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Porque os árbitros já não são aqueles senhores baixinhos e redondos, de camisola preta e apito ao pescoço

O texto de Duarte Gomes, ex-árbitro e cronista da Tribuna Expresso, sobre o que custa fazer uma pré-época numa profissão que é necessariamente diferente de todas as outras

Duarte Gomes

Este é Nestor Pitana, árbitro argentino conhecido pelo seu porte físico: 1,92m e 95kg

Ian Walton

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O fim de época encerra um longo ciclo de treinos, jogos, viagens, estágios e afins.

A maioria das pessoas não terá noção, mas para jogadores, treinadores e árbitros - os únicos agentes que são verdadeiramente imprescindíveis para que a bola role -, esse momento encerra onze meses de entrega total, de intensa atividade física, forte desgaste emocional e sucessivas saídas para longe de casa.

É verdade que o futebol ao mais alto nível é apelativo para muitos jovens e financeiramente compensador para alguns (não todos) dos seus intervenientes, mas não duvidem: é muito alto o preço a pagar por uma vida de dedicação extrema a uma paixão que, não raras vezes, os afasta de quem mais amam. Uma vida de curto prazo, de poiso incerto e de interrogações constantes. Uma vida onde sucesso e fracasso andam de mãos dadas: estão à distância de um golo, de uma lesão ou de um momento.

Quando tudo termina, jogadores, treinadores e árbitros têm finalmente tempo para descansar. Para descansar a cabeça, o corpo e a mente. Têm tempo para se afastar de toda aquela azáfama e dedicar-se, por uns dias, à mais eficaz das terapias: a proximidade à família.

Por norma, o período de férias de atletas e técnicos é de sensivelmente um mês: situa-se entre o último jogo realizado (geralmente no fim de Maio) e o arranque da nova época (quase sempre no início de Julho).

Já para os árbitros, a situação é bem diferente.

Os cursos iniciais decorrem em meados de Julho. Por essa altura, é "obrigatório" que os homens do apito estejam em boa forma e teoricamente aptos, porque a bateria de sessões teóricas/práticas e de testes físicos/escritos são de enorme exigência.

Não há como facilitar.

As leis de jogo têm que estar na ponta da língua e o corpinho preparado para enfrentar a dureza das provas a realizar. Isto significa que, para eles, as férias de Verão deste ano... são coisa do ano passado. Terminaram. Arrumaram-se em quinze dias (no máximo).

Conhecendo esta malta como conheço, aposto que poucos foram aqueles que pararam na totalidade.

Apesar da prudência sugerir um período de descanso sem restrições e longe de qualquer atividade ligada ao treino, a verdade é que a rapaziada não facilita.

Para eles, parar é arriscar demasiado. Arriscar na perda de forma, no facilitar face à concorrência emergente e até na balança: é que, nos dias que correm, uns quilitos a mais não são recomendáveis para quem sabe que a idade não perdoa e que a imagem é uma das armas mais potentes da credibilidade.

Os árbitros já não são aqueles senhores baixinhos e redondinhos, de camisola preta e apito ao pescoço. Já não passeiam pela zona de meio-campo, em trote controlado ou a passo moderado.

O futebol moderno é inacreditavelmente mais veloz do que era há dez, vinte anos e exige que todos os seus atores sejam atletas de exceção.

No caso do juízes, atletas capazes de correr doze/treze quilómetros por jogo, sem perder a lucidez e mantendo o discernimento até à última jogada. Até ao apito final. Essa exigência coloca-lhes pressão adicional. A pressão de terem que trabalhar muito e bem para responderem, com nota máxima, às exigências do presente.

Esta constatação, esta demonstração de enorme profissionalismo e profundo compromisso, não anula os erros que cometem em campo ou algumas más opções que tomam. Essas são inevitabilidades de quem tem por missão... tomar decisões. Mas é importante que a "opinião pública" conheça os bastidores e a qualidade do trabalho que esta classe produz.

A ideia de que o árbitro é aquele extraterrestre que aterra num qualquer relvado apenas para lançar miséria e discórdia só mora na cabeça de quem não tem cabeça.

Esta é uma profissão dura, exigente e de enorme entrega. Como se não bastasse o clima de guerrilha a que estão sujeitos enquanto exercem o seu trabalho, tudo o que não se vê, tudo o que não se ouve, tudo o que não se conhece requer, de facto, muito trabalho e sacrifício. Muita paixão. Muito amor à camisola.

Se por acaso duvidam, se acham que esta é apenas mais uma lenga-lenga corporativista e sem sentido, façam-me um favor: tirem o curso. Tirem o curso de árbitro, peguem no apito e dirijam uns jogos de miúdos. Verão que é uma experiência memorável, sobretudo para quem tem veneno na ponta da língua e covardia no resto do corpo. É... didático.

Fica o repto. Ou esse ou então o de se esforçarem por entender que, nos dias que correm, é absurdo pensar que alguém entra em campo com a intenção de prejudicar uns ou beneficiar outros.

Os árbitros fazem sempre, sempre o melhor que podem e sabem. Ainda que não sejam perfeitos. Ainda que não sejam infalíveis. Tal como os meus amigos, nas vossas vidas, nos vossos trabalhos, nas vossas escolhas... certo?