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Carta a Fabius Coriandri Maximus

Bruno Vieira Amaral escreve sobre Fábio Coentrão, ex-benfiquista e ex-sportinguista, atualmente no Rio Ave: "Um potro selvagem, um indomável caxineiro, incapaz de disciplinar as emoções e se isso, por um lado, a par das questionáveis opções de coloração capilar, é o que te distingue, por outro, torna-te um alvo fácil para os teus adversários"

Bruno Vieira Amaral

MIGUEL RIOPA

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Si vales, bene est.

Perdoa-me a demora nesta missiva, mas estive ocupado com outros afazeres e só agora encontrei o tempo e o sossego necessários para te dar conselhos que, desafortunadamente, serão de pouca utilidade agora que estás no ocaso da tua carreira. Como saberás, sempre admirei as tuas qualidades futebolísticas, desde os tempos em que o professor Jesus, sabe-se lá por que artes mágicas, te transformou num lateral esquerdo de eleição, ao ponto de seres titular indiscutível da seleção nacional e de mereceres a atenção do colosso da capital da Hispânia.

Sempre achei, porém, que o que te sobrava em talento e raça, em velocidade e querer, podia não chegar para cobrir o passivo da tua instabilidade emocional, de um certo descontrolo mental, como se estivesses sempre à beira do precipício e nunca te ocorresse ideia melhor do que dar um passo, ou dois, em frente. Mesmo assim, outros com mais talento tiveram carreiras bem menos fulgurantes que a tua e não há razões para não te sentires orgulhoso do que alcançaste.

Concordo contigo quando dizes que não é vergonha nenhuma jogar no Rio Ave depois de teres vestido camisolas tão célebres como as do Real Madrid, do Benfica e do Sporting, que julgo ser o teu clube do coração, embora me tenhas ensinado a encarar com alguma reserva as tuas declarações de amor. O que define o carácter de um jogador não é os clubes que representa, mas como os representa, e se é verdade que, em teu próprio prejuízo, nem sempre foste um exemplo de profissionalismo, creio que terás chegado a uma fase da vida em que obtiveste pela experiência aquilo de que os deuses te privaram à nascença. Para isso mesmo serve a experiência.

Não obstante, continuas a ser – sê-lo-ás até ao fim – um potro selvagem, um indomável caxineiro, incapaz de disciplinar as emoções e se isso, por um lado, a par das questionáveis opções de coloração capilar, é o que te distingue, por outro, torna-te um alvo fácil para os teus adversários. Bem sei que pedir-te ponderação nos pensamentos e moderação nos gestos deve mais à minha crença na maleabilidade do ser humano, ainda que já entrado na quarta década de vida, do que à confiança no teu autodomínio e contenção, mas é isso mesmo que te peço, pois, apesar das tuas mostras de ingratidão, associar-te-ei para sempre ao renascimento de uma ideia de Benfica que parecia morta e enterrada.

Talvez, enquanto sportinguista, não perdoes a ti mesmo a valiosa contribuição que deste para a renovação dessa ideia e isso poderá explicar a inopinada e cândida confissão no final do jogo de ontem de que tiveste muita pena de não ter tirado pontos ao Benfica. É provável que não te tenhas dado conta que essa declaração acrescentou um prazer inesperado à difícil conquista dos três pontos. Outro mais cínico teria guardado para si essa frustração, mas tu não. Ofereceste-a de peito aberto àqueles que agora vês como inimigos e eles, sem surpresa, banquetearam-se com a tua irreflexão e a tua sinceridade suicida.

Bem vês, julgava eu que esta missiva serviria para te dar conselhos e recomendar moderação e, afinal, acabo por te agradecer a fidelidade involuntária à tua natureza, a algo que é mais forte do que tu. Estende-se a minha gratidão ao momento caricato que nos proporcionaste ao despojares Andreas Samaris dos calções. Caído na relva, foste a imagem acabada da impotência perante a grandeza e atrevo-me a dizer que nunca um homem de calções pelos joelhos pareceu tão digno e intocável como o jogador grego.

Haverá outra interpretação, mais rebuscada, concedo, para o teu gesto impensado. Subsistirá no teu âmago, recalcada pela paixão e o ressentimento, uma célula latente de benfiquismo que os assobios dos adeptos vieram espicaçar e devolver à vida. Uma vez despertada do seu letargo, essa célula ordenou-te que desses início aos festejos antecipados de um título anunciado e te portasses como o adepto comum que, no jogo da consagração, procura levar para casa uma relíquia, seja um pedaço de relva, uma camisola ou, se a posição não lhe permitir melhor, os calções do seu ídolo.

A estar correta esta interpretação, diria que não poderias ter escolhido melhor objeto da tua admiração. Se o Benfica conquistar este campeonato, Andreas Samaris será recordado com um dos grandes artífices da proeza. O estoicismo com que suportou os tempos no banco e a naturalidade com que regressou de lá para se afirmar como o indiscutível patrão da equipa são dignos já não de um rei, mas de um deus grego, merecedor de uma estátua. E tu, Fabius Coriandri Maximus, da cultura helénica saberás o suficiente para reconhecer que, em mármore, só o nu fará justiça à imponência do homem que te recordou o símbolo que, em tempos idos, exibiste com tanta galhardia e brilhantismo.

Cura ut valeas.