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Federer: amor a mais, frieza a menos

Bruno Vieira Amaral escreve como, mesmo aos 37 anos, se pode dizer de Roger Federer que o corpo resistiu mais que a mente e que esta aguentou quase tudo menos aquela dose extra de amor que o público de Wimbledon guarda só para ele

Bruno Vieira Amaral

Shi Tang/Getty

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Roger Federer prepara-se para servir. Acabou de desperdiçar o quarto match point contra o seu maior rival. Deve estar a pensar que tanto desperdício tem de ter um preço. Rafael Nadal, depois de salvar o quarto match point, é como um condenado que viu a sentença ser adiada. Federer é como uma criança que se apercebe pela primeira vez da sua mortalidade. Tem de afastar os fantasmas e concentrar-se no que interessa, o próximo ponto. O ténis tem essa particularidade. Enquanto há pontos, há vida. Não dá para gerir vantagens. É como uma corrida na qual, por muito que se acelere, o adversário está sempre nas costas. Um segundo de distração a olhar pelo retrovisor é o que basta para se perder o equilíbrio. No ténis não há passado e não vale a pena pensar muito sobre o futuro. Só existe o próximo ponto. A próxima pancada.

À exceção de Roland Garros, onde Nadal é imperador, Federer parece ter tirado as medidas ao maiorquino nesta sua segunda juventude. Ganhou-lhe sete dos últimos oito encontros. É natural. Dos dois, o suíço é o mais talentoso. O que é incrível não é esta última série de resultados, mas a frequência com que, no passado, Federer perdia para Nadal, mesmo descontando o efeito terra batida. Quando os dois subiam ao court, era como se o espanhol já levasse um set de vantagem. Mais comedido nas suas reações, Federer deixava transparecer frustração e impotência sempre que os pratos da balança se desequilibravam a favor de Nadal. A cara não enganava. Dizia, a quem quisesse ouvir, que a cabeça era um albergue de dúvidas e temores. Na sexta-feira à tarde, na relva londrina, era essa a cara de Federer depois de desperdiçar quatro oportunidades para matar o jogo. Não era motivo para pânico pois estavam no quarto set e a vantagem era do suíço. Mas o pânico estava lá. E Nadal também, como uma locomotiva, cada vez mais próximo.

Federer serve. Recupera a compostura. Novo match point. Desta vez não falha. Afinal, a locomotiva, que parecia tão real, tão perigosa, era apenas fumo. Desfez-se com um só golpe. Os comentadores aproveitaram para salientar os méritos competitivos de Nadal. Não dá um ponto por perdido. Luta até ao fim. Nunca desiste. É verdade. Mesmo quando está num buraco, Nadal é sempre ameaçador. Se calhar é quando está num buraco que ele é mais ameaçador, como um Hannibal Lecter atrás das grades ou amarrado a um colete de forças e um açaime.

O mesmo acontece com Serena Williams. O seu jogo é tão potente e tão variado que dá sempre impressão de estar por cima das adversárias mesmo quando estas estão em vantagem. A final de sábado, contra a romena Simona Halep, durou menos de uma hora e, no fim, muitos espectadores ainda deviam estar à espera da reviravolta de Williams. Ao fim de onze minutos, Halep vencia por 4-0, numa blitzkrieg de golpes defensivos do outro mundo. Não só a tenista romena tinha resposta para todos os problemas que a adversária lhe colocava, como essas respostas chegavam, em várias ocasiões, para concluir os pontos. Eram respostas tão milagrosas e inesperadas que deixavam Williams sem reação. No entanto, Halep não se ficou por uma defesa demolidora. Houve momentos em que atacou a ponto de fazer Williams parecer um velho elefante de circo, demasiado velho, pesado e aturdido para aprender truques novos. Serena estava com ar de aluna muito bem preparada que chega ao exame e vê que estudou a matéria errada.

Ainda assim, Williams, como aqueles miúdos que só correm quando têm a bola nos pés, aproveitava alguns dos seus jogos de serviço para lançar dúvidas. De um momento para o outro, tudo poderia mudar. Uma coisa é atingir a perfeição e outra é manter-se lá. Conseguiria Halep manter a perfeição? Despertaria Williams do estupor em que as respostas da adversária a tinham lançado? Pode dizer-se que Serena tentou despertar-se a si mesma. Num dos pontos que lhe saíram bem, gritou para a relva durante alguns segundos, como se tivesse furado um bloqueio invisível ou se tivesse libertado de um enguiço. Por seu lado, Halep manteve a estabilidade emocional. Sempre. Quando ganhou pontos impossíveis, das raras vezes em que cometeu erros não forçados, até quando escorregou. Sabia o que tinha de fazer e sabia que estava a fazer bem. Sabia que tinha de ser perfeita e foi quase perfeita. Os três erros não forçados que cometeu são um record em finais femininas. Não permitiu que Williams crescesse a ponto de a atemorizar. Sempre que a porta ficou entreaberta, Halep voltou lá para fechá-la. Ganhou porque jogou melhor. Ganhou porque foi mais forte mentalmente. E isso é fundamental para se ganhar a uma jogadora como Serena Williams.

Após a final de ontem, Novak Djokovic confessou que este foi, a nível mental, o jogo mais exigente de sempre. Como tinha acontecido na sexta-feira, Federer voltou a desperdiçar match points, desta vez dois. Porém, ao contrário da meia-final, não teve oportunidade de corrigir porque Djokovic quebrou-lhe o serviço e, no tie-break após um empate a 12, fez o que tinha feito nos anteriores desempates: ganhou com algum à-vontade. No ténis, às vezes basta um ponto para que tudo mude, para que um jogo que parecia decidido volte a ficar em aberto. O que não significa que desperdiçar um match point e depois perder o encontro seja comum. Em Wimbledon, isso não acontecia numa final desde 1948. Federer estava a servir. Tinha dois pontos para levar a taça para casa e conseguiu a proeza de não matar o jogo. Não deve ter dormido lá muito bem sobretudo porque só se pode culpar a si mesmo

Na hora da estocada final, vacilou de um modo muito federeriano. Faltou-lhe em convicção, aquele nadinha de arrogância que apaga as dúvidas e as hesitações, o que lhe sobrou do amor do público. Tanto amor, tanta adulação, também pesam, amolecem. Enquanto o público gritava “Roger, Roger”, Djokovic esforçava-se por ouvir “Novak, Novak.” Quando a força não vem de fora, tens de a encontrar dentro de ti, disse o sérvio em tom de autoajuda jedi. Tal como não se abrem portas com a mente, também não se ganham jogos à base de pensamento positivo. Mas as duas finais de Wimbledon confirmaram o peso determinante da cabeça. No caso de Roger Federer, que muitos duvidavam que, aos 37 anos, aguentasse cinco sets tão exigentes, pode dizer-se que o corpo resistiu mais que a mente e que esta aguentou quase tudo menos aquela dose extra de amor que o público de Wimbledon guarda só para ele.