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A elegância é Danilo, com o seu metro e noventa e o porte majestoso de príncipe abissínio (por Bruno Vieira Amaral)

O escritor Bruno Vieira Amaral dedica a crónica desta segunda-feira ao médio do FC Porto, que cabeceou para o empate no jogo contra o Feirense. Ele é o homem que se “recusa a entrar em correrias e histerismos com a serenidade típica da realeza habituada ao privilégio”

Bruno Vieira Amaral

MIGUEL RIOPA

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Entre prédios de sete andares, oficinas improvisadas, hortas ilegais cuja propriedade mudava em negócios fechados nos cafés a troco de uma nota de cinco contos, um aperto de mão e um cálice de São Domingos, tive a sorte de crescer com um relvado em frente da minha casa. Como não estávamos interessados na preservação dos espaços verdes e nenhum de nós era devoto da arquitetura paisagista, usávamo-lo para os nossos jogos de futebol. Enquanto os mais velhos ocupavam o campo alcatroado com as suas balizas regulamentares e redes que duravam apenas uns meses, nós desfrutávamos do prazer de jogar na relva onde podíamos fazer carrinhos, ensaiar pontapés de bicicleta e onde a Adidas Tango do Marinheiro, que lhe tinha sido oferecida pelo padrinho, jogador do Benfica, se sentia em casa com o brilho orvalhado e os pedacinhos de erva que se lhe colavam como se estivesse a ser chutada em Wembley ou no Estádio da Luz.

Quem não gostava dos nossos torneios era o senhor Amílcar, funcionário da Câmara e que, pelo zelo demonstrado até nos dias de folga, em que da sua marquise no quinto andar vigiava possíveis infrações, deveria ter sido recompensado com uma medalha de mérito ambiental. Para evitar que jogássemos, muitas vezes regava a relva em demasia, empapando-a, numa estratégia que teria surtido efeito se algum de nós se preocupasse com minudências lamacentas.

Nada, nem as ameaças do senhor Amílcar, nem a lama, nem a chuva, nem o risco de pneumonias, nem as pulgas, nem os espinhos dos arbustos, nem algumas árvores plantadas no meio, que contornávamos com perícia, nos afastava da relva. Trinta anos depois vivo num apartamento cuja janela da sala dá para um relvado. São poucos os miúdos que vêm aqui jogar. O espaço serve sobretudo para os donos se exercitarem com os seus cães à noitinha, depois da hora do jantar, e para que os animais se aliviem e adubem naturalmente o relvado. Mas, uma vez por outra, lá aparecem uns adolescentes, com camisolas do Barcelona, do Real Madrid, do Chelsea, a dar uns chutos desinteressados na bola, sem vestígios do espírito agónico que, nas tardes de sábado de há trinta anos, animavam os rapazes da minha geração. Mesmo assim, não resisto a observá-los e, por mais de uma vez, me senti tentado a juntar-me a eles só para fazer uns remates. Se tivesse dinheiro, era capaz de lhes pagar para virem aqui todos os dias.

Recupero estas memórias, pedindo desculpa ao leitor, porque o campeonato entrou naquela fase ao mesmo tempo maquiavélica e bárbara de “o que interessa é os três pontos” e a esperança em ver nos relvados portugueses as coisas bonitas de que falava Artur Jorge resume-se a algum erro ou distração dos que seguem na frente ou à irresponsabilidade criativa dos que já não lutam por nenhum objetivo. A partir de agora, se a equipa não marcar um golo no primeiro quarto de hora, a tensão tomará conta de jogadores e adeptos que, discretamente, sondarão com os dedos o bolso interior do casaco à procura do lenço branco, e repetirão mentalmente os coros com pedidos de demissão se o intervalo vier sem que haja golos.

Chega a primavera, há por todo o lado esplendor e beleza, menos no futebol. A elegância desaparecerá dos campos, a nota artística lembrará discussões tidas em Bizâncio há séculos, o povo exigirá os três pontos por decreto. Uma escorregadela, um tropeção e o inferno tomará conta da terra. Ontem, o Feirense, com aquele espasmo de moribundo, deve ter posto os adeptos portistas a roer as unhas. Felizmente para eles, o golo veio cedo e havia muito tempo para a recuperação. O Porto operou uma reviravolta protocolar e eficiente, com golos de bengala – a bengala das bolas paradas – e fechou a loja. Até as luzes do estádio se apagaram, suspeitando, com a sua intuição elétrica e com toda razão, que melhor seria se o jogo acabasse ali porque acabado já ele estava.

Há dias, um cronista da “Gazzetta dello Sport” falava de dois tipos de futebol, um petrarquista, cujo exemplo mais recente seria o Ajax, e um maquiavélico, cujo maior representante é o Atlético “cholista”. Só que, a esta altura do campeonato, arruma-se a poesia na gaveta e o soneto, se aparecer, virá como diminutivo neológico e sarcástico do efeito provocado no público. É o tempo de Maquiavel, o tempo do príncipe. E é por falar em príncipe que me lembro do único bálsamo que o jogo de ontem me proporcionou. Um bálsamo de elegância nestes tempos de fúria calculista. Elegância, sublinho, é a maneira mais rápida de fazer as coisas sem parecer apressado.

Portanto, elegância é Danilo. Não é só o metro e noventa, o porte majestoso de príncipe abissínio. É o movimento elegante que, por uma questão de maneiras, se recusa a entrar em correrias e histerismos. Nada contra os jogadores explosivos e esforçados, perdigueiros, galgos e operários que, irrequietos, cansam só de os vermos, mas tudo a favor de jogadores como Danilo que administram o jogo com a serenidade típica da realeza habituada ao privilégio.

Era Quinito, petrarquista por excelência, quem dizia que, se tivesse dinheiro, seria capaz de pagar a Pedro Barbosa para o ter a jogar no quintal. Como não tenho quintal, nem sequer um miserável terraço, eu pagaria a Danilo para que, aos fins de semana, se juntasse aos jovens entediados que ainda se atrevem a chutar uma bola no relvado perto da minha casa. Talvez lhes pudesse ensinar uma ou outra coisa sobre elegância. Por mim, ele não precisava de correr nem de tocar na bola. Bastava que ficasse ali, imperial, florentino, a dominar o espaço com a sua presença e eu, como um Médici suburbano, contentar-me-ia em observá-lo do camarote da minha varanda.