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Futebol: coisa acéfala, boçal e linda

Bruno Vieira Amaral escreve sobre a alegria de "dar um chute na bola", esse tão mágico e magistral gesto que o faz associar a mitologia grega a um campo de outros tempos na Amadora

Bruno Vieira Amaral

MIGUEL A. LOPES/LUSA

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Numa publicação nas redes sociais, o professor Frederico Lourenço escreveu, entre outras coisas mais importantes, que sempre achou o futebol uma atividade um tanto boçal e acéfala. Eu acrescento: primitiva e básica. E maravilhosa. Se não fosse assim, como se poderia explicar a alegria pura de, aos seis anos, marcar um golo no pátio da escola primária como se estivesse a disputar o mais importante dos troféus, como se em vez de uma plateia de pedras, prédios em construção e árvores despidas, milhões de pessoas nos estivessem a ver e a festejar aquele feito?

Sim, o futebol é uma coisa boçal, acéfala, primitiva e básica e é por isso que, como escreveu o cronista Paulo Mendes Campos, um homem adulto que vê uma bola vir na sua direção não a pega gentilmente com os braços para a devolver aos donos. Mesmo desarticulado, dorido, sem jeito, ele dificilmente será capaz de resistir à tentação de chutar a bola para uma baliza imaginária: “O brinquedo essencial do homem é a bola. Quem ganha uma bola descobre dois mundos, o de dentro e o de fora. Um psicólogo do futebol imagina a seguinte cena: meninos jogam na rua; a bola sobra para o cavalheiro que passa. Que fará o austero transeunte? Ficará indiferente? Devolverá a bola com as mãos? Já vimos todos nós o que ele irá fazer: o homem, sem perder a gravidade rebate a bola com o pé, aparentemente para prestar um serviço à garotada, mas na Verdade porque não resiste ao elástico e impulsivo prazer de dar um chute. É sempre um grande prazer, uma das coisas agradáveis da vida, dar um chute na bola, sobretudo quando conseguimos colocá-la na meta almejada.”

Há dias, os miúdos da escola dos meus filhos pediram-me que lhes devolvesse a bola que tinha saltado a rede e estava perdida no meio da estrada. Em vez de a fazer passar com delicadeza por cima da rede, algo de acéfalo e boçal fez com que eu a chutasse. Ver a bola subir, tocar os ramos das árvores e cair na relva artificial do outro lado da rede: que proeza magnífica! Que bela maneira de começar o dia!

Veja-se o primeiro golo do Benfica ontem contra o Rio Ave. João Félix conduz a bola, passa para Cervi que abre na esquerda para Grimaldo, este devolve para o centro da grande área onde Félix, pura inteligência em movimento, deixa a bola passar entre as pernas para Seferovic que, numa fração de segundo, toma uma decisão que tem tanto de instintivo como de genial: dá um toque com o calcanhar esquerdo que tira o adversário da jogada e depois, em esforço, com o mesmo pé esquerdo, ainda consegue rematar para a baliza.

Ou veja-se o toque de graça e subtileza de Félix no segundo golo, a aproveitar a velocidade da bola para a desviar do guarda-redes num gesto tão preciso quanto a tacada de um mestre do snooker. Ser testemunha destes atos e só ver no futebol o que este tem de acéfalo e boçal não é, para mim, sintoma de elitismo ou um desprezo aceitável por uma atividade menor. É, que me perdoem os indiferentes ao “pontapé na bola”, uma falha da inteligência, uma falha na capacidade de apreciação estética. Perdoem-me eles a mim e que Deus os perdoe a eles.

Na “Ilíada”, poema homérico que Frederico Lourenço traduziu com excelência, as descrições de atos terríveis sucedem-se a um ritmo que traz à boca do leitor o sabor a sangue e destruição. No capítulo VI, Ajax, o dos aqueus e não o de Amesterdão, derruba “o alto e possante Acamante”, desferindo-lhe um golpe no elmo: “pela testa dentro lhe empurrou a lança”. Nestor exorta os seus companheiros: “Que ninguém fique para trás, ávido de despojos, para que maiores quantidades possa levar para as naus, mas chacinemos homens! Depois, já tranquilos, podereis despir das armas os cadáveres que jazem na planície.” E, no entanto, no meio da carnificina, no meio de tanta violência acéfala e boçal, brilham os exemplos de nobreza, coragem e até de amizade.

Longe de mim querer converter alguém ao futebol e ao que ele tem de belo. Ontem à tarde, um domingo frio e soalheiro, oito mil pessoas juntaram-se num estádio para ver um jogo de das distritais. Em confronto, duas equipas históricas, o CD Estrela (herdeiro do falido Estrela da Amadora) e o Belenenses (agora separado da SAD). Para quem não gosta de futebol, isto pouco ou nada diz. É apenas um ajuntamento de desocupados, eventuais energúmenos.

Para quem, como eu, se lembra do pontapé de Juanico no Jamor e do bigode de Duílio, da careca do central José António e dos golos de Renato Gaúcho, da noite em que Adão levou o Belenenses de volta ao paraíso e de um longínquo empate do Estrela num estádio da Luz às moscas, de um avançado de nome Djão que talvez já só exista na minha memória de um cromo numa caderneta e de uma entrevista de um jovem negro alto e desengonçado chamado Birame desiludido porque o empresário lhe tinha dito que em Portugal o dinheiro saía das paredes, para quem o futebol é tudo isto, este tricô de memórias banhado pelo sol de um domingo qualquer, o jogo de ontem foi uma viagem a esse passado, uma viagem à infância.

Mais do que apoiar o clube do coração, foi isso que os oito mil adeptos foram fazer ao estádio José Gomes: recuperar um pouco dessa infância perdida, pagar o tributo aos ídolos do passado apoiando as camisolas que os simbolizam.

Mas o futebol não é apenas nostalgia. Nele também cabe o futuro. Após o jogo do Sporting com o Belenenses (SAD, não o outro), um repórter do canal do clube da casa entrevistou um senhor à saída do estádio: “venho do jogo, venho de ver o meu neto, marcou um golo, foi o homem do jogo, sou a pessoa mais feliz do mundo.” Por um desses acasos felizes, o senhor era avô de Miguel Luís, jovem de dezanove anos que tinha acabado de marcar o golo da vitória com um potente remate. “Estou muito orgulhoso”, prosseguiu o homem, “não simpatizava com o Sporting, mas agora aos setenta anos parece que vou mudar para o Sporting.” Costuma dizer-se que um homem só não muda de clube. Eis a prova em contrário (ou a exceção que confirma a regra).

Não é difícil imaginar que, no momento em que o pé de Miguel Luís acertou na bola e a atirou para a baliza, um pouco da força e da intenção tenha vindo do avô que, na bancada, assistia ao jogo. Com a energia dos seus setenta anos e o orgulho de avô, o senhor Américo Luís era o homem da crónica de Paulo Mendes Campos, a redescobrir esse prazer simples e bárbaro (boçal e acéfalo) de “dar um chute na bola” e regressar por instantes, à infância, que é como quem diz, ao futuro.