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Uma boa noite é uma noite em que o City perde

Gosto quando o City, o PSG ou sucedâneos são eliminados da Liga dos Campeões, sobretudo se o forem por clubes tradicionais como este eletrizante Ajax que deitou por terra a família Juventus, dos Agnelli, e o consanguíneo Bayern, em que ex-jogadores rodam entre eles a liderança. Só o Ajax, um dos últimos de uma espécie já em extinção, evitará a normalização de fenómenos como o Chelsea, que já se entranhou no folclore futebolístico com o seu CV construído nos múltiplos rublos de um oligarca russo pós-Guerra Fria com amizades pouco recomendáveis

Pedro Candeias

Marc Atkins

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O Manchester City foi eliminado pelo Tottenham e eu dei uma gargalhada e enviei as mensagens de WhatsApp, duas originalidades minhas em noites destas que receio tornarem-se demasiado previsíveis a julgar pelas respostas: “já cá faltava isto”, “já cá faltava este gajo”, “já cá faltavas”.

Sobre o teor da mensagem nada direi, mas não é preciso saber ler a carta para lá chegar; somos apenas tipos que se conhecem há 20 anos, e duas décadas são suficientes para uma relação evoluir da cordialidade e da empatia para a desfrontalização e desresponsabilização totais. Já sobre o riso, digo-vos que fica desesperadamente a meio caminho entre o Eric Roberts e o Stallone, sendo que aponto sempre ao Cruise.

Voltando ao tema - à derrota no protocolo do Manchester City com o Tottenham que tanto me satisfaz - não me interpretem como mesquinho ou pequenino. Não há nada que me mova particularmente contra Guardiola, a não ser uma disfarçada inveja por um careca de quem elas realmente gostam. Vejamos,o homem é competente, vencedor, eloquente, idealista, romântico, e isso é bastante OK num mundo cada vez mais cínico - ainda que, aqui e ali, lhe reconheça algumas falhas a que chamarei sonsices.

Acontece a toda a gente bem educada e melhor intencionada que investe o seu tempo no caminho da verdade e honestidade absolutas; coisas tipo “nunca criticarei um colega”, “nunca falarei de arbitragem”, etcetera. No meu caso: bater com a mão no peito, assegurar ofendido que sou o mais arrumado lá de casa e deixar no chão as meias que “jamais deixarei no chão, porque não sou como os outros”.

Bom, mas a propósito de Guardiola, o que tenho aqui a dizer é sobre o Manchester City, o clube que há quinze anos só sabíamos existir pelos delírios etílicos dos manos Liam e Noel Gallagher. Resumidamente: o City era quase inexistente e tornou-se uma experiência financeira, a meio da qual foram injetadas quantidades assinaláveis de dinheiro em duas tranches: na primeira, em 2007, o tailandês Thaksin Shinawatra comprou 75% das ações do clube; na segunda, em 2008, o sheik Mansour tomou conta das operações.

Shinawatra é um ex-primeiro-ministro tailandês acusado de evasão fiscal, corrupção, traição, conflitos de interesse e outras ilegalidades.

O sheik Mansour, dos Emirados Árabes Unidos, é realeza e milionário para além da nossa imaginação; ex-cavaleiro galante, e além de dono do City, também tem o New York City FC, Melbourne City FC, e a cadeia de televisão Al-Jazeera. Em 2013, o insuspeito “Guardian” escreveu que Abu Dhabi, o emirado de Mansour, estaria a lavar dinheiro através do súbito interesse em clubes de futebol, avisando para as práticas menos recomendáveis que a Amnistia Internacional denunciara antes.

Obviamente, isto não fica bem.

Mas é assim que as coisas andam por ali e também pelo Paris Saint-Germain sponsorizado pelo Qatar, para dar outro exemplo. De repente, vemos futebolistas como De Bruyne, Kyle Walker, David Silva, Agüero, Ederson, Neymar, Cavani, Mbappé, Bernardo Silva ou Draxler comprados por números inconcebíveis por clubes inexpressivos. A consequência natural, porque dinheiro gera dinheiro, é o pulo competitivo destas equipas, que logo chegam a lugares que se julgavam reservados aos históricos e ao desmancha-prazeres ocasional.

Ora, dir-me-ão, isto introduz o elemento surpresa numa competição razoavelmente dominada pelos mesmos e é da democracia haver oportunidades iguais para muitos. O que é verdade, mas talvez o efeito indireto destes clubes, digamos, novos-ricos seja o de encarecer estupidamente o mercado com milhões que não são os seus e cuja proveniência é duvidosa, subvertendo as leis da concorrência.

Portanto, sim, um dia bom é um dia em que o City, o PSG ou sucedâneos são eliminados da Liga dos Campeões, sobretudo se o forem por clubes tradicionais como este eletrizante Ajax que deitou por terra a família Juventus, dos Agnelli, e o consanguíneo Bayern, em que ex-jogadores rodam entre eles a liderança. Só o Ajax, um dos últimos de uma espécie já em extinção, evitará a normalização de fenómenos como o Chelsea, que já se entranhou no folclore futebolístico com o seu CV construído nos múltiplos rublos de um oligarca russo pós-Guerra Fria com amizades pouco recomendáveis.

Já compreendem a minha satisfação.