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O valor de Félix seguido de elogio do sururu (por Bruno Vieira Amaral)

O escritor reflete sobre os dinheiros no futebol e sobre "esse fenómeno bizarro que é a desvirilização do futebol jogado e a boçalização do comentário"

Bruno Vieira Amaral

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Quanto é que vale João Félix? Um site especializado em valores de mercado aponta para os 35 milhões de euros. Curiosamente, o mesmo valor indicado para Bruno Fernandes. Faço a pergunta? Algum adepto dos dois clubes ficaria contente se os jogadores saíssem por este valor? A resposta é fácil: não. Então quanto vale um jogador como João Félix? Diz-se que um jogador vale aquilo que alguém estiver disposto a pagar por ele. Diz-se também, numa daquelas verdades eternas da bola na relva, que o futebol é o momento. Neste momento, Félix vale hipoteticamente muito mais do que aqueles 35 milhões de euros. Oitenta milhões? Cem? Cento e cinquenta? Duzentos, valor em que o presidente do Benfica quer fixar a cláusula?

Há dias, um jornalista escrevia que se João Félix valia 100 milhões, Bruno Fernandes valia 200. Vamos acreditar que o escriba não deu folga à inteligência e que quis apenas dizer que Bruno Fernandes tem sido o melhor jogador do campeonato. Se assim for, concordo. Mas já não me parece razoável que esse facto se traduza num valor de mercado superior. Para cálculo do valor há muitas variáveis que têm de ser consideradas: a idade do jogador, a qualidade, a posição que ocupa em campo, o peso relativo na equipa, o clube que vende, o clube que compra, etc. Por isso, João Félix está dia sim, dia sim, nas manchetes, com valores mirabolantes, enquanto os seus colegas de equipa (evitemos, por momentos, falar de Bruno Fernandes), por muito que brilhem, parecem estar condenados a permanecer no Benfica ou a ser vendidos a troco de uma saca de milho.

Vejamos: ontem, Rafa Silva, que este ano parece um novo jogador, marcou dois golos e fez uma assistência. Tem sido, sem margem para dúvidas, um dos melhores jogadores do Benfica nesta época. Mas não há ninguém, nenhum benfiquista, que acredite que Félix e Rafa, se saíssem do Benfica, seriam vendidos por valores semelhantes. Uma das razões para isso é o facto de um jogador como Félix, ao contrário do que acontece com Rafa e Bruno Fernandes, não ter um passado. Apareceu e deslumbrou. Os tubarões só lhe veem o futuro. Rafa carrega o peso de épocas menos conseguidas e Bruno Fernandes uma passagem pouco extraordinária pelo futebol italiano. No momento de passar o cheque, também isto conta.

Por fim, analisemos a possibilidade de se revelar um flop, de ser, como insistem os adversários do Benfica, mais um Renato Sanches. De facto, existe a possibilidade de Félix nunca atingir os patamares de qualidade que agora promete. É um risco que os clubes compradores correm. Os clubes milionários que compraram Renato Sanches por 35 milhões, André Silva por 38 ou João Mário por quarenta. Ou Dembelé por 105 milhões (o mesmo site avalia-o em 120 milhões) e Coutinho por 140 (avaliado em 100 milhões). Nunca se sabe. Nunca se sabe. Esqueçamos as vendas, dominemos o pavor por um outro clube fazer vendas astronómicas e desfrutemos do momento, da classe de Félix, de Bruno Fernandes, de Rafa. Seja quanto for que alguém esteja disposto a pagar por eles, valem muito. Valem a alegria semanal dos adeptos.

Mas alonguei-me nesta divagação sobre dinheiros quando a minha intenção era outra. Na semana passada falei aqui de uma cândida entrevista de José Torres nos anos 60. Uma entrevista impossível nos dias de hoje em que os jogadores são protegidos das suas próprias declarações e o palco das palavras é cedido a personagens tóxicos a teclar nas salas obscuras dos pomposos “departamentos de comunicação” (eis um belo exemplo de novilíngua orwelliana para se referirem a centrais de propaganda lamacenta) ou a comentadores televisivos que, pagos ou não pelos clubes, fazem, regra geral, as mesmas figuras tristes de marionetas.

Queria falar um pouco sobre esse fenómeno bizarro que é a desvirilização do futebol jogado e a boçalização do comentário. De calções, meias, caneleiras e inúmeras tatuagens, espera-se que os jogadores se comportem como embaixadores numa receção a altos dignitários estrangeiros. Vejam: aos homens que envergam indumentárias infantis de soldadinho de chumbo, com as cores garridas dos exércitos de antanho, exige-se um comportamento cavalheiresco, de corte renascentista. Ninguém lhes perdoa um excesso, um descontrolo momentâneo. Rafa Silva, de quem eu disse aqui há umas semanas que parecia mudo, sofreu um espasmo elétrico com a provocação de um jogador do Sporting (Bruno Gaspar de seu nome, mas, fora o nome, razoavelmente anónimo) no final do jogo para a taça. De cabeça perdida, Rafa perseguiu o adversário com uma velocidade digna das suas melhores jogadas. O outro, com a alegria manhosa dos cobardes, fugia e, julgo, toureava-o. O que disseram os cândidos comentadores? Vergonha! Tudo inqualificável.

Vergonha do jogador do Sporting que terá proferido um “chupa!” ao passar por Rafa. Vergonha deste por, enquanto profissional, não ter engolido profissionalmente o insulto. Isto dito por homens sentados em confortáveis estúdios de televisão, de blazer e ar filosofal, onde praticam as maiores indignidades e arrepiantes atentados à inteligência e à boa educação. “Cala-te!” berrava um adepto do Benfica para outro do Sporting. “Não me mandas calar! É a última vez que me mandas calar!” ripostava o outro, deixando no ar uma velada ameaça física (as câmaras mostravam a perna do adepto do Sporting a tremer violentamente debaixo da mesa).

Naquelas palavras, sem nenhum palavrão, sem nenhuma perseguição furiosa, havia uma flor pútrida, porque dissimulada, de violência. Sucederam-se em estúdio outras cenas lamentáveis sempre com o mesmo tom de agressividade feroz mal disfarçada pela polidez dos pós televisivos. E essa fúria bem-vinda para as audiências é censurada aos treinadores e jogadores quando, no calor do pós-jogo, se revelam incapazes de dominar a frustração. Sérgio Conceição, por exemplo, mostra um contundente mau perder, que eu próprio, por distração e hábito, já terei criticado. Mas um pouco de mau perder é desejável. Mais: é imperioso. Como um pouco de mau ganhar, já agora.

Também eu aprecio o comedimento, a moderação olímpica dos jogadores de ténis. Mas, reparem, a disposição dos elementos num jogo de ténis favorece, digamos, essa arquitetura do respeito e do desportivismo. Separados por uma rede, sem contacto direto entre os dois, os tenistas canalizam toda a força, toda a agressão, para a desgraçada bola e, os mais sanguíneos, para as raquetes, destruídas como guitarras de metaleiro. É um combate por procuração, uma esgrima remota em que a estocada é aquela bola impossível a correr ao longo do court. O próprio árbitro está lá em cima, celestial, a administrar a contenda a partir de um plano elevado. Os jogadores geralmente vestem roupas angélicas, de uma imaculada brancura e o obrigatório cumprimento final é o resultado lógico de toda uma cenografia pensada para esse momento em que os jogadores vencem a distância imposta pela rede e se saúdam com nobreza.

No futebol, pelo contrário, tudo favorece o insulto, a dissimulação, a manha, o que torna difícil destrinçar uma entrada maldosa de uma entrada imprudente, uma falta cínica de uma outra tão inocente como um lírio no cabelo de uma virgem. Bem, o que eu queria dizer é que o final de um jogo de futebol nem sempre pode ser tão fleumático e tão britânico como o que vimos ontem em Liverpool. É certo que o golo de Salah (aquele golo de museu!) trouxe alegria ao mundo e, em parte, foi responsável pelo clima de camaradagem no final, com adversários a trocarem sorrisos e cumprimentos, e o Hino da Alegria a sobrepor-se ao You’ll Never WalkAlone (pelo menos foi o que me pareceu ouvir). Porém, de vez em quando, um jogo de futebol precisa de um final à futebol, com provocações, correrias, doses saudáveis de mau ganhar e de mau perder. De vez em quando, é preciso um bom e velho sururu sul-americano, esse artefacto arqueológico ameaçado por uma visão empresarial e asséptica do desporto e que, pelo menos por cá, vai empurrando o lixo e a lama para os confrontos orais na televisão.