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Precisamos muito mais dos deuses do que eles de nós (Pedro Marques Lopes, sobre Tiger Woods)

O cronista e comentador Pedro Marques Lopes escreve sobre Tiger, o golfista que ele, um dia, quis ver perder. "Mas não daquela maneira"

Pedro Marques Lopes

David Cannon

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Depois de mais de mais de catorze anos de sofrimento, o Tiger meteu o último putt, ganhou o décimo quinto major, o quinto Masters, levou os braços ao ar, deu o tradicional abraço ao caddie, um beijo à mãe e aos filhos e foi vestir o casaco verde de vencedor do torneio.

Comemorou de forma natural, como se fosse apenas uma vitória num torneio; eu gritei como um possesso enquanto umas lágrimas me corriam pela cara. Bem mais do que as me vieram aos olhos quando, aqui há uns tempos, vi as fotos dele depois de ser preso pela polícia: um homem degradado, de olhar vazio, consumido pela depressão e pelas drogas. O homem que mostrou ao mundo, a todo o mundo, o mais extraordinário jogo jamais inventado era a imagem da derrota.

Só mais uma história triste de quem tinha tido o mundo a seus pés, que tinha vencido todos, mas que acabava vencido pelos seus fantasmas e pelas limitações físicas.

Apenas um homem.

Durante os muitos anos em que ele dominou o mais competitivo desporto do mundo (para quem tiver dúvidas basta verificar quantas nomes repetidos de vencedores constam nos últimos cinquenta torneios do European ou PGA Tour), os adeptos de golfe dividiam-se entre os que queriam que ele ganhasse e os que queriam que ele perdesse, não importava contra quem.

Eu era dos que torcia para que os seus drives fossem para as árvores, que ficava doido quando ele sacava de um ferro 9 e colava a bola à bandeira a 150 metros, que gritava contra os deuses quando metia putts de 10 metros como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Para piorar, ele nem era o melhor em nenhum dos campos específicos do jogo. Não era o melhor do tee, não tinha a melhor segunda pancada, não era o rei do jogo curto, mas, lá está, era a prova escarrapachada de que os campeões não são os melhores executantes dos aspetos técnicos ou tácticos de um jogo; são os que têm uma chama especial, um dom, algo que nunca nenhum tratado conseguiu explicar.

Mas eu queria que ele perdesse no campo, não daquela maneira. Não porque, claramente, os diabos do golfe estavam cansados de tanta genialidade e deram-lhe cabo do corpo e da alma. É que este jogo foi feito para baixar a garimpa ao mais convencido, para cobrir de humildade o mais arrogante, para estraçalhar a autoconfiança do mais seguro dos homens.

Quando o Tiger regressou aos torneios os especialistas torceram o nariz – e o swing que tinha de mudar e a idade e que agora havia ainda mais e melhores jogadores. Mas os simples amantes do jogo uniram-se de uma forma apenas aparentemente estranha.

Agora estávamos todos com ele. Os majors já não eram quatro dias para assistir ao melhor golfe, eram dias de sofrer pelo homem. Ele por nós. Ele ia mostrar que qualquer tipo imperfeito, com os mesmos dramas que os nossos, com os mesmos fantasmas consegue vencer todos os obstáculos.

Talvez por isso senti muito mais emoção, muito mais alegria, muito mais euforia nos adeptos do que no próprio Tiger. Aquela vitória foi claramente mais importante para nós do que para ele.

Como se fosse uma novidade que nós precisamos mais dos deuses do que eles precisam de nós.