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Este Porto entra em campo como se estivesse nas antigas Antas e com a camisola Revigrés - e como se Pinto da Costa ainda fosse o presidente

O grande mérito de Sérgio Conceição é este: por muito avançados que sejam os seus conhecimentos sobre periodização tática e demais bicharada teórica, é o tipo de treinador que sabe, por experiência própria, que naquela casa as camisolas jogam sozinhas e, por vezes, até ganham jogos

Bruno Vieira Amaral

MIGUEL RIOPA

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Aconteça o que acontecer até lá, no próximo sábado o Porto entrará no Dragão como favorito (apetecia-me escrever “nas Antas”, mas resisti à tentação mesquinha de negar a identidade doméstica do adversário). E muito pode acontecer, a começar no jogo desta segunda-feira.

Nenhum benfiquista acredita que vai perder pontos contra o Desportivo de Chaves, mas desde aquele fatídico jogo contra o Estoril em que a equipa que liderava o campeonato entrou em campo meio embruxada (quem terá enterrado o sapo atrás da baliza?) os jogos à segunda-feira antes de uma visita ao Dragão nunca mais foram os mesmos.

Aposto que, pelo sim, pelo não, muitos adeptos irão de fumo negro no casaco, antecipadamente fúnebres, outros levarão amuletos contra o mau-olhado, sem esquecer aqueles que, para não dar azar, irão passear de carro à hora do jogo com o telemóvel desligado para não receberem notícias funestas.

Também é possível que amanhã, contra o Braga, os avançados que restam ao Porto se lesionem, o que tornaria muito difícil a recuperação para o jogo de sábado, mesmo confiando nas milagrosas terapias chinesas. Ou que os jogadores entrem em modo autodestrutivo e se façam expulsar numa imolação coletiva própria de seitas milenaristas. Ou que, após o jogo, o plantel se junte à equipa B para festejar numa discoteca da Trofa ou de Freamunde e ao treinador não reste outra alternativa senão a de castigá-los a todos e convocar os juniores para o transcendente embate contra o Benfica.

Mesmo se tudo isto acontecesse, eu continuaria a apostar no Porto para vencer o jogo.

Diz a sabedoria popular que as camisolas não ganham jogos, mas essa é uma teoria que parece não se aplicar ao Porto. Mudam os jogadores, os treinadores mudam, mudam também as camisolas, mas quando o Porto entra em campo é como se os atletas estivessem equipados com as velhas camisolas com o patrocínio da Revigrés, como se ainda jogassem nas Antas, como se Pinto da Costa ainda fosse o presidente.

Há dias, no jogo contra a Roma, o Porto entrou em campo bastante desfalcado, sem metade da equipa que, em condições normais, seria titular. Já na segunda parte viu-se a perder por 2-0. Arrisco dizer que, nas mesmas circunstâncias, qualquer outro clube português teria colapsado. Com qualquer outro clube português refiro-me, como é óbvio, ao Benfica, que nunca conseguiu exorcizar o fantasma de Vigo. Basta sofrer um golo nos primeiros minutos num jogo fora para as competições europeias e o pavor da goleada entra nos adeptos e contagia equipa técnica, jogadores e até os próprios adversários.

O efeito é idêntico ao do curare, aquele veneno que os índios punham na ponta das flechas, que paralisava os músculos e deixava a vítima na condição de espetadora da sua morte. O Benfica sofre um golo e paralisa.

Já o Porto, contra a Roma, sofreu dois e, em vez de escolher assistir à sua própria ruína, sacudiu o pó e atacou o adversário com Adrián López, que está longe de ser a melhor arma de arremesso contra alguém. Isto, sem retirar mérito à estratégia do treinador e à abnegação das segundas linhas, é o que acontece quando as camisolas jogam.

Fazer com que as camisolas joguem independentemente dos jogadores que as envergam requer um trabalho de anos no desenvolvimento de uma certa cultura que privilegia precisamente o coletivo em detrimento do indivíduo.

Não vou cometer a heresia de afirmar que no Porto o talento individual não é apreciado e não é celebrado. Porém, é evidente que, na escala de valores portistas, não é o valor cimeiro. O caso do castigo a Éder Militão é exemplar. Tão exemplar que até poderia ser uma manobra orquestrada pela cúpula para reforçar os valores que lhe são mais caros. Se há jogador que se tem destacado este ano na equipa é Militão.

Comentadores, analistas e adeptos em geral não se cansam de lhe elogiar os atributos e quase não há dia em que o Real Madrid não esteja a passar um cheque de milhões para o contratar. No entanto, o clube não hesitou em aplicar-lhe um castigo por ter violado o “regulamento disciplinar interno”, peça jurídica cuja integridade é defendida com denodo por Fernando Madureira e outros constitucionalistas.

Não jogou Militão, jogou a camisola, incidentalmente com um tal Wilson Manafá dentro dela, o que não é muito relevante.

Depois, há também os prodígios alquímicos, em que a camisola encontra o tipo de jogador ideal. É o caso daquele que é conhecido pelas seguradoras como Képler Laveran de Lima Ferreira e nos meandros futebolísticos como Pepe. Já com uma idade respeitável, o central português de Maceió é o exemplo vivo daquilo a que chamarei “espírito Revigrés”, em que as camisolas jogam sozinhas, sim, mas não rejeitam a contribuição do jogador sintonizado com aquele mesmo espírito.

Que tenha sido ele o autor do primeiro golo contra o Tondela, o jogo em que Militão ficou a fazer a digestão da patuscada noturna, prova a singular eficiência deste método meio esotérico, meio científico que requer um treinador que não negue à partida uma ciência que desconhece. A grande vantagem de Sérgio Conceição é essa: por muito avançados que sejam os seus conhecimentos sobre periodização tática e demais bicharada teórica, é o tipo de treinador que sabe, por experiência própria, que naquela casa as camisolas jogam sozinhas e, por vezes, até ganham jogos.