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Têm a certeza que querem brincar ao faz de conta? Vocês sabem que estariam tramados

Duarte Gomes pede-vos uma singela coisa: imaginem que poderiam trocar de vida com um árbitro por alguns instantes, para perceberem a frustração e a ansiedade e o medo e a pressão a que os homens dos cartões estão sujeitos dentro e fora do campo. E, depois, que avaliem: vale a pena?

Duarte Gomes

Marco Luzzani

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Já pensaram em como seria a vossa vida se a profissão que escolheram, se o vosso trabalho, fosse outro, completamente diferente? Onde estariam, quem seriam, o que teria mudado?

A proposta que vos trago hoje vai nesse sentido. Proponho-vos que embarquem comigo numa viagem viagem de "faz de conta".

Faz de conta que os meus amigos são agora árbitros de futebol profissional. Daqueles da Primeira Liga, que são o assunto do dia. De todos os dias, para toda a gente. Imaginem a coisa como quiserem: tiraram o curso há uma série de anos, blá, blá, fizeram o percurso obrigatório nos escalões de formação, distritais e campeonatos nacionais, blá, blá, e, depois de centenas de jogos arbitrados e de milhares de quilómetros percorridos, chegaram finalmente ao topo. À divisão maior do futebol português.

Foi rápido, não foi?

Agora faz de conta que, aí chegados, começaram por dirigir jogos menos mediáticos, jogos em que estavam menos expostos e, no espaço de duas, três épocas, foram lançados para partidas de maior mediatismo. Para desafios com importância relevante para as contas finais do campeonato (promoção e despromoção, derbies escaldantes, apuramento para as competições europeias, etc).

Estão agora no grupo dos oito, dez juízes considerados de topo, aqueles que são teoricamente mais qualificados para arbitrar qualquer partida no futebol português.

Sintam essa responsabilidade.

E sintam esse orgulho. O de saberem que - depois de anos e anos a percorrerem o país, a sacrificarem fins de semana e a prescindirem de tempo em família - atingiram o ponto mais alto da vossa carreira profissional. O topo da hierarquia nacional.

É reconfortante.

Agora faz de conta que foram finalmente nomeados para arbitrar um jogo decisivo. Um daqueles que pode decidir quem será o campeão nacional. Um daqueles que todos querem ver, todos querem jogar e todos querem dirigir. Faz de conta que essa nomeação - para vocês o reconhecimento da persistência e do trabalho - surge neste contexto:

- Semanas e semanas de tensão, de acusações e suspeitas, em que o assunto do dia gira em torno de favorecimentos e ajudas, de VAR e Varíssimos, de condicionamentos e pressões.

Faz de conta ainda que esse jogo, o tal que ansiavam por arbitrar, surge assim, nesse verdadeiro "cenário de guerra". Num cenário onde toda a gente parece desconfiar de qualquer coisa. Onde cada decisão, cada palavra, cada escolha é interpretada de maneira distorcida, poluída, infetada. Faz de conta que, em vez de sentirem a alegria por ter chegado o vosso momento, só conseguem sentir desencanto e tormento. Percebem, aos poucos, que tudo o que devia supostamente ser desafiante, entusiasmante e colorido é, afinal, tenebroso, dilacerante. Cinzento. Absorvam essas sensações e digam-me: isso afeta ou não a vossa motivação? Afeta ou não a vossa prepração mental para aquele grande momento? Afeta ou não o vosso foco, a vossa concentração, a vossa "liberdade" para fazerem o que melhor sabem?

Avançamos?

Agora faz de conta que, quando chegam ao estádio, o ambiente é de cortar à faca. Há caras fechadas, expressões de desconfiança e ansiedade visível. As pessoas não se falam. Estão de cabeça baixa e de semblante carregado. E há uma espécie de tensão no ar que faz pensar que tudo pode "explodir" a qualquer momento.

Sentem-se confiantes por trabalhar nessas condições? Era essa a receção que desejavam naquele momento? Faz de conta que, antes do jogo iniciar, fazem o que dizem as regras: agem com neutralidade, cumprem protocolos e relacionam-se, de forma cordial e institucional, com tudo e com todos. Agora faz de conta que tentam mandar para trás todas essas nuvens negras. Toda aquela má energia. Todo aquele ambiente pesado e quase irrespirável que se vive antes do início do encontro.

Abraçam a vossa equipa, dirigem-lhes palavras de motivação e incentivo e vão lá para dentro. Para o aquecimento. Mal entram em campo - e lembrem-se, ainda não começaram literalmente a trabalhar - são atropelados por um coro de assobios e por um mar de insultos. Dezenas de milhares de vozes unem-se, num só esforço, para vos dizer que vos odeiam. Para vos ofender, maltratar e esmagar. Para dizer que não prestam.

Faz de conta que estão a sentir agora essa onda de choque, essa enorme revolta da multidão. Agrada-vos? Ajudará a cumprirem a vossa missão com felicidade? Com qualidade? Com qualidade? Era a isto que aspiravam? Conseguem transpor essa sensação para aquilo que fazem, no vosso dia a dia? Estão a imaginar-se aceitar, de ânimo leve, que alguém vos tratasse assim? Antes mesmo de começarem a trabalhar? Achariam justo? Reagiriam? Ou aceitariam, em silêncio?

Há mais.

Mike Egerton - EMPICS

Com os assobios, chovem também os objetos. Faz de conta que metade do vosso "warm-up" é físico e de adaptação às condições... e a outra metade é tática: tática de fuga a isqueiros e moedas, a bolas de golfe e garrafas de água, a baterias de telemóvel, pilhas e afins.

É bom? Sabe bem? Gostam? Vá, deixem-se de coisas, voltem aos balneários e preparem-se para o jogo, que agora é a doer.

Faz de conta que a partida começou. E que, de cada vez que tomam uma decisão (seja ela qual for), têm seis, sete jogadores à vossa volta. A contestar, barafustar e a dizer asneiras mascaradas. Eles empurram-se, picam-se, caem e levantam-se. E, nos bancos técnicos, está toda a gente de pé, a saltar em histeria, de telemóvel em riste, a mostrar frames atrás de frames. O estádio inteiro está a protestar.

Parece que estão no meio de um furacão com ventos demasiado fortes. Ventos que um só homem não pode controlar. Faz de conta que surgem agora meia dúzia de lances, daqueles impossíveis. Os tais do parece, não parece. Do será, não será. Do foi, não foi.

Duraram um nanosegundo. Entre pernas e cabeças, corpos e suor, pouco viram. É pura intuição. Apitam ou não apitam? Os colegas que estão à linha, bem mais longe e focados noutras missões, não conseguem ajudar. O VAR tem tudo para dar apoio... menos certezas. Raios parta o protocolo. A imagem não esclarece, é tudo dúbio, estranho. Difícil de garantir.

Vocês sabem que estão tramados.

Decidam o que decidirem, o tempo vai agravar e a chuva vai cair forte. Vai cair forte logo ali, no final do jogo e, sobretudo, nas semanas seguintes. Como está a vossa autoestima neste momento? E os vossos níveis de confiança? Como dividem, emocionalmente, a obrigação de agir de acordo com o que impõe a vossa consciência... e a convicção plena que os tempos que aí vêm serão absolutamente doentios? Arrasadores? Demolidores? Que impacto é que esse oceano de emoções tem no vosso discernimento? Onde termina a atitude do profissional e começam as emoções do homem?

O jogo terminou, os jogadores empurram-se, aparece um mar de gente de dedo em riste e não se ouve nada por causa dos assobios e do ruído exterior. Vocês estão ali no meio, cansados, exaustos, desesperados.

Só querem que aquele pesadelo acabe depressa. Não querem ouvir mais barbaridades, não querem ser mais espezinhados, não querem ser o alvo da ira desmedida de pessoas descontroladas.
Mas são. E continuam a ser.

Chegam aos balneários depois de ouvirem vozes soltas a chamarem-vos de tudo. Vozes anónimas, lançadas nas vossas costas e perdidas nos ecos dos corredores.

Sentem-se derrotados. Acabados. Mortos.

E porquê? Porque, depois de dias dificílimos, deram o melhor que podiam e sabiam numa atividade exercida em condições adversas, perante um ambiente hostil e num cenário explosivo.

Era um jogo, mas parecia uma guerra. Agora que puseram a cabeça no duche e pediram aos vossos colegas cinco minutos para esfriar... como se sentem? Como está o aperto no peito? Dói menos? Que mensagem vão mandar à vossa esposa e aos vossos filhos, que estão lá em casa a prever o inevitável?

"Está tudo bem, eu estou bem, não se preocupem"?

É para isto que dedicaram tantos anos da vossa vida ao futebol? Era assim que viam terminar aquele que devia ser o ponto mais alto da vossa carreira? Não se percam em balanços. A partida terminou, mas o "melhor" ainda está para vir.

Tudo o que fizeram lá dentro foi visto e revisto, à lupa. Ao mais ínfimo detalhe. Ao mais microscópico dos pormenores. Agora vai começar outro jogo. O da análise, do escrutínio minucioso, da crítica implacável. Da crítica de conveniência.

É certo que vocês sabem que estes são danos colaterais dos tempos modernos, mas... estarão mesmo preparados para a implacável avaliação da opinião pública? No local onde trabalham de verdade, o país costuma parar para ver, criticar e qualificar o que fazem?

Ele é reproduzido, todos os dias, em todos os canais de informação? Em todos os jornais? Em todos os debates nos media? É falado e comentado durante horas e dias a fio? Durante semanas? E a vossa integridade, é arrastada nessa dissecação?

Não?

Mas... e se fosse assim? E se fosse assim, de cada vez que cumprissem a vossa função, de cada que fossem trabalhar? Como se sentiriam? Desistiam? Continuavam? Como se sentiriam se, de cada vez que saíssem com a vossa família, esta tivesse que ouvir um mundo de impropérios por causa daquilo que fazem?

Como reagiriam? Como os defenderiam? Como os protegeriam? Como lhes explicariam que as coisas "são assim mesmo"? Com conformação? Ou com raiva, com ódio, com vontade de partir tudo à vossa volta?

No mundo do faz de conta, qualquer coisa é possível, mas há coisas que só compreende quem as vive e sente, por dentro. Quem passa por elas de verdade. Às vezes é importante fazermos o exercício de nos pormos no lugar daqueles que tanto criticamos.

"Antes de julgar a minha vida ou o meu caráter... calce os meus sapatos e percorra o caminho que eu percorri (...)"

Já dizia a tal senhora.