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André Almeida é como um epifenómeno na indústria farmacêutica: procura-se um medicamento para a tensão arterial e descobre-se o Viagra

Se perguntarem ao escritor Bruno Vieira Amaral qual o seu jogador preferido do Benfica, ele dirá que é este lateral-direito feito capitão encarnado, o “único jogador que ainda recebe cartas das suas admiradoras, missivas ensopadas em lágrimas que esborratam a preciosa caligrafia dos tempos antigos, acompanhadas, no interior do envelope, por mechas de cabelo, assinadas com uma gota de sangue de uma picada de agulha no indicador”. Um texto nostálgico

Bruno Vieira Amaral

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No outro dia, em conversa de amigos, discutíamos qual o jogador do Benfica preferido de cada um de nós. Deu para quase tudo – a roda era grande. Um disse que era João Félix, outro manifestou a preferência por Ferro, dois por Samaris, três por Seferovic e vários por Jonas. Reservei a minha opinião para o fim e, perante o ar perplexo dos meus amigos, proferi, com certa satisfação herética, o nome: André Almeida. Fez-se um silêncio eclesiástico e, logo a seguir, rebentou uma gargalhada coletiva. Julgavam que era apenas uma provocação, uma blague. Insisti, agora muito sério: André Almeida, como é óbvio. Olharam-me com interesse quase científico à espera de uma explicação.

Comecei por lembrar uma frase cómica do mítico presidente do Corinthians, Vicente Matheus, sobre a possível negociação do não menos mítico Sócrates: “O Sócrates é inegociável, invendável e imprestável.” O mesmo se pode dizer, adjetivo por adjetivo, de André Almeida. Os meus amigos sorriram e, por fim, convencidos, deram-me razão.

Dos mil olheiros que quinzenalmente visitam a Luz nenhum vem com a missão declarada de observar André Almeida. Nenhum clube do mundo gastaria recursos ao desbarato para o fazer. Vendê-lo é, por isso, uma impossibilidade técnica. Aposto que nem Jorge Mendes – um homem capaz de vender dentes a um pato – seria capaz de encontrar um clube disposto a pagar para contratar André Almeida.

Ora, é isso mesmo que o torna tão valioso para o Benfica. Um homem como André Almeida é difícil de encontrar. Passo a explicar: academias e centros de estágio, todo o futebol de formação, são pensados para detetar e aperfeiçoar jogadores como Cristiano Ronaldo, Bernardo Silva, João Félix. Tais diamantes são raros, é verdade, mas quando aparecem ninguém fica espantado porque o investimento é feito com esse objetivo. Já um André Almeida só aparece por acidente. É um daqueles epifenómenos comuns na indústria farmacêutica: anda-se à procura de um medicamento para a tensão arterial e descobre-se o Viagra. No Benfica andavam à procura do génio imortal e encontraram, por mero acaso, um capitão eterno.

Não exagero. Desde o caso de João Vieira Pinto, a quem foi oferecido um contrato vitalício que durou dois ou três anos, que desconfio dessas promessas de fidelidade eterna, mas, hoje, aconselharia o presidente do Benfica a segurar André Almeida para os próximos cem anos. Não só porque André Almeida é André Almeida, mas por jogar preferencialmente como defesa direito. Posso estar a ser influenciado pelas recordações de infância e por me ter habituado a ver João Pinto, o inamovível capitão do Futebol Clube do Porto, a ocupar aquela posição durante vários lustros, ou por me lembrar de Veloso a saltitar da esquerda para a direita na defesa até ter sido obrigado a arrumar as botas certamente para não acumular o vencimento com a reforma, mas, para mim, defesa direito é menos uma posição do que um estatuto, um cargo senatorial. Não ponho as mãos no fogo por nenhum defesa direito com menos de trinta anos.

Dir-me-ão os chatos de cartório que André Almeida ainda só tem vinte e oito anos. Mentira! Basta olhar para ele e vemos que não está ali apenas um jogador à antiga, mas um jogador antigo. No penteado, na postura e na posição em campo André Almeida é contemporâneo de jogadores como Germano, Cavém, Ângelo, Santana, José Torres. É o único campeão europeu do Benfica ainda em atividade.

Se João Félix recebe “nudes” das fãs, André Almeida deve ser o único jogador que ainda recebe cartas das suas admiradoras, missivas ensopadas em lágrimas que esborratam a preciosa caligrafia dos tempos antigos, acompanhadas, no interior do envelope, por mechas de cabelo, assinadas com uma gota de sangue de uma picada de agulha no indicador. Enquanto os companheiros vivem em sumptuosas mansões na Aroeira, André Almeida ainda vive modestamente, pelo menos na minha imaginação, no Lar de Jogadores do Benfica. O capitão vive num lar que já não existe. No fundo, é isto.

Um daqueles meus amigos emprestou-me uma revista antiquíssima que pertencera ao pai dele: “Benfica – Bicampeão Europeu Finalista da Taça-63”. Lá dentro, vinham entrevistas a todos os jogadores daquela época. O entrevistador, com certa curiosidade lúbrica, queria saber se os jogadores solteiros tinham namorada, se dedicavam parte do tempo a outras atividades físicas que não o treino propriamente dito. Falou com José Torres, o “bom gigante”:

“– E não “arranjou” mais qualquer outra espécie de família, cá em Lisboa?

Torres viu imediatamente a intenção da nossa pergunta, pois assistira à conversa que tivéramos com Simões, e exclamou prontamente:

– Não me faça perguntas dessas!…

– Essa agora… Então porquê?

– Porque eu não quero responder…

– Bem… Escreverei então que não tem namorada…

O jovem atleta benfiquista ficou um tanto sobressaltado…

– Ai, isso é que não escreve…

– Então digo que tem…

Simões, que assistia à conversa, ria-se maliciosamente e Torres insistiu:

– Já lhe disse que não queria que falasse no assunto…”

Vejam bem, isto é quase como ler Alexandre Herculano. Melhor, é como ler Bernardim Ribeiro. Desconfio que a revista não pertencesse ao pai do meu amigo, mas à Torre do Tombo. Quando olhei novamente para a fotografia de Torres, juro que vi lá retratado André Almeida. Não me tentem convencer do contrário com fotografias do Instagram. André Almeida é anterior a tudo isso. É superior a tudo isso. Longevo como uma tartaruga, as redes sociais hão de acabar e ele ainda estará no lugar de sempre. Coevo de Noé, aposto que ainda assistirá à chegada do homem a Marte e, com a braçadeira de capitão e a dominar a faixa direita do estádio da Luz, acenará a esse homem do futuro com a alegria dos dois mil e um títulos entretanto conquistados.