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Deus e Família ou o sobrenatural no comando e o Benfica a reboque (por Bruno Vieira Amaral)

O escritor lembra-nos que há semanas em que o futebol não se compadece com tática, ciência e racionalidade, mas sim com o esotérico, com os nervos. Esta foi uma dessas semanas e quem viu o Benfica - Portimonense sabe do que Bruno Vieira Amaral fala

Bruno Vieira Amaral

Pedro Fiúza/NurPhoto/Getty

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Em comparação com outros treinadores, Bruno Lage tinha, e continua a ter, a desvantagem da inexperiência. Por muito que um treinador saiba sobre tática, uma coisa é treinar a equipa B no sossego do Seixal, outra coisa é pegar na equipa principal e enfrentar semanalmente o volátil tribunal da Luz, transformando-se, pelo caminho, numa figura pública. Mas Lage tinha um trunfo: a ausência de passado. Ninguém o conhecia. Não havia declarações infelizes que lhe pudessem ser arremessadas em períodos conturbados. Não havia ligações a outros clubes. Não havia um histórico de resultados. Lage, como uma espécie de tela vazia, foi emoldurado e pendurado na parede para que os adeptos aí projetassem o que bem entendessem.

A mensagem começou a passar porque se deu ao mensageiro o benefício da dúvida e os resultados apareceram. O modo de falar sobre tática sem parecer professoral ou hermético convenceu a maioria dos adeptos de que também eles seriam capazes de falar assim se percebessem alguma coisa de futebol. Porém, após o jogo de sábado, ouvir o treinador do Benfica falar de tática foi o mesmo que ouvir as declarações de um doutorado em física no final de um congresso espírita. É normal que um treinador tenha a tentação de manter a racionalidade e procure explicar cientificamente aquilo que aconteceu em campo, mas os acontecimentos naquela meia-hora final no Estádio da Luz são o mais próximo do sobrenatural que um jogo de futebol pode estar.

Nas bancadas, os adeptos tremiam perante a iminência de uma catástrofe. No banco, Minervino Pietra sucumbiu aos nervos. Em campo, a bola queimava os pés dos jogadores do Benfica. Durante uma hora, o Portimonense jogou como equipa grande, criou oportunidades, marcou um golo. Enquanto isso, o Benfica parecia um conjunto de amadores a atuar pela primeira vez num grande palco. Foi então que toda a gente fechou os olhos e o milagre aconteceu. Haverá explicações mais rebuscadas, mas nenhuma tão simples: o sobrenatural assumiu o comando. (Lembrei-me das clarividentes palavras de Silas, nome bíblico, dias antes: às vezes só se pode mesmo rezar). Rafa desceu à terra, afastou as nuvens, abriu o caminho aos adeptos que, no transe do desespero, viram, finalmente, a luz. Explosão! Epifania! Revelação! No final, de nervos esfrangalhados, alguns jogadores choravam. Outros levantavam as mãos para os céus, talvez agradecendo, talvez interrogando os deuses sobre a razão de tanto sofrimento.

Talvez o leitor já não se recorde, mas há quase cinco anos o Brasil treinado pela dupla Scolari-Senhora do Caravaggio inaugurou aquilo a que se pode chamar “futebol pentecostal”. Os jogadores choravam antes dos jogos, depois dos jogos e até durante os jogos, disfarçando as lágrimas com o suor. Ora corriam como possuídos, ora ficavam imóveis como estátuas de sal. Era tudo à base da emoção, das palestras esotéricas do Sargentão, do amor ao povo brasileiro, de uma difusa mística de balneário. Sabemos bem como acabou esse futebol pentecostal, atropelado por um panzer germânico numa noite amena no estado de Minas.

PATRICIA DE MELO MOREIRA/Getty

Para já, o Benfica escapou a um novo Maracanazo porque Rafa Silva, tantas vezes acusado de falta de frieza na hora de rematar à baliza, se comportou como o único homem sóbrio no meio de uma multidão embriagada pelo puro pavor de perder um campeonato. A forma como picou a bola no primeiro golo foi um shot de lucidez e beleza num oceano confuso de emoções descontroladas. Foi Jesus a acalmar as águas do mar da Galileia. Os adeptos sentem que nos dois jogos que faltam as coisas não vão ser diferentes e só esperam que os ventos sobrenaturais soprem a favor da barcaça que treme, de emoção e de terror, por todos os lados. Talvez seja o momento certo para Bruno Lage, pelo menos nas conferências de antevisão, ceder humildemente o lugar a um xamã ou a um pastor evangélico para umas rezas coletivas à moda de Silas e seja o que Deus quiser.

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Enquanto na Luz a questão parece ser do foro religioso, no Dragão discute-se a família, como se o patriarca tivesse morrido. Veja-se como cada um dos quatro golos ao Aves foi comemorado com festejos sepulcrais. No final, Sérgio Conceição, como bom pater familias, veio dizer que os problemas familiares se resolvem, passe a redundância, em família, no recato do lar. Eu sei que recato do lar não casa bem com a imagem de um jogador a empunhar um megafone e a dirigir-se, num dialeto bizarro, aos parentes mais exaltados, mas a constatação de que o sobrenatural está, até agora, do lado do Benfica, obriga a soluções de recurso. Espera-se que os problemas familiares e a tensão crescente não resultem em mais um triste episódio de violência doméstica. Segundo os jornais, as claques prometem tréguas até à final da Taça. Depois disso, só Deus sabe.

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A equipa pode já não usar a cruz de Cristo (embora o treinador acredite no poder da oração), mas o empresarial Belenenses SAD fez questão de se pôr ao lado dos bispos portugueses e declarar o domingo como dia de descanso. Disso se aproveitou o irreligioso Sporting para construir a maior goleada dos últimos trinta e cinco anos, indiferente aos apelos eclesiásticos ao descanso no dia do Senhor e aproveitando para fixar o limite moral das cabazadas nuns equilibrados 8-1.