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Doutor Lage, Senhor Keizer e um dérbi de solilóquios hamletianos e pratas da casa (por Bruno Vieira Amaral)

O escritor Bruno Vieira Amaral escreve, obviamente, sobre o Sporting - Benfica de domingo à tarde que resultou num triunfo épico dos encarnados em casa do rival jurado

Bruno Vieira Amaral

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As estatísticas valem o que valem. Ontem, o Sporting teve mais posse de bola, mais pontapés de canto e mais remates que o Benfica. No entanto, na história dos dérbies poucos terão sido tão desequilibrados como este. Reconhecem-no os adeptos do Sporting, para quem as derrotas no dérbi são as mais dolorosas e, como tal, geralmente se socorrem de toda a panóplia de desculpas analgésicas, e reconhecem-nos todos aqueles, de um lado e do outro, que acham que o resultado até não foi o pior que aconteceu à equipa de Alvalade. Se aos sportinguistas nem as estatísticas nem os números finais servem de consolo perante o que se viu em campo, já para os benfiquistas a estatística dos resultados em Alvalade (32 vitórias para cada lado nos jogos para o campeonato) acrescenta um sabor especial à vitória. Se, no século XXI, o Porto já usou várias vezes a Luz como salão de festas, para o Benfica, quando lhe ocorre dar um pezinho de dança, não há palco melhor que o estádio do vizinho.

Porém, mais do que os números, as estatísticas e os pontos, o que alimenta a alma dos adeptos são as sensações. E neste momento os benfiquistas estão de alma cheia, a palitar os dentes depois de uma refeição lauta, refastelados na cadeira do escritório a mandar bocas aos colegas lagartos, enquanto os adeptos leoninos rangem os dentes, roem os ossos e dedicam-se à cíclica tarefa interna de trocar acusações, identificar culpados, queimar os vivos e ressuscitar os mortos. Em futebol, cinco dias são uma eternidade. Depois de uma derrota como a de ontem, o discurso com que a meio da semana Frederico Varandas pretendeu mobilizar aquela ala do sportinguismo que ainda desconfia da receita prescrita pelo médico envelheceu cem anos e desprende um indesmentível cheiro a naftalina. A superioridade do inimigo externo foi tão evidente que o melhor é regressar à caça do inimigo interno.

Pois é, uma semana após a coroação como campeão de inverno, o Sporting está outra vez em crise. Keizer, que entrou a rugir (futebolisticamente falando), agora já nem murmura, amarrado à inércia coletiva de um clube sem par quando se trata de inventar novas formas de tragédia. Mesmo que o treinador holandês tenha responsabilidades no descalabro de ontem, a verdade é que é difícil fazer melhor com artistas do calibre de um Bruno Gaspar, que foi um autêntico rei mago na quantidade de presentes oferecidos ao adversário, de um André Pinto com máscara de super-herói e erros de vilão, de um Jefferson recauchutado ou de um Gudelj que ainda nem deve ter percebido em que país está. Só Bruno Fernandes mostra alguma qualidade, mas, no sumidouro que é a equipa, desgasta-se em conferências com árbitros e jogadores adversários e em solilóquios hamletianos, como se fosse possível combater o infortúnio a golpes de conversa. Com este conjunto de circunstâncias ambulantes – e outras estáticas – a um treinador, venha ele de onde vier, só se pode legitimamente pedir que evite o descalabro. Infelizmente para os sportinguistas, isso nem sempre será possível, sobretudo se do outro lado estiver um adversário pouco generoso e sem espírito cristão.

Agora será fácil vir com a conversa das especificidades do futebol português inacessíveis a treinadores estrangeiros e que só os estrategas autóctones conseguem perceber. Se fosse esse o verdadeiro problema do Sporting, a solução seria simples: regressar aos saudosos tempos de um Carlos Carvalhal, de um Sá Pinto ou de um Paulo Sérgio, todos eles desfeitos por uma trituradora voraz, apesar do amplo conhecimento da nossa realidade paroquial. A verdade é que o que o Sporting tinha conseguido fazer até aqui depois de uma pré-época inaudita, mantendo-se em todas as frentes e conquistando um troféu, pode considerar-se um milagre. Certas canonizações não exigem tanto do sobrenatural. Mas até o sobrenatural tem os seus limites e eles foram expostos ontem na pior das ocasiões para o adepto sofredor: um dérbi.

Por razões inversas, agora também será fácil louvar os méritos de Bruno Lage e da aposta de Luís Filipe Vieira na “prata da casa”, esquecendo que a rábula do despedimento de Rui Vitória, os impasses, as políticas intermitentes em que tão depressa o ouro está no Seixal como em contratações milionárias de Ferreyras e Castillos, revelam uma estratégia errática, ao sabor dos resultados e do lado para que sopra o vento a cada semana. Não significa que o trabalho de Lage deva ser desvalorizado. O mérito da recuperação de Gabriel e Samaris, da aposta em João Félix no sítio certo (e agora também é fácil ver qual o sítio certo para Félix) e de uma dinâmica renovada (vejam lá que os jogadores correm para recuperar a bola e até são capazes de se desmarcar) devem ser atribuídos ao ex-treinador da equipa B.

Mas convém não nos esquecermos de um pormenor: Lage tem matéria-prima. O seu maior mérito tem sido o de não a desperdiçar. Além disso, quando diz que os reforços “made in Seixal” são mesmo reforços essas palavras não soam às declarações políticas do “vieirismo” que tentam dourar a pílula de contratações falhadas ou da necessidade de apertar o cinto. Lage não conhece aqueles jogadores de relatórios ou de assistir a jogos emolientes nas tardes amenas do centro de estágio. Conhece-os do dia-a-dia, sabes quais as suas qualidades e aquilo que podem trazer à equipa. Resta saber se a aposta é para valer e se, depois de fins-de-semana menos exuberantes que este, o brilho agora tão nítido das pérolas caseiras não terá empalidecido.