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Mentiras sofisticadas e mentes crédulas: Lance Armstrong e o Tour e o ciclismo, por Bruno Vieira Amaral

O escritor Bruno Vieira Amaral escreve sobre a maior prova de ciclismo do planeta que decorre em França por estes dias

Bruno Vieira Amaral

Spencer Platt

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O Tour de France, a maior competição velocipédica do mundo e um espectáculo extraordinário mesmo para aqueles que o acompanham à distância, arrancou este fim de semana e o meu desinteresse é quase absoluto. Não conheço as equipas e não faço ideia de quem são os candidatos à vitória final. Os nomes dos sprinters, aqueles que dominam as primeiras etapas e disputam a última etapa a velocidades suicidas pelas ruas de Paris, no último dia da prova, nada me dizem, e dos trepadores, os homens que oferecem o filet mignon, creio que só me é familiar o nome de Nairo Quintana, embora tenha de confirmar nos jornais se o colombiano está mesmo na prova.

O meu desinteresse nada tem de notável, exceto por um pormenor: durante anos combati o tédio das férias grandes acompanhando religiosamente as transmissões televisivas do Tour, num fascínio pela modalidade que tinha começado em 1989 com a Volta a Portugal em bicicleta. Atirada para uma zona menos nobre do chamado calendário velocipédico internacional, a Volta nunca atraiu as grandes equipas internacionais, nem os maiores nomes da modalidade. Em 1997, o polaco Zenon Jaskula, que tinha alcançado o terceiro lugar no Tour uns anos antes, venceu a prova portuguesa, mas na altura já não era um ciclista de topo, antes uma espécie de pré-reformado que veio passear a sua superioridade numa prova paroquial.

Eu vivia com a esperança de que, um dia, a nossa Volta atingisse o estatuto da quarta grande prova por etapas, a seguir ao Tour, ao Giro e à Vuelta, mas isso nunca aconteceu e, muito provavelmente, nunca acontecerá. Apesar do entusiasmo dos jornalistas desportivos que acompanhavam o evento e em cujas palavras a subida à Torre se transformava num Tourmalet e o Monte Farinha – a Senhora da Graça – pedia meças ao Alpe d’Huez, a Volta nunca deixou de ser uma competição menor, com os seus ídolos caseiros, uma espécie de pequeno panteão lusitano que, não obstante a sua condição secundária, preenchia a minha imaginação de criança.

A primeira Volta a Portugal que segui com devoção islâmica, convocado pelos muezzins da rádio para as orações diárias, foi a de 1989. Como é natural, Joaquim Gomes, que venceu essa edição, tornou-se o meu ídolo. Ainda recordo uma reportagem que passou no Domingo Desportivo em casa do campeão, depois do triunfo, e de pensar que o corredor da Sicasal-Torreense era um dos maiores ciclistas do mundo, um dos maiores ciclistas de sempre. Nunca deixei de torcer por ele, fosse nos míticos embates com o brasileiro Cássio Freitas ou com Orlando Rodrigues ou naquela Vuelta de 1994, em que ele, chefe de fila de uma equipa – o Boavista – sem pedalada para aquelas andanças, lutou bravamente contra alguns dos melhores ciclistas do pelotão internacional. Raras vezes sofri uma desilusão desportiva tão grande como naquele ano de 1990 em que Joaquim Gomes perdeu a Volta a Portugal para Fernando Carvalho na última etapa, um contrarrelógio que terminava na Maia.

A nossa Voltinha foi a droga de entrada, salvo seja, para uma paixão pelo ciclismo que me levava a acompanhar o Tour e a festejar os seus campeões como o norte-americano Greg Lemond e, acima de todos, a montanha que era o navarro Miguel Induraín, mas também a admirar o cortejo de secundários como os italianos Claudio Chiapucci e Gianni Bugno, os suíços Tony Rominger (especialista em Vueltas) e Alex Zülle, os franceses Richard Virenque e Laurent Jalabert, e os sprinters, como Abdoujaparov, os homens das camisolas verdes, cujo sistema de pontuação nunca percebi e continuo sem perceber. Equipas como a Banesto, a Once, a

Festina, a Motorola, a Deutsche Telekom, a Française des Jeux, eram para mim nomes tão admirados como os dos maiores clubes de futebol. Julgava que durariam para sempre.

Em 1995, assisti em direto à etapa em que um jovem ciclista italiano, Fabio Casartelli, morreu após uma queda. Creio que no dia seguinte os seus colegas de equipa – a Motorola – cortaram a meta todos juntos, à frente do pelotão, em jeito de homenagem. Entre esses homens estava Lance Armstrong. O norte-americano tinha sido campeão do mundo de estrada em 1993, numa prova disputada na Bélgica. Nesse ano, eu estava a passar umas férias no Luxemburgo, em casa de uns tios, e recordo-me de ler os jornais com a notícia da vitória do norte-americano. Foi a primeira vez que ouvi falar dele. No ano em que Casartelli morreu, Armstrong ganhou uma etapa no Tour e dedicou a vitória ao malogrado colega. Ninguém poderia imaginar que, dez anos depois, o ciclista norte-americano estaria a comemorar a conquista inédita de um sétimo Tour consecutivo.

Depois de lhe ter sido diagnosticado um cancro em 1996, de se ter submetido a um tratamento agressivo e, contra as previsões dos médicos, ter sobrevivido, Armstrong voltou a competir. Se isto já por si era uma história extraordinária de superação, a primeira vitória do norte-americano no Tour, em 1999, foi considerada um milagre e transformou Armstrong numa estrela global que o ciclismo, apesar de todos os grandes nomes do passado, nunca conseguira criar. As vitórias seguintes alcandoraram-no a um posto em que o seu único rival histórico só poderia ser Eddy Merckx, com a diferença de que o “canibal” disputava todas as provas do calendário enquanto Armstrong era uma máquina programada para triunfar no Tour.

As suspeitas sobre os métodos de Armstrong apareceram cedo, mas foram sendo arrumadas por uma série de interesses que, como depois se veio a descobrir, mancharam toda a modalidade: de ciclistas a diretores desportivos, da União Ciclista Internacional à agência de controlo de doping. A história de Armstrong começou por ser demasiado boa para ser verdade até que se tornou demasiado grande para cair por terra, “too big to fail.”

Ontem, com notável sentido de oportunidade, a RTP passou o filme Vencer a Qualquer Preço, do estimado Stephen Frears, e que conta a incrível história da ascensão de Armstrong e da sua espectacular queda. Está longe de ser um dos melhores filmes de Frears, mas isso para o caso pouco interessa. O que interessa é que o filme consegue mostrar que a fraude montada por Armstrong, apesar de bastante sofisticada, só funcionou porque contou com a conivência de uns e a credulidade de quase todos, incluindo os adeptos da modalidade. Como é que um ciclista que era um trepador sofrível antes da doença se transformou num Super-Homem, a subir montanhas como se estivesse de mota? As justificações para esse mistério residem menos na genialidade do esquema de Armstrong do que na nossa necessidade coletiva de acreditarmos numa boa história.

Após o escândalo da Festina, em 1998, toda a gente queria acreditar que o ciclismo era agora um desporto limpo em que era impossível aos batoteiros escaparem à malha cada vez mais apertada do controlo. Mas se a malha do controlo era mais apertada, a malha da credulidade era um enorme buraco e foi por aí que Armstrong, com a cumplicidade de quase todo o sistema, incluindo os jornalistas, passou sem que o questionassem a sério. Por muito boa que seja, uma mentira só vende se houver um mercado de mentes crédulas. Numa época em que o descrédito da modalidade era enorme, toda a gente precisava de um redentor. Hoje, quando muitas pessoas, como eu, já não conseguem acreditar no ciclismo e o fascínio infantil que tinham pela modalidade ficou para sempre manchado, é bom lembrar que os redentores

anunciados quase nunca salvam ninguém. A começar por quem os idolatra e a acabar, tragicamente, em si mesmos.