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Dia de São Futebol

A crónica do escritor Bruno Vieira Amaral sobre o que realmente aconteceu neste domingo gordo de bola, o dia sacrossanto para quem gosta deste desporto

Bruno Vieira Amaral

PATRICIA DE MELO MOREIRA

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Quem tivesse tido o primeiro contacto com o futebol português na tarde de ontem ficaria com a impressão de que o nosso campeonato nada deve às emoções trepidantes da liga inglesa ou à competitividade incansável da liga alemã (pelo menos nos anos em que os senhores de Munique resolvem tirar o pé do acelerador e dar espaço para que os adversários também conquistem o seu trofeuzinho). Estádios cheios, grandes golos, poucas polémicas de apito. Que maravilha é o futebol jogado no seu dia!

O domingo gordo serviu também para reavaliações e uma confirmação. A confirmação é a de que este Porto é o candidato mais forte à conquista do título, mesmo que pareça estar a viciar-se perigosamente na tática da lebre, deixando os adversários partir na frente para logo desatar numa correria que só abranda quando os ultrapassa. Lá chegará o dia em que a tartaruga ganha a corrida, mas ontem não foi o dia, mesmo com um Rio Ave competente e com equipamento adequado. Décima quinta vitória consecutiva e aquelas palavras de Sérgio Conceição após a derrota na Luz, que talvez não perdessem mais jogos até ao fim, que na altura chocalhavam o desespero e a frustração, agora soam como uma premonição que deve encher os adversários de pavor com aquilo a que o agente Smith chamava de “o som da inevitabilidade.”

Na Luz, o Benfica somítico dos últimos jogos, com exibições esfarrapadas e avarentas, deu lugar a uma equipa liberal, a extravasar de generosidade e de alegria. Ninguém quis monopolizar a felicidade e os seis golos tiveram seis autores diferentes, com André Almeida a reforçar o seu estatuto de marcador de geniais golos involuntários – o de ontem resultou de um remate com a canela em que o defesa-direito se desequilibrou e caiu, e a bola, indiferente às circunstâncias, foi ter ao lugar aonde sempre a esperam. A equipa miseravelmente poupadinha que andava a dar cabo dos nervos dos adeptos foi substituída por uma versão esbanjadora de talento, energia e eficácia. Isto não significa que o tribunal da Luz já tenha absolvido Rui Vitória. Principal culpado das derrotas no veredicto popular, Vitória já não consegue atrair para si os louros dos sucessos. É um despedimento à espera de que a luz se apague.

Outra reavaliação obrigatória em função dos resultados de ontem foi a do estatuto do Sporting de Braga, um dos dramas secundários preferidos da comunicação social. Determinar se o Braga é ou não candidato ao título, tentar arrancar do treinador a confirmação de que o Braga é mesmo candidato ao título ou de que não é candidato ao título, interpretando as declarações como sintoma de arrogância ou de excessiva humildade, de arrojo ou de cálculo, é um dos grandes sub-enredos da telenovela futebolística em Portugal, sobretudo nos anos em que o Braga faz peito aos três grandes. O resultado de ontem, que para muitos equivale a um certificado de não-candidatura, não é suficiente para que, nas próximas semanas, Abel Ferreira deixe de ser bombardeado com a original questão: “Afinal, o Sporting de Braga é ou não candidato ao título?” Aliás, é até bem provável que a dimensão do desastre da Luz estimule reflexões parasitárias do género “Pode um candidato ao título apanhar 6-2?” ou talvez leve algum jornalista a recuperar a goleada que o Benfica sofreu em Setúbal na época 93/94, sublinhando que, mesmo assim, as águias conquistaram o campeonato.

Se o jogo na Luz teve fogo-de-artifício em sentido figurado, em Guimarães é que o espectáculo terminou com pirotecnia. O Keizerball foi sabotado pelo Castroball e a máquina que vinha a submeter os adversários a goleadas impiedosas não foi sequer capaz de um golinho que resgatasse um ponto. Mas que uma derrota não sirva para diminuir os feitos do treinador holandês.

Talvez não tenha plantel para o futebol que pretende jogar, mas merece elogios pela forma como entrou no futebol português, sem complexos de superioridade nem de inferioridade, sereno e educado e a pôr em causa, mais pelas ações do que pelas palavras, essa noção paroquial e corporativista de que não há treinadores como os treinadores portugueses e que a adaptação de um treinador estrangeiro às peculiaridades do nosso futebol é quase impossível. A qualidade de muitos treinadores portugueses – ao invés da qualidade do “treinador português”, esse manto mítico cerzido pelo talento de uns e com que outros procuram cobrir as suas insuficiências – é inquestionável (Luís Castro, também ele um primor de educação e serenidade, é um dos bons exemplos), mas não deve servir para tornar o nosso futebol mais insular e fechado a novas ideias e novos métodos. De vez em quando, é refrescante receber as ideias de um treinador que nunca ouviu falar do estádio Marcolino de Castro e que considere a percentagem de 50% de tempo útil de jogo um atentado ao futebol.

Pela sua própria natureza, as reavaliações são provisórias e só as próximas jornadas dirão se as notícias da retoma do Benfica não foram manifestamente exageradas, se as notícias do fim da candidatura do Braga não foram manifestamente apressadas e se as notícias do efeito de Marcel Keiser não foram fruto de um entusiasmo precoce. Neste momento, só o Porto oferece certezas e mesmo sabendo que a série de vitórias acabará por ser interrompida não deve haver muitos apostadores a pôr o dinheiro numa derrota da equipa de Sérgio Conceição. Num mundo em constante mudança, os adeptos portistas devem ficar felizes por algumas coisas serem, como se costuma dizer, “dinheiro em caixa”. Para os restantes adeptos que não partilhem o amor pelo azul-e-branco resta a certeza reconfortante de que, por muitas voltas que se dê ao calendário, por muitas imposições dos detentores dos direitos televisivos, nada se compara um domingo transbordante de futebol.