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Com o Benfica somos sempre os cabeçudos, mas preparemo-nos para um festival de golos à fartazana em março (a ironia de Nicolau Santos)

Nicolau Santos, presidente do Conselho de Administração da Lusa, jornalista e, para o que realmente interessa neste texto, sportinguista dos sete costados, escreve para a Tribuna Expresso sobre Frederico Varandas, Marcel Keizer, o pelicano Dost e a tristeza sérvia de Petrovic. E também sobre Abel Ferreira, João de Deus e Bruno de Carvalho. É, como um autor escreve no título, à “fartazana”

Nicolau Santos

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O Sporting perdeu 4-2 com o Benfica em Alvalade e levou um banho de bola. Foi uma humilhação tão grande que os sportinguistas só pediam que aquilo acabasse o mais depressa possível para o resultado não atingir níveis catastróficos. Aliás, para o Benfica, nós fazemos sempre o papel de cabeçudos. Eles ganham em Alvalade como se jogassem na Luz. No outro jogo com o Benfica, agora para a Taça de Portugal, o melhor foi mesmo o resultado. Perder só por 2-1 foi, mais uma vez, uma enorme mentira. A equipa esteve melhorzinha, mas este melhorzinho é muito medíocre. Vi o Moreirense fazer um jogo muito melhor na Luz, onde aliás ganhou.

Depois, lá ganhámos ao Feirense, após o árbitro, com a ajuda do VAR, ter invalidado um golo aos rapazes da casa e de um defesa deles ter metido a bola na própria baliza mesmo ao cair da primeira parte. Na segunda parte, o Bruno Fernandes marcou dois belos golos e fechámos a loja. Mas a primeira parte foi deprimente e o Sporting foi dominado pelo Feirense, que bem merecia outro resultado ao intervalo.

Bom, e veio o jogo de ontem contra o Villarreal, penúltimo classificado da Liga espanhola, que este ano ainda não tinha ganho um único jogo. Ora já se sabe que quando há coisas que nunca aconteceram, logo aparece o Sporting a dar uma mãozinha para que aconteçam. E assim foi: aos três minutos já levávamos um no bornal e a partir daí foi ver a equipa a andar sempre aos papéis, penosamente, a correr atrás da bola, com o Coates a ser o nosso avançado mais perigoso, mas sem quaisquer resultados. Chegámos ao fim e o mais positivo foi de novo o resultado: perder só por 1-0 foi o melhor que se conseguiu arranjar. E não me venham com o cansaço e os jogos de três em três dias ou de quatro em quatro. O FC Porto e o Benfica fazem o mesmo e continuam a ganhar e a intimidar os adversários.

Chegados aqui, está na altura de dizer uma primeira verdade: o Sporting de José Peseiro não jogava pior do que o Sporting de Marcel Keizer. Quando muito, jogava tão mal, embora a classificação fosse bem melhor. Nessa altura, o Sporting estava em segundo lugar, a dois pontos do primeiro, e agora vai num honroso quarto lugar, a nove do primeiro, a oito do segundo e a sete do terceiro. Ou seja, o Sporting este ano aspira a ficar em quarto lugar. E domingo, em Alvalade, contra o Braga, teme-se o pior: uma nova derrota.

Bruno de Carvalho devia ser chamado a explicar porque despediu o treinador Abel Ferreira da equipa B do Sporting para meter lá o seu amigo João de Deus que, como seria de esperar, pela sua linda carreira, só podia ser uma catástrofe. Confirmou-se em pleno. Em contrapartida, o Braga, desde que é comandado por Abel Ferreira, nunca perdeu connosco e já ganhou pelo menos duas vezes ao Sporting, uma em Alvalade e outra na Pedreira. E não sei se não me estou a esquecer de mais alguma derrota.

ANTÓNIO COTRIM / Lusa

E vamos à segunda verdade: a equipa não terá grandes jogadores, mas tem jogadores obrigados a fazer muito melhor, como Raphinha, que era um grande jogador no Guimarães e deixou de ser em Alvalade. E se não fazem é porque Keizer lhes retirou confiança, casos evidentes de Jovane Cabral e Miguel Luís, que saíram da equipa quando estavam a render e a marcar golos, desaparecendo até do banco; porque Keizer tem cometido erros inadmissíveis (jogar em Tondela durante 45 minutos sem um avançado de raiz – tinha o Montero) só podia dar mau resultado; porque Keizer tem um modelo de jogo com um só avançado (Bas Dost), que não é adequado quando as equipas se fecham muito, Dost está fora de forma e não há quem faça centros de jeito, com exceção do Acuña; porque Keizer gosta muito de atacar e pouco de defender (desde que chegou ao comando do Sporting, a equipa sofreu golos em todos os jogos, menos num), o que corre bem quando o ataque está oleado, inspirado e a equipa marca mais do que sofre e muito mal quando isso não acontece; porque Keizer, apesar de tudo o que entra pelos olhos dentro, não experimenta jogar noutro sistema, em que Montero ou Luiz Phellype possam estar em campo (ontem tivemos o mesmo filme, com o Dost a parecer um pelicano no meio de uma aldeia de pinguins); e porque Keizer continua a apostar em Petrovic, um rapaz que carrega uma tristeza imenso aos ombros por ser sérvio e nos transmite a todos nós, sportinguistas, uma imensa tristeza por o vermos a jogar na equipa principal do clube.

Em resumo, passada a euforia inicial, o sr. Keizer não só não aproveita os jogadores da formação como conseguiu que a equipa e a nação sportinguista entrassem de novo em depressão, envergonhados com o que (não) vamos vendo nos campos de futebol onde a nossa equipa principal joga. Ah, é verdade, a Taça da Liga veio no nosso autocarro. Por mim, sr. Keizer, pode levá-la para a Holanda. Tenho a certeza que encontraremos na Academia um treinador português que faça mais do que aquilo que V.Exa. tem feito. Ou, por outras palavras, volta Peseiro que estás perdoado.

PS – Como o dr. Varandas vai aguentar o sr. Keizer pelo menos até ao final da época, estou muito curioso para ver os excelentes jogos que a equipa vai fazer depois de ser afastada da Liga Europa e da Taça de Portugal. Aí já não vai haver a desculpa do cansaço. Lá para o final de março preparemo-nos, sportinguistas, para ver fabulosas exibições e golos à fartazana!