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Ouvir um estádio de futebol a gritar “Equal Pay!” não dá que pensar?

Aos que ainda acham que “as gajas não sabem jogar à bola” é altura de lhes dizer: tenham juízo. É que foi bonita a festa, pá. E se esta frase podia resumir em boa parte o Mundial Feminino de Futebol, o que se ouviu nas bancadas depois da grande final não podia ter sido uma cereja mais simbólica em cima de um bolo que marca um antes e um depois na história da modalidade: “Equal pay! Equal pay!”, gritaram milhares de pessoas. Terá sido um grito apenas sobre o futebol?

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Eu sei, eu sei, é de senso comum dizer-se que “as gajas não têm jeito para jogar à bola”. Andamos há décadas a ouvir esta frase batida, proferida com um desdém que se por um lado consegue provocar bocejos, por outro é impossível já não nos deixar profundamente exasperados. Se dúvidas existiam quanto à capacidade não só atlética, mas também de proporcionar um ambicioso espetáculo capaz de arrastar as massas, esta edição do Mundial Feminino de Futebol veio provar o contrário: afinal, não só “as gajas” até têm bastante jeito para a coisa, como há muito público interessado em vê-las jogar, por mais que futebol feminino e masculino possa ter diferenças.

Se quisermos encarar este Mundial numa perspetiva feminista e de empoderamento feminino, o pano para mangas nunca mais termina. Foi absolutamente incrível assistir às várias provas que apenas nos podem levar a mudar o paradigma quanto à importância e seriedade do futebol feminino enquanto desporto de alta competição que tem o condão de gerar receitas absurdas e de pôr o mundo colado a um ecrã de televisão. Quem foi assistindo aos jogos – uma pena que por cá a maioria apenas tenha tido transmissão online, sinal do desdém com que as nossas estações de televisão ainda encaram a modalidade, parece-me – teve a oportunidade de ver muitíssimo bom futebol, com um nível técnico irrepreensível em boa parte dos casos. Muitas delas partidas renhidas, com muitos golos à mistura, nervos à flor da pele e prestações brilhantes por inúmeras jogadoras que são exemplo claro de porque é que o futebol feminino deve ser levado a sério, muito a sério. O exemplo simbólico dado a milhares de mulheres e meninas mundo fora foi fortíssimo: se elas conseguem, vocês também.

Recordes de audiências televisivas foram totalmente batidos (por cá, deveria dar que pensar a audiência da RTP 2 com a transmissão da grande final, por exemplo). Estádios esgotados com semanas de antecipação após venda online deram azo a recordes de bilheteira nunca antes vistos. Foram aos milhares as pessoas que rumaram a França, vindas de diferentes partes do mundo, e que puseram a economia do país a mexer durante o mês de junho. As bancadas estiveram repletas de adeptos e adeptas, num ambiente de permanente festa saudável entre homens, mulheres e crianças, algo que deveria servir de exemplo para a possibilidade de civismo e comunhão mesmo quando o cenário é futebol. O investimento publicitário também bateu recordes e o merchandising disparou igualmente. Volto a repetir, foi bonita a festa, pá. Mas se tudo isto é assim, porque é que este Mundial continua a ter de ser dentro e fora das bancadas um verdadeiro movimento de ativismo social e político no que toca à igualdade de género? Afinal, porque é que as mulheres, enquanto atletas de alta competição, continuam a ser menosprezadas e a ter recompensa uma económica assimétrica em relação aos pares masculinos? (pensemos por uns segundos na diferença de valores atribuídos pela própria FIFA nestes mundiais, que no masculino ronda os 400 milhões de dólares e no feminino os meros 30).

Pouco depois do apito final que deu a grande vitória à seleção norte-americana, nas bancadas começou um burburinho que haveria de se transformar num ensurdecedor grito em uníssono: “Equal pay! Equal pay!” (alguns comentadores desportivos estão tão a leste do paraíso nestas matérias que nem perceberam logo a frase). Salários iguais, gritavam milhares de homens e mulheres, totalmente solidários com a demanda das jogadoras do Estados Unidos que ainda há poucos meses processaram a própria federação de futebol do seu país por “institucionalizar a discriminação de género”. A verdade, é que embora aquela seleção feminina some já várias vitórias no campeonato do mundo e tenha na equipa alguns dos nomes mais conceituados da modalidade (como Megan Rapinoe, a jogadora que se recusou publicamente a ir à Casa Branca e que tem sido uma importante ativista na luta pelos direitos das mulheres e LGBTI+, e contra o racismo), continuam a receber salários e prémios absurdamente mais baixos do que a seleção masculina, que não tem, de longe, o mesmo tipo de resultados, prémios ou sucesso internacional. Como diria Rapinoe em conferencia de imprensa: “Já chega do ‘Será que valem a pena? Será que devem ter salários iguais? Será que o mercado é o mesmo? Estamos todas fartas disso. Nós, como jogadoras, fizemos o espetáculo mais incrível que podiam pedir. Nós não podemos fazer mais nada para impressioná-los, para sermos melhores embaixadoras, para fazer mais, para jogar melhor (...). É chegada a altura desta conversa avançar para outro patamar.”

“Equal Pay!”, no futebol e não só

O “Equal Pay!” ouvido nas bancadas vai também ao encontro das inúmeras jogadoras que vieram denunciar a diferenciação dos valores dos patrocínios, mesmo quando são detentoras dos mais variados títulos. Já para não falar das cláusulas contratuais que as penalizam nas questão da maternidade, por exemplo. Houve mesmo quem – como a estrela brasileira Marta - por um questão de princípio recusasse patrocínios se estes fossem mais baixos do que aqueles que são atribuídos aos homens. Entre entrevistas sem papas na língua, campanhas virais em vídeo (como a da seleção alemã que dizia “Nós jogamos por um país que nem sabe os nossos nomes”) ou cabelos e lábios pintados simbolicamente de lilás e roxo (cor da luta dos direitos femininos), este foi um mês em que a discussão sobre o gap salarial entre homens e mulheres, e outras formas de discriminação de género, nos entraram em casa de uma forma ou de outra. E quando ouvimos um estádio a exigir “Equal pay!” num momento de celebração como o deste domingo, isto é algo que nos deve deixar a pensar. O futebol pode ter sido o mote, mas aquela exigência gritada por milhares de pessoas não se resumia a futebol. Era uma exigência sobre a necessidade urgente de tirarmos a cabeça debaixo da areia e encararmos a realidade: as mulheres mundo fora, tanto no desporto como em muitas outras profissões, continuam a ser altamente penalizadas nas recompensas financeiras que lhes são atribuídas pelo simples facto de serem mulheres.

Voltando ao futebol e ao desporto em geral, vale a pena pensar um pouco na nossa realidade nacional, cujas dificuldades tornam numa miragem participações em grande campeonatos como este. É que se em alguns países já se pode abrir uma discussão séria sobre salários, patrocínios e prémios iguais, por cá ao menos que se comece a falar de salários. De uma qualquer remuneração dada a futebolistas e demais atletas do sexo feminino que tantas a tentas vezes praticam desportos de alta competição, com elevado nível de esforço e dedicação necessárias, apenas por amor à modalidade. Tantas são as que precisam de ter empregos a tempo inteiro noutras áreas para poderem tentar carreiras desportivas. Tantas são as que nem sequer têm campos disponíveis para treinos, e aquelas que os têm é já tarde e a más horas, noite dentro, depois de um dia intenso de trabalho. Que têm balneários miseráveis para tomar banho depois do treino, que inúmeras vezes têm de pagar do seu próprio bolso deslocações para jogos fora de cidade. Começar a levar a sério o desporto feminino, seja o futebol, sejam outras modalidades onde tantas mulheres vão dando cartas mesmo em condições inenarráveis de prática de modalidades ainda tidas como masculinas, é essencial. E dar condições dignas para que estas atletas possam evoluir é o mínimo que se pode fazer. Claro que isto requer interesse das federações, dos clubes, das marcas, do próprio Governo. Mas será que as atletas do nosso país não merecem esse interesse? E será que se nunca esse interesse existir, elas poderão evoluir para um patamar em que já possam ser consideradas dignas de tal investimento? E será que que se esse investimento existisse o resultado iria ao encontro também de maior mediatismo em torno das mesmas e, é claro, maior interesse do público? É uma pescadinha de rabo na boca. E a culpa do cenário atual não é da falta de empenho, potencial ou mérito das nossas atletas, isso é certo. Quando é que o futebol feminino vai também começar a ser levado a sério em Portugal?