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Ninguém é professor na sua terra

Bruno Vieira Amaral fala-nos da Copa América, dos mal-amados que lá andam, um deles português, e daquilo que une políticos, prostitutas e edifícios feios

Bruno Vieira Amaral

Wagner Meier/Getty

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Ontem à tarde liguei a televisão e, numa daquelas coincidências que têm algo de sobrenatural, um homem muito alto e mais robusto do que eu me lembrava preparava-se para marcar um penálti. A coincidência é que eu tinha visto aquele homem muitas vezes naquela posição, em frente de uma baliza, pronto a disparar para as redes. O remate não desiludiu. Potente, a força a compensar a falta de jeito, mesmo para o meio da baliza, sem dar hipóteses ao guarda-redes, que, se não se tivesse mexido, provavelmente estaria a estas horas internado num hospital brasileiro. Os companheiros do avançado correram para ele, rodearam-no e, no meio do magote de jogadores, avistei Óscar “Tacuara” Cardozo, melhor marcador estrangeiro da história do Benfica. Aos 36 anos, depois de mais de uma década no futebol europeu, pensei que o avançado paraguaio estivesse a gozar a reforma, sentado numa cadeira de baloiço num alpendre com uma palha ao canto da boca a observar a extensão da sua fazenda onde criaria gado para exportação. No Mundial de 2010, se estão lembrados, Cardozo falhou um penálti no jogo contra a Espanha e foi apontado a dedo pelos seus compatriotas como um dos grandes culpados, se não o maior, da eliminação do Paraguai. Julguei que semelhante cadastro tivesse acabado, por esta altura, com as suas aspirações internacionais.

Pelos vistos, não. Apesar dos muitos golos ao serviço do Benfica e de cânticos que lhe eram dedicados, Cardozo nunca foi um dos meninos queridos da Luz. Habitava aquele terreno escorregadio, muito conhecido de certos avançados toscos, em que os adeptos não regateiam aplausos no momento do golo, nem apupos no momento do falhanço. Com o seu ar de órfão índio, semblante fechado e corpo longilíneo (donde a alcunha Tacuara), sem graciosidade nem técnica, Cardozo teve de marcar muitos golos para vencer a desconfiança dos adeptos e nem assim lhes conquistou o coração. Na seleção paraguaia terá acontecido o mesmo. Daí a minha surpresa ao vê-lo a capitanear tardiamente a equipa do seu país, a assumir a responsabilidade de marcar o penálti e, surpresa ainda maior, a sorrir como um miúdo ao lado dos companheiros muito mais jovens. O avançado regressou ao Paraguai, para jogar no Libertad, e deverá ter demonstrado ao selecionador que, apesar de continuar sem a magia que seduz os adeptos, ainda sabe marcar golos e a idade, a experiência e o estatuto o ensinaram a sorrir. Ou talvez tenha sido apenas a passagem do tempo. Dizia a personagem de John Huston no clássico Chinatown que “os políticos, as prostitutas e os edifícios feios todos se tornam respeitáveis se durarem o suficiente.” Inclua-se neste grupo os avançados toscos e mal-amados. Se durarem o suficiente os defeitos desvanecem-se e eles tornam-se instituições nacionais

CARL DE SOUZA/Getty

Na primeira ronda da Copa América brilhou outro mal-amado muito cá de casa. O professor Queiroz estreou-se em jogos oficiais pela Colômbia e fez o que o ex-selecionador dos cafeteros, o bem-amado Jose Pekerman, nunca conseguiu fazer: ganhar à Argentina. A Colômbia não ganhava à Argentina desde 2007 e não derrotava a alviceleste na Copa América desde 1999, há vinte anos. Carlos Queiroz é um curiosíssimo caso de alguém cujo curriculum supera largamente o reconhecimento que lhe é dado. Revolucionou o futebol português, conquistou os dois únicos títulos mundiais de juniores para o nosso país, treinou a seleção por duas vezes, foi adjunto de Alex Ferguson, teve o privilégio de orientar o maior clube do mundo, conheceu um sucesso relativo em várias seleções e, contudo, às vezes parece um homem que traz com ele a peste e não a salvação.

O próprio não parece apostado em conquistar o afeto dos seus compatriotas, como se viu no ano passado no jogo entre Portugal e o Irão, no Mundial da Rússia. Talvez esteja magoado com a Federação, o país e o mundo e, em vez de se rebaixar, pedinchando carinho e compreensão, queira manter a sua altivez orgulhosa e seguir o seu caminho bem longe das armadilhas tóxicas do retângulo pátrio. É uma opção compreensível. É que o tempo tem passado e não há maneira de Queiroz aceder ao estatuto de respeitabilidade dos políticos, das prostitutas e dos edifícios feios. Continua a ser um proscrito, um mal-amado e retribui, justamente, com uma dose de desprezo magoado que emerge nas suas entrevistas, sempre à procura de ajustes de contas, de vinganças tardias.

JUAN MABROMATA/Getty

A minha teoria é a de que, na origem desta incompreensão entre um homem e um país ao qual deu tanto, está aquele “professor”. Quando utilizado desta forma, “professor” ridiculariza mais do que enobrece. É o Professor Pardal, o Professor Neca, o Professor Marcelo. É verdade que este último era mesmo professor, mas anteposto ao seu nome próprio tinha algo de jocoso, como se sinalizasse não um sábio, mas um sabichão. Professor, com as suas ressonâncias livrescas e teóricas, arruma o sujeito na prateleira dos conhecimentos sem validade prática. Quantas vezes não se disse que Queiroz só servia para treinar miúdos ou que, na melhor das hipóteses, devia permanecer na função secundária de adjunto? Não tenham dúvidas: pelo menos em Portugal, o título de professor desqualifica. Talvez no Irão e na Colômbia as coisas sejam diferentes e o professor Queiroz beneficie de uma autoridade que no nosso país, exceto quando treinava os “miúdos”, sempre lhe faltou (como esquecer a afirmação de Cristiano Ronaldo “perguntem ao Carlos”? Para ser mais ofensivo, só se tivesse dito “perguntem ao professor”). No final do jogo contra a Argentina, o jogador colombiano Juan Cuadrado disse aos jornalistas que “o ‘profe’ fez um grande planeamento”, lembrando-nos que, tal como os profetas, ninguém é professor na sua terra.