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Coentrão dá com a língua nos dentes

Parece que o FC Porto vai mesmo contratar Fábio Coentrão, um jogador que parece ter sido congelado nos anos 90 e transportado para os dias de hoje, com todos os tiques do passado. Crónica sobre um futebolista talentoso e desajustado

Pedro Candeias

MIGUEL RIOPA

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Então parece que Fábio Coentrão anda a negociar com o FC Porto, o que explica a saída de cena à francesa do PAOK. Coentrão é um dos prediletos de Jorge Jesus, tal como Sérgio Conceição foi um dos prediletos de Jorge Jesus; dois homens semelhantes, com gostos e referências também semelhantes, que preferem os futebolistas batidos porque são estes que dão campeonatos.

Na verdade, Conceição quer Coentrão desde o ano passado, quando as partes entraram em conversações logo que a hipótese Sporting caiu por terra. O entendimento falhou e o caxineiro voltou a casa, ao Rio Ave, o clube que o formou, na cidade onde nasceu.

Foi, aparentemente, o primeiro passo para um final de carreira digno. E é claro que Coentrão não iria deixar coisas por dizer.

Como o Rio Ave foi um inegável passo atrás na carreira - Coentrão chegou do Sporting e antes estivera no Real Madrid e no Benfica -, Fábio assumiu as dores do jogador desbocado de clube mais pequeno.

Queixou-se das arbitragens e garantiu que tinha, enfim, percebido como era complicado ultrapassar um sistema feito para beneficiar os três grandes. Naquele jogo polémico contra o Benfica, Coentrão foi até dos atos (puxou os calções a Samaris) às palavras (“o nosso futebol está assim e tem de levar uma grande reflexão”), que soaram ao último canto do cisne.

Afinal, Coentrão que já afirmou que só jogaria no Benfica em Portugal quando Jesus foi para o Sporting, que assumira “de boca cheia” que o Sporting era o seu clube e que era lá que gostava de acabar a carreira, vai possivelmente para o grande português que lhe falta no currículo - e é provável que se esqueça do que disse e fez antes, inclusivamente insultos racistas a Marega denunciados pelo FC Porto, num bate-boca muito mal explicado.

Mas, aí é que está. Coentrão não deve ser levado a sério pelo que diz dentro e fora do campo, nem pelo que faz fora dele. Este é o homem que assumiu ter pago 4 mil euros para ter a carta de condução e o homem que foi apanhado em Madrid a fumar descontraidamente, encostado a uma coluna de cimento, com os dedos e o polegar a segurar o cigarro. Também é o homem que se embrulhou com socorristas num FC Porto - Sporting e que foi fotografado com um cachecol que insultava benfiquistas. É verdade que se justificou num comunicado, mas o mal estava feito.

Coentrão é o típico jogador dos anos 90. Aliás, parece ter sido congelado lá atrás e transportado para o futuro, com todos os tiques do passado: os braços no ar em cada contacto que garantem que não fez nada, as provocações e as picardias no corpo, a língua entre os dentes sempre que entra duro no adversário. É, digamos, castiço e polémico, e por isso um produto genuíno em vias de extinção. É esta inconsistência filosófica e social que o tornam tão especial e apelativo, na medida em que todos nós preferimos analisar as personagens complexas aos aborrecidos meninos certinhos.

Mas, honra lhe seja feita, Coentrão é um dos mais talentosos defesas/médios/extremos que Portugal produziu nos últimos anos, com entrada direta no onze ideal do Mundial 2010, uma ou outra menção nos melhores onzes em jornadas de Liga dos Campeões, titular na final da Champions que o Real Madrid conquistou em 2014, no Estádio da Luz.

É este Coentrão que o FC Porto quer. Basta que Coentrão também o queira.