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Crónica
Duarte Gomes

Duarte Gomes

Ex-árbitro de futebol

“Don't be lucky. Be ready”. O jogo em que o Balotelli fez birrinha, o Maxi falou comigo em português e o De Rossi deu pau que se fartou

Duarte Gomes recorda um Itália - Uruguai amigável, ou melhor, ‘amigável’, porque um jogo com uruguaios é sempre mais aceso do que qualquer outro jogo. Este disputou-se no mítico Olímpico de Roma, onde o FC Porto foi batido por 1-2 pela Roma na terça-feira. É por aí que começa esta crónica

Duarte Gomes

Giuseppe Bellini

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O FC Porto jogou, em Roma, a primeira parte da sua possível (e esperada) passagem à fase seguinte da Liga dos Campeões. Para quem não sabe, o palco da partida onde a equipa portuguesa ontem atuou - o Estádio Olímpico - está situado no coração da mítica capital italiana e é "casa habitual" de dois dos maiores rivais do futebol italiano: Lazio e Roma.

Apesar disso, e à exceção de alguns jogos entre si (e de um ou outro episódio menos positivo), a convivência de ambos tem sido tranquila e em nada tem afetado a carreira e performance desportiva das duas squadre.

Construído em 1937 e com capacidade para mais de 70,000 adeptos, o Olímpico é um dos estádios mais emblemáticos da atualidade. A sua beleza arquitetónica, enraízada numa cidade repleta de história e estórias, grava memórias inesquecíveis naqueles que têm o privilégio de por lá passar.

Talvez por isso me sinta um sortudo.

Tive a honra de ali arbitrar um particular de Seleções A (Itália/Uruguai) e confesso-vos, é uma das muitas recordações que guardo.

O encontro foi em Novembro de 2011.

Comigo estiveram os então assistentes internacionais, José Ramalho e Serafim Nogueira (hoje somos três reformados da bola mas eternos amigos do coração). Apesar do contexto ser diferente (a indicação para este tipo de jogos parte, habitualmente, de um convite da federação local à congénere portuguesa), a ideia de pisar aquele palco entusiasmou-me.

Essa coisa de sermos nomeados, de sabermos que teremos jogo, de sermos escolhidos para arbitrar determinada partida, é algo que mexe com a malta. Positivamente.

Eu sei que esta é uma realidade paralela à que preenche noticiários, é algo que desconhecem porque não é partilhado, não é divulgado nem conhecido, mas a verdade é que os árbitros também vivem intensamente o que fazem. Sentem, envolvem-se, emocionam-se.

Aos olhos de muitos, os juízes de campo serão sempre um conjunto de malandros mal-intencionados, que aterram no relvado com o objetivo assumido de espalhar miséria, discórdia e contestação (depois partem na mesma nave que chegaram, rumo ao planeta de onde vieram).

Não digam que vos disse... mas as coisas não são bem assim.

Para um árbitro de topo - que, tal como um jogador profissional, treina a sua função todos os dias, com rigor e máxima dedicação -, cada nomeação é uma espécie de cereja no topo do bolo.

A nomeação é a notícia mais aguardada da semana (melhor mesmo só o jogo em si). Aquela que dirá para onde confiam a nossa competência. É aí que sabemos para onde vamos, com quem e em que contexto competitivo. Aquilo que sentimos, nesse momento, não deve ser muito diferente do que sente o jogador que quer saber se foi ou não convocado, se joga ou não na equipa inicial.

Não estranha, por isso, que por muitos anos de carreira que tenhamos, o dia em que conhecemos o jogo que se segue... é único. É especial. A expetativa que antece a notícia dá logo lugar ao pragmatismo, assim que o desafio é conhecido.

E seja esse qual for, a partir desse momento, a partir dali, é - para nós, para a nossa equipa - o único que interessa. O melhor, o mais apelativo, o mais importante da semana. A nossa grande final.

O modo “profissionalismo” entra em ação e, entre nós, multiplicamo-nos em contactos para acertar tudo.

A parte logística (dia de partida para estágio, local da estadia, estipular de horários, tipo de indumentária a usar, definição de pontos de encontro e de equipamentos a levar, etc) e questões mais técnicas (preparação de scouting atualizado de equipas/jogadores, estratégia a utilizar, estudo da realidade competitiva, perceção de como estarão o relvado e as condições meteorológicas, antecipação da predisposição emocional dos intervenientes, dos adeptos, etc).

Nada é deixado ao acaso. Tudo é planeado e depois executado com detalhe. Facilitar não pode ser opção. Como tantas vezes nos dizia Pierluigi Collina: "Don't be lucky. Be ready".

De regresso a Roma.

Naquela viagem, de voos turbulentos (e de que maneira), ouve momentos que jamais esquecerei: a boa disposição permanente da equipa, a leveza com que levámos tudo aquilo e a oportunidade rara mas valiosa de conhecermos gente boa, sítios encantadores, tudo numa cidade absolutamente maravilhosa.

Do jogo, guardo a adrenalina inicial (essa estava sempre ao rubro antes de subir ao relvado) e a chatice que foi ter que mostrar mais cartões do que, à partida, o "amigável" poderia sugerir. Nada de novo, tendo em conta a alma efervescente de italianos e uruguaios. Os da casa perderam (0-1), o Olímpico silenciou-se, o Balotelli fez birrinha, o Maxi falou comigo em português e o De Rossi deu pau que se fartou.

Mas porque a natureza do encontro permitia uma predisposição mais leve, tentámos simultaneamente desfrutar do prazer imenso que era estar ali, a fazer aquilo que mais gostávamos, num fim de tarde frio, perante um ambiente fantástico.

E registámos, sem provincianismos mas com orgulho envergonhado, o prazer que foi partilhar o mesmo palco com alguns craques que só conhecíamos dos cromos: Pirlo, Buffon, Godin, Chiellini, Muslera, Balotelli, Marchisio, Cavani, De Rossi, Montolivo... e, claro, os “nossos” Maxi Pereira, Álvaro Pereira, Cristián Rodriguez e Coates.

Cá de fora, sentados nos bancos, um de cada lado, outros dois monstros sagrados: Cesare Prandelli e o já debilitado Óscar Tabárez.

Foi bonito.

No dia seguinte, o dia do nosso regresso, um pequeno susto no elevador do hotel, quando descíamos para o pequeno-almoço: um dos meus colegas teve uma quebra de tensão súbita e desmaiou. Ali, com peso morto em cima dos meus braços. Sem pré-aviso, sem sinal, sem nada. Shut down total.

O pânico foi momentâneo e tudo se reordenou, pouco depois. Nada que um pouco de água, açúcar e descanso (dormimos pouco e mal, como sempre nessas saídas) não resolvesse. Chegámos a Portugal a meio da tarde. Ao fim do dia, estávamos de regresso aos treinos. Eu em Lisboa, eles a norte. No fim de semana seguinte havia novo jogo, esse mais a doer e já estávamos em modo “próximo objetivo”.

A perceção que o povo tem está mesmo errada: os árbitros acertam e erram, são mais ou menos experientes, mais ou menos competentes... mas não duvidem: querem estar sempre bem e trabalham que se fartam!