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A pornografia infantil

Sem regras, tectos, linhas vermelhas que travem a voragem, o normal será os clubes começarem a investir cada vez mais e cada vez mais cedo em pré-futebolistas identificados em provetas, roçando a exploração infantil com a permissão de famílias seduzíveis e seduzidas por promessas de reformas antecipadas

Pedro Candeias

Mahmoud Khaled

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A entrevista do coordenador do futebol jovem do FC Porto ao “O JOGO” não teve provavelmente o efeito que o entrevistado queria. Disse José Tavares, entre outras coisas, mas acima de todas as coisas ditas, que na capital havia um clube a oferecer extravagâncias – “quantias pornográficas e astronómicas” para ser exato – a crianças de 12 e 13 anos, e aos pais e às famílias destes, para assinarem contrato.

A capital é Lisboa e o clube obviamente o Benfica, e a discussão pulou instantaneamente do plano pedagógico para o lodo dos extremismos: estava, então, encontrada a única explicação lógica possível para João Félix ter trocado o FC Porto pelo Benfica – o dinheiro que subverte o jogo.

Ora, este é um soundbite poderoso e levanta dúvidas éticas relevantes, mas é sobretudo uma acusação inútil. Ou ineficaz e redutora. Porque se o Benfica o faz, é porque o pode fazer, e se os outros ainda não o fazem não demorarão muito a fazê-lo, pois no futebol as práticas pouco recomendáveis pegam-se como um tique nervoso. Offshores, engenharias financeiras, fair play financeiro aldrabado, apostas ilegais, fundos opacos, contratos nebulosos: escolha qualquer um destes embustes e tente encontrar onde começou originalmente e até onde vai acabar.

Bom, o problema aqui surge-me na forma de um liberalismo excessivo, em que os mercados se auto-regulam e se equilibram numa suposta convivência saudável entre partes diferentes que querem o mesmo objetivo. O que anula imediatamente o argumento da coexistência sã.

E a rivalidade acontece desde cedo. Nada mais importa do que ganhar nos infantis, nos juvenis, nos juniores, nos sub-23, nas equipas B, mostrar putos habilidosos, pôr uma formação contra outra e o peixe a render, alimentar uma narrativa. E vender.

Sem regras, tectos, linhas vermelhas que travem a voragem, o normal será os clubes começarem a investir cada vez mais e cada vez mais cedo em pré-futebolistas identificados em provetas, roçando a exploração infantil com a permissão de famílias seduzíveis e seduzidas por promessas de reformas antecipadas.

E isto vai criar uma geração de pais e de filhos ansiosos e impressionáveis, pressionados para jogarem os minutos necessários para que algum olheiro os tope num relvado qualquer e os leve para algures onde se pague bem. Depois, como o talento e a capacidade para competir não tocam a todos de igual forma – estatisticamente, é impossível que todos os Neymar sénior possam ter o seu Jr. – pelo caminho podem destruir-se sonhos, transformando a inocência de uma futebolada com os amigos em trabalho e, pior do que isso, em desilusões irreparáveis e relações desfeitas.

Isto, sim, é pornográfico.