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A ideia na caixa de fósforos que resistiu à morte anunciada: como nasceu a Liga das Nações (por Tiago Craveiro)

Foi da cabeça do Diretor Geral da Federação Portuguesa de Futebol que nasceu a Liga das Nações que Portugal venceu. Craveiro, ao Expresso, descreve o processo de criação que teve, inevitavelmente, de ultrapassar algumas resistências

Tiago Craveiro, CEO da FPF

CARL RECINE

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No desporto, como em qualquer outra área relevante para as sociedades, há sempre desvantagens que a inovação tem de ser capaz de vencer: o hábito e a compreensão.

A existência prolongada de um contexto fá-lo parecer inquestionável. Mais ainda se esse contexto respira num universo conservador, com líderes tradicionais, como acontece – sem com isto estar a fazer juízo de valor sobre os seus méritos – na maioria das federações de futebol do mundo.

Um dos axiomas com que a Europa viveu (aparentemente sem qualquer dificuldade) nas últimas seis décadas, foi o de que as seleções nacionais fariam jogos particulares ou amigáveis todos os anos. Mesmo em momentos de enorme tensão nas épocas desportivas dos jogadores nos seus clubes, afinal, os responsáveis pela sua formação, desenvolvimento e, digamos sem nenhum receio, pelos seus salários.

Caixa de fósforos

Porventura, por ter pouca ou nenhuma base de futebol, cedo levantei este tema. Compreendo, no limite da minha absoluta ignorância futebolística, que um selecionador necessite de jogos de preparação antes de uma grande competição internacional, como um clube deles faz uso antes de cada temporada. Mas achei, sempre achei, indefensável, jogar jogos de treino a meio da época.

Como há dias me dizia um amigo, as boas ideias, para serem boas, devem poder ser escritas numa caixa de fósforos. Em 2014, quando esta “viagem” começou, o pensamento era simples: “acabar com os jogos amigáveis de seleções”. Pensando bem, isto cabe numa caixa de fósforos!

A lógica

Uma análise mais detalhada ao tal estado da arte, indiciou a conclusão de que as grandes seleções (leiam-se os grandes mercados) da Europa, jogavam muitas vezes entre si esses jogos amigáveis. E porquê? Porque, por incrível que pareça, o modelo de competição desenhado para as provas de seleções, raramente as fazia cruzar a não ser uma vez, eventualmente, numa fase avançada de uma grande competição. Segundo, porque juntar dois grandes mercados daria uma receita comercial e televisiva maior.

Dito de outra forma, o contexto favorece (ou favorecia) mais um Alemanha – Ilhas Faroé, um França – Andorra, um Espanha – San Marino do que um Inglaterra – Holanda ou um Itália – Portugal.

Convenhamos que isso não tem lógica nenhuma. Ou se tem, porque podemos encontrar alguma “lógica” em tudo, terá muito pouca.

Por isso era entendível que nos ditos amigáveis, dois grandes mercados se juntassem, muitas vezes também com Brasil e Argentina (Portugal jogou nestes últimos anos jogos particulares contra ambos). Se os organizadores de provas não permitem que esses encontros aconteçam oficialmente, teriam de ser oficiosos.

Mas voltemos à caixa de fósforos…

Uma vez o professor Ilídio Vale (na altura coordenador das seleções nacionais da formação e hoje adjunto de Fernando Santos), disse-me uma frase de que não me esqueci: “Não se educam campeões a perder”.

Ele não sabe, mas esta frase foi muito usada para convencer países como o Chipre, Gibraltar, Macedónia, Letónia e outros, a permitirem que se desenhasse uma prova em que eles não podiam cruzar-se com os 12 melhores da Europa.

As divisões

Este é o momento em que a caixa de fósforos já não chega. Lembro-me de ter feito um documento em 11 pontos, com as vantagens que teríamos em abolir amigáveis e criar divisões. Afinal, o mesmo que todos os países fazem no futebol interno de clubes.
No topo, faríamos com que as seleções maiores pudessem jogar no seu nível. Sim, Portugal acabou de ganhar uma competição em só entraram Alemanha, França, Espanha, Itália, Polónia, Holanda, Bélgica, Islândia, Suiça, Croácia, Inglaterra e… Portugal.

Abaixo deste nível, mais três divisões. Todos em base e equilíbrio competitivo, que é, ou devia ser, o objetivo de qualquer organizador de competições.

De todas as divisões houve subidas e descidas. Uma “heresia”, disseram-me diversas vezes vários líderes de federações quando o defendia sempre com o dito ensinamento do Ilídio Vale.

Claro que, sem surpresa, a primeira vitória de sempre de algumas equipas aconteceu nesta prova: equilibrada e ligada aos Europeus e Mundiais.

Como? Em vez dos 4 lugares finais de acesso a essas provas serem feitos escolhendo melhores terceiros de grupos, com as injustiças naturais que isso origina, daríamos um passe para o play-off às seleções que ganhassem os seus grupos, fosse em que divisão fosse.

Tudo ligado

Com este detalhe, as provas de seleções da UEFA ficam todas ligadas umas às outras e não houve nenhuma seleção que tivesse feito alinhar equipas secundárias em qualquer das divisões.
Um sinal claro de que a Liga das Nações não vai ficar por aqui.

Em 2014, tirando o meu Presidente, Fernando Gomes, e o então Secretário Geral da UEFA, hoje Presidente da FIFA, Gianni Infantino, creio que havia pouca gente a dar crédito a esta construção. Fosse porque amavam jogos amigáveis, fosse porque era mais fácil deixar tudo como estava. E era.

A reunião final

Um dia o Presidente da UEFA da altura, Michel Platini, convocou uma reunião com os presidentes das federações dos cinco maiores mercados europeus – Inglaterra, Itália, Alemanha, França e Espanha, acrescentando a Holanda e Portugal (quanta ironia há em tudo isto), por serem também dois países de futebol com tradição. Platini convidou-me a estar presente e a defender o projeto.

O objetivo, vim a sabê-lo uns dias mais tarde, da boca de vários conselheiros do Presidente, era matar “aquilo” antes de nascer.
Ouvi as piores coisas possíveis depois de falar. Essencialmente dos presidentes das federações da Alemanha e de Espanha. Platini olhava-me em tom neutro.

Apontei os argumentos e tentei rebatê-los um a um e, achei eu, que tinha corrido muito bem.
Dizia Angel Maria Villar (ex-presidente da Federação Espanhola): “Achas que alguma vez o Real Madrid e o Barcelona vão permitir que haja mais alguma prova de seleções?”

A minha resposta foi esta:
“Tenho a certeza que sim, especialmente se lhes disseres que não há mais jogos do que agora e que em vez de levares os jogadores para a Guiné Equatorial ou para a África do Sul para amigáveis, eles jogarão perto de casa, em Inglaterra, Portugal ou França!”.

Depois desta resposta, Platini acabou com a reunião. Levantou-se e disse: “Estou esclarecido!”.
Ao passar por mim afirmou alto para que todos na sala ouvissem: “Não vás embora hoje, fica cá e vamos jantar!”.
Estava feito. O Fernando Santos e os nossos incríveis atletas trataram do resto!

Nota pessoal: o meu profundo agradecimento e público reconhecimento ao meu amigo e Presidente Fernando Gomes, por ter permitido que em tantos momentos complicados, continuássemos a acreditar que isto era possível.