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De onde vem então este sentimento um tanto rupestre, primitivo e tribal? (o hino, por Bruno Vieira Amaral)

Em dias de jogos de seleção, Bruno Vieira Amaral escreve sobre o “passaporte sentimental que garante a entrada numa comunidade tão imaginária e tão real como as lágrimas e os uivos dos Lobos”. E também sobre Dyego Sousa, Pepe e Deco

Bruno Vieira Amaral

Julian Finney

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Foi numa manhã de agosto de 1984. A vizinha do terceiro andar entrou-nos em casa com a notícia: Carlos Lopes tinha conquistado a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos. A minha avó reagiu com costumeiro desinteresse. Jogos e desportos eram coisas do diabo. Eu fiquei maravilhado. Uma medalha de ouro. O primeiro lugar. Um português.

Naquele verão, os mais velhos, inspirados pelo que acontecia em Los Angeles, organizaram provas em que nós, os mais novos, competíamos. Como recompensa recebíamos umas caricas espalmadas e cobertas com a prata dos maços de tabaco: eram as nossas medalhas olímpicas. Mas a medalha de Carlos Lopes era a sério. Não era brincadeira de crianças.

À noite, no telejornal, vi a notícia, as imagens do atleta português a cortar a meta, a subir ao pódio, a ouvir o hino, a bandeira no mastro mais alto, e chorei. Ainda hoje, quando vejo aquelas imagens, quando oiço a música de Alfredo Keil, sinto um arrepio de emoção e é como se eu próprio estivesse a subir ao pódio e a receber a primeira medalha de ouro olímpica do desporto português.

Isto para dizer que é uma grande injustiça que só os desportistas tenham direito a ouvir o hino e a ver a bandeira içada com aquela lentidão solene que embriaga até o espírito do mais cínico e universalista dos cidadãos. A professora que aguenta décadas de alunos irrequietos merecia um prémio e a bandeira a drapejar lá no alto, o polícia que prende um facínora deveria ser recebido na esquadra ao som da Portuguesa, o agente imobiliário que faz a venda de uma vida devia subir ao lugar mais alto do pódio e, com um bouquet na mão e a medalha ao pescoço, acenar aos compatriotas o contentamento pelo seu feito.

Quem nunca, no sossego doméstico, se perfilou e entoou altissonantemente a letra de Lopes Mendonça de mão no peito ao ver os jogadores da seleção a fazerem o mesmo no estádio? Eu não, mas conheço muita gente que o faz.

De onde vem então este sentimento um tanto rupestre, primitivo e tribal? Não vou agora recuperar as teorias das comunidades imaginadas e da invenção das tradições, mas admito que, para além desses sentimentos inoculados pela cultura que nos rodeia, haja uma reverberação interior, uma predisposição inata para nos diluirmos numa emoção coletiva que, anulando uma parte da nossa individualidade, nos eleva enquanto membros de um grupo.

Será esta predisposição inócua? Nem sempre. Basta pensar no aproveitamento que dela fizeram os regimes totalitários e como, mesmo em democracia, os políticos procuram retirar dividendos das nossas tendências gregárias. O mesmo acontece em grandes ajuntamentos, sejam manifestações de protesto, concertos de rock, celebrações religiosas. Todos vivem do fascínio irracional da pertença à multidão. De alguma forma sentimo-nos protegidos e integrados. As nossas emoções particulares alimentam-se das emoções dos outros que, por sua vez, se alimentam das nossas, num jogo de espelhos voyeurístico e exibicionista.

Há uns anos, aquando da participação da seleção de râguebi no campeonato do mundo, causou impacto a forma como os “Lobos” entoavam o hino, à beira da apoplexia, como se estivessem prestes a entrar num campo de batalha e, do outro lado, uma horda de guerreiros inimigos os aguardasse para os chacinar. Aquilo, dizia-se, era a demonstração de um vivo sentimento patriótico que os jogadores de futebol, demasiado profissionais e ricos, já não tinham. Era a pátria de chuteiras e calções, para usar uma expressão de Nelson Rodrigues. Aqueles homens, quase todos amadores, tinham um orgulho transcendental por representarem o país, por vestirem a camisola das quinas.

Mas será necessário esse sentimento? Não basta que se empenhem e deem o seu melhor? É preciso cantarem o hino como se a sobrevivência da nação dependesse do nível dos decibéis? Em parte, sim. Como já ninguém exige dos jogadores o mítico amor à camisola nos clubes, as seleções nacionais são o último refúgio dos românticos. Ali espera-se que os atletas, seja em que desporto for, descalcem os sapatos do profissional e calcem as sandálias humildes do patriota. Exige-se que cantem o hino com fervor e comprovem perante os concidadãos que são dignos de vestir aquela camisola. Admite-se que, nos clubes, se comportem como mercenários, mas, na seleção, não se lhes exige menos que a pureza de intenções, o espírito de sacrifício e, talvez, a disponibilidade para o martírio.

Isto para chegar à convocatória de Dyego Sousa, cidadão português nascido no Brasil há 29 anos. Sendo o sétimo jogador naturalizado a representar a seleção, o caso de Dyego Sousa nem devia ser um caso. Um selecionador deve escolher os jogadores que considera mais aptos e que mostrem disponibilidade para representar a seleção, independentemente do lugar onde nasceram, da sua história pessoal, da ligação íntima ao país. Pode chocar os puristas (e chocará, certamente, outras categorias menos ilustres de cidadãos), mas é assim. Não cabe a um selecionador aferir os níveis de “portugalidade” dos jogadores, nem escolher atletas em função de sentimentos ou de uma escala de orgulho que irá de um mínimo de Pichardo a um máximo de Lobos.

Isto não impede os jogadores naturalizados de se sentirem na obrigação de provar o seu amor à camisola. Aliás, é mesmo provável que, como os convertidos a qualquer religião, sintam uma maior necessidade de demonstrar publicamente o apego à nova fé. O central Pepe será o expoente dessa exuberância e, enquanto tal, o mais habilitado a validar novas adesões ao culto. Por isso, em conferência de imprensa, convidado a falar sobre Dyego Sousa, afirmou: “Ele está completamente integrado na cultura portuguesa.” Um jornal diário também adiantava, para que não subsistissem dúvidas sobre o compromisso sentimental do avançado do Braga, que “é casado com uma portuguesa e a filha também é portuguesa. Quando soube que estava convocado para a seleção nacional chorou.” Meses antes, o próprio já tinha afirmado sonhar jogar pela seleção portuguesa, pois sentia-se mais português do que brasileiro.

Também Deco, outro jogador naturalizado que representou a seleção portuguesa, explicou ao Expresso a sua decisão: “Joguei na seleção por sentimento, ainda demorei quase um ano até tomar a decisão, era uma escolha de vida, até por saber que tinha qualidade para jogar na Seleção brasileira, foi uma questão pessoal, de sentimento, não de passaporte.”

Porém, todas estas declarações demonstram que a seleção é, e talvez assim se mantenha, uma questão de passaporte. Não falo do documento com fotografia que se apresenta às autoridades alfandegárias, mas do passaporte sentimental que garante a entrada numa comunidade tão imaginária e tão real como as lágrimas e os uivos dos Lobos a cantarem o hino ou a emoção de uma criança a ver a bandeira içada no mastro mais alto no outro lado do mundo.