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Uma crónica com Dadinho, Zé Pequeno e o antipático Braga (por Bruno Vieira Amaral)

O escritor Bruno Vieira Amaral escreve sobre o crescimento do clube minhoto nas mãos de António Salvador, o homem transformou o Braga numa força pronta a disputar algo mais do que apenas o quarto lugar

Bruno Vieira Amaral

Gualter Fatia

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No filme “Cidade de Deus”, há um miúdo atrevido, Dadinho de seu nome, que acha que está ao nível dos bandidos mais velhos e que recebe destes muita condescendência e bofetadas. A meio da história, Dadinho revela a sua verdadeira natureza e, a partir daí, acaba a condescendência e acabam as bofetadas. “Dadinho é o caralho! O meu nome é Zé Pequeno”, diz o ex-Dadinho na fala mais famosa do filme. António Salvador e o seu Braga têm qualquer coisa de Dadinho, a intrometerem-se entre os grandes, a fazerem voz grossa, a darem murros na mesa, a calçarem os sapatos do pai.

Ficou para a história aquela frase ousada de Salvador – “o Braga tornou-se na terceira força desportiva!” – que tanto irritou os sportinguistas que, à guisa de esclarecimento, convidaram Salvador para uma visita guiada pela sala de troféus dos leões. Mesmo que o presidente tenha ressalvado que o Braga não era o terceiro clube “porque os clubes fazem-se da sua história”, a frase tinha o sabor da impertinência juvenil, do adolescente que, sentado à mesa com os adultos, pede que lhe sirvam vinho. Não era para ser levada a sério.

Sem desprimor para os restantes, sem que isso constitua um menosprezo pelas respetivas histórias e relevância social, há três clubes grandes em Portugal. Isso não vai mudar só porque um dos outros clubes se torna mais competitivo e consegue, de tempos a tempos, quebrar a hegemonia de Benfica, Porto e Sporting, tal como não mudou quando o Boavista ganhou um campeonato, não mudou quando o Braga se qualificou para a Liga dos Campeões, e não mudou quando o Sporting esteve dezoito anos sem ganhar um campeonato. É que a dimensão de um clube vai muito para além dos resultados conjunturais da equipa de futebol.

Vê-se, por exemplo, nas sequelas de um mau resultado. Alguém imagina o treinador de um dos grandes a sobreviver a uma eliminação precoce nas competições europeias e a goleadas como as que o Braga sofreu em casa do Benfica e do Sporting? Em certas circunstâncias, um empate pode valer, num dos grandes, lenços brancos ao treinador, contestação, ameaças. Nos outros clubes, a tolerância ao fracasso é maior porque a bitola também é diferente. Um empate pode ser um mau resultado, mas quase nunca é uma tragédia.

É claro que António Salvador sabe isto melhor do que ninguém. Sabe que o Braga não dispõe das mesmas armas dos adversários e que o nível de exigência tem de se adequar aos meios. Como é que um clube com trinta mil sócios, uma assistência média de dez mil espetadores nos jogos em casa e um orçamento franciscano quando comparado com o dos clubes grandes pode aspirar, não direi a competir de igual para igual, mas a aproximar-se dos três grandes? Bem, com uma escolha criteriosa de treinadores, contratações cirúrgicas e baratas e vendas inteligentes, jogos de alianças e a perceção de que é preciso o envolvimento da cidade com o clube para que, pelo menos, o Braga não se saia tão mal na comparação com o vizinho e rival de Guimarães.

Ah, e também um bocadinho de fanfarronice estratégica (a que os ingleses chamam braggadocio) e o ocasional troféu que funcione como hormona de crescimento. António Salvador, honra lhe seja feita, tem conseguido fazer um pouco de tudo isto no seu já longo consulado, de que o melhor exemplo talvez sejam as missões apostólicas dos jogadores do Braga nas escolas da região a fim de criar laços afetivos fundamentais para que o clube deixasse de ser o segundo clube no coração dos bracarenses.

Esse foi o seu maior mérito. Com Salvador, o Braga deixou de ser o segundo clube dos bracarenses. Hoje pode afirmar-se, com algum grau de certeza, que é o primeiro clube da cidade. Deixou de ser aquele género de clube simpático – como a Académica, o Belenenses ou o Setúbal – cujo passado glorioso desperta a condescendência e a misericórdia dos adeptos dos três grandes que os escolhem como segundo clube. Hoje o Sporting de Braga já é demasiado grande para um segundo lugar no coração dos outros adeptos. É, nesse sentido, um clube “antipático”, com intromissões frequentes em lutas para as quais, apesar de tudo, lhe falta músculo e das quais bastas vezes sai combalido. Mas enquanto não alcança a quimera do tão desejado título – que em si mesmo não chega para que um clube ganhe o estatuto de grande e seja promovido de Dadinho a Zé Pequeno – essas nódoas negras são as medalhas possíveis pelo esforço e a audácia de tentar ser maior do que aquilo que é.