arco narrativo. Em tempos antigos, essa era a forma que o treinador português usava para proteger os seus jogadores, funcionando como o escudo que os defendia. Hoje, esse escudo serve muitas vezes para desviar as críticas para os próprios jogadores, criando um ambiente tóxico para o talento e a união, como se as melhores qualidades de Mourinho se tivessem transformado nos seus piores defeitos. Daquele dom que, mais do que inovações táticas, parecia ser o toque mágico de Mourinho, a capacidade de ter um balneário pronto a segui-lo até ao fim do mundo, não há rasto. Se havia jogadores capazes de dar a vida por Mourinho, hoje provavelmente hesitariam em atirar-lhe uma boia se o vissem a afogar-se. Hábil a criar inimigos externos para fortalecer os seus exércitos de cães de guerra sedentos de glória, Mourinho levou a aptidão tão longe que inventou uma fórmula infalível para criar inimigos internos, de todos os mais perigosos.

A minha teoria, tão válida como qualquer outra, é que a viragem ocorreu no momento de consagração de um estilo, aquela célebre meia-final em que o Inter eliminou o Barcelona e poupou o Real Madrid à eterna ignomínia de ver o grande rival a levantar a “sua” taça no Santiago Bernabéu. Foi aí que Mourinho desistiu de procurar fórmulas originais e se especializou em antídotos e se inscreveu orgulhosamente no lado negro da força. Visto a esta distância, o seu tour de force europeu no Inter foi uma vitória de Pirro, como a que levou o rei da antiguidade a dizer “mais uma vitória destas e estamos perdidos”. Porém, para Mourinho, foi a certeza de que estava no caminho certo, o caminho de cortar o caminho a adversários mais fortes e habilidosos, caminho que o conduziu ao ponto onde se encontra hoje.

Hoje, em comparação com Klopp e Guardiola, até mesmo com Pochettino, Sarri ou Emery, parece um homem a advogar as vantagens de fazer fogo batendo duas pedras quando os outros avançam para ele de lança-chamas. Os jogos contra os adversários do seu campeonato, jogos em que, por orgulho e tradição, o Manchester United se mostrava de peito aberto, tornaram-se num martírio para os adeptos que ainda não esqueceram aquela fibra que empurrava a equipa para reviravoltas épicas. Esperava-se que Mourinho, mais do que qualidade de jogo, recuperasse essa fibra perdida no dia em que Sir Alex Ferguson se retirou. E o que se vê, como ontem se viu em Anfield, é uma equipa sem qualidade de jogo e sem fibra,

E o que se vê, como ontem se viu em Anfield, é uma equipa sem qualidade de jogo e sem fibra, que se defende como pode porque não sabe atacar e não sabe defender. Ontem, a humilhação não veio do desfecho (uma derrota contra o Liverpool não é um fenómeno), nem do resultado (3-1 foi até bem simpático), mas do abismo entre as duas equipas. Os homens de Klopp remataram trinta e seis vezes à baliza de David de Gea, um recorde dos “reds” nos últimos dois anos na Premier League. Se Mourinho tinha um plano para travar o Liverpool, porque certamente não tinha nenhum plano para o atacar, nenhum dos jogadores do United em campo parecia disposto a cumpri-lo, isto partindo do princípio benevolente que o conheciam, percebiam e concordavam com ele.

Foi apenas há três anos que Mourinho conquistou um terceiro campeonato pelo Chelsea e mesmo o seu Real Madrid teve momentos de grande futebol, um futebol geneticamente diferente do dos arquirrivais catalães, feito de velocidade e estocadas sucessivas que tinha a virtude de exibir um estilo vibrante, carregado de adrenalina, em contraponto ao controlo soporífero do pior tiki-taka. E, se recuarmos mais no tempo, é impossível não destacar a qualidade do Porto que trucidou a Lazio numa meia-final da taça Uefa, o poder do Chelsea dos dois primeiros anos que agarrou o campeonato pelo pescoço e que enfrentava qualquer equipa europeia de olhos nos olhos sem especulações excessivas (outro momento de viragem talvez tenham sido os confrontos cerebrais com o Liverpool de Benitez, que Jorge Valdano descreveu para a eternidade como “mierda colgada de un palo” ou, em inglês, “shit on a stick”), ou a raça do Inter num último hurrah! dos seus velhos guerreiros. Hoje, sobra aquela sensação de que, ao contrário do que acontecia antes, em que Mourinho transformava operários em solistas, qualquer outro treinador seria capaz de fazer melhor com recursos humanos onde se incluem, é bom não esquecer, De Gea, Bailly, Matic, Mata, Pogba, Rashford, Lukaku e Alexis Sanchéz.

José Mourinho entrou numa espiral negativa que, mais do que catastrófica ou apocalíptica, é assustadoramente mediana e só a sua personalidade prometeica combinada com a dimensão do United lhe dá uma grandeza trágica. É por isso que não conseguimos desviar os olhos deste acidente banal. Não é o Titanic a embater num icebergue, mas antes um paquete de luxo, comandado pelo mais insolente dos capitães, a navegar sem rumo pelos mares calmos da mediocridade absoluta.