Tribuna Expresso

Perfil

Crónica

Génios, místicas e caras feias, eclipses e serenidades (o campeonato, por Bruno Vieira Amaral)

Acabado o campeonato, o escritor Bruno Vieira Amaral faz o clássico "em jeito de balanço", argumentando quem são os melhores e os piores de 2018-19

Bruno Vieira Amaral

NurPhoto

Partilhar

Terminado um campeonato que durou até à última jornada, a principal conclusão a que chego é que o melhor Benfica foi melhor do que o melhor Porto e o pior Benfica foi pior que o pior Porto. Nesse sentido, a equipa de Sérgio Conceição foi a mais consistente, a que manteve um padrão mais regular ao longo de toda a campanha. O problema para o Porto foi que o pior Benfica só se viu enquanto Rui Vitória esteve à frente da equipa. Foi nesse período que sofreu três derrotas contra três equipas que não são do mesmo campeonato (Moreirense, Belenenses e Portimonense) e sempre por mais de um golo. Com a chegada de Bruno Lage começou um segundo campeonato e nessa competição o Benfica foi tão superior aos restantes que deu para recuperar do atraso e corrigir uma primeira metade catastrófica.

Já o Porto não sofreu grandes oscilações ao longo da época. Nunca foi brilhante, apesar de uma série de vitórias consecutivas que desanimaram os adversários, mas também nunca teve “afundanços”. Os empates com Moreirense e Vitória de Guimarães foram talvez os momentos em que isso esteve mais perto de acontecer, mas também foram jogos que o Porto poderia perfeitamente ter ganhado. Mesmo as três derrotas do Porto foram todas pela margem mínima. Acontece que duas delas foram contra o Benfica e isso teve um peso enorme no desfecho. Se comparássemos o campeonato com uma maratona, a comparação mais habitual, diríamos que o Porto manteve o ritmo ao longo de toda a prova e que o Benfica tropeçou no arranque, ficou agarrado às canelas, mas a meio da prova passou o testemunho a um outro Benfica, fresco e renovado, com pernas de sprinter e pulmões de queniano.

Portanto, não ganhou a equipa mais regular, mas a mais forte, contrariando a ideia feita de que os campeonatos são provas de regularidade. O número de golos marcados e sofridos comprova-o. Costuma dizer-se que os ataques ganham jogos e que as defesas ganham campeonatos. Porém, desta vez, o ataque ganhou jogos e ganhou o campeonato. O Benfica não sofreu golos em quinze jogos. O Porto não sofreu em vinte. Mas enquanto o Benfica ganhou aqueles quinze jogos, o Porto empatou dois dos vinte. Foram quatro pontos perdidos em jogos em que a defesa cumpriu, mas o ataque não apareceu. E isso foi decisivo.

Altos

Bruno Lage – Se o Benfica acabou o campeonato a festejar no Marquês, é a Bruno Lage, mais do que a qualquer outra figura, que o deve. Revolucionou o futebol da equipa e manteve um discurso sereno mesmo nos desaires nas taças. Apostou tudo no campeonato e ganhou. Não se lhe podia pedir mais.

Bruno Fernandes – é raro que o melhor jogador do campeonato seja da equipa que fica em terceiro, mas os golos e as exibições do médio do Sporting tiveram um peso e uma qualidade no desempenho geral da equipa incomparavelmente superior ao de qualquer outro jogador das outras equipas. Além disso, revelou-se um líder.

João Félix – um génio. Apareceu nos jogos contra os grandes rivais e, além da qualidade técnica superlativa, revelou personalidade de campeão. Aos 19 anos espalhou magia, demonstrou eficácia e foi o grande destaque individual da equipa campeã.

Éder Militão – o melhor central da Liga foi também o melhor lateral direito do Porto. Se Sérgio Conceição tivesse apostado nele para o ataque talvez se afirmasse como o melhor ponta-de-lança.

Gabriel e Samaris – o 37 começou a desenhar-se com a entrada desta dupla para o meio-campo. Há muita qualidade no Seixal, mas uma equipa para ser campeã não pode depender só dos meninos de bibe, precisa de homens feitos.

Ivo Vieira – ultrapassado em cima da meta pelo Vitória, o Moreirense foi, ainda assim, a equipa-revelação do campeonato, superando todas as expetativas com o 6º lugar. Mérito total do treinador madeirense.

Marcel Keizer – a equipa teve alguns momentos baixos, mas também foi capaz de mostrar um futebol que parecia fora do alcance do Sporting de Peseiro. Alheio às polémicas indígenas e à constante turbulência interna, o treinador holandês mostrou competência e civismo, qualidades que nem sempre andam de mão dada.

Baixos

Pepe – isto não vai lá só com mística e cara feia. Pepe ainda é um bom central, mas já não é o que foi. O excesso de impetuosidade é bom quando ainda se tem pernas. Quando as pernas começam a faltar, o melhor é usar a cabeça, desde que não seja para dar cabeçadas aos adversários.

Bas Dost – o eclipse do goleador holandês só não teve consequências mais desastrosas porque Bruno Fernandes e Luiz Phellyppe maquilharam a sua ausência.

Ferreyra e Castillo – depois da reconquista é fácil esquecer estas duas contratações. É certo que não se pode acertar sempre, mas o valor pago por dois avançados para uma equipa que jogava em 4-3-3 revela alguns problemas na política desportiva do Benfica, que nem sempre tem sido tão sólida como os cinco campeonatos conquistados nos últimos seis anos dão a entender.

Abel Ferreira – rapidamente fora das competições europeias, o Braga tinha uma oportunidade de ouro para se imiscuir na luta pelo título, mas nem sequer conseguiu o terceiro lugar.

Nível geral do campeonato – treze pontos de diferença do primeiro para o terceiro, sete pontos do terceiro para o quarto, quinze pontos do quarto para o quinto, oito equipas abaixo dos quarenta pontos. É o que temos.