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O regresso de Jesus após quarenta dias e quarenta noites no deserto

"É justo dizer que ir para o Flamengo foi a melhor decisão que Jorge Jesus tomou nas nossas vidas", escreve Bruno Vieira Amaral, explicando porquê

Bruno Vieira Amaral

Miguel Schincariol

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A partida de Jorge Jesus para as Arábias abriu uma cratera no futebol português por onde desapareceram as conferências de imprensa de antologia, as cabriolices de linha lateral, as desandas aos jogadores e toda uma poética do rolo compressor, de ataque vertiginoso e, por vezes, da correria de galinha sem cabeça. Quando Jesus chegou ao Benfica, faz agora dez anos, lembro-me de discutir a contratação com um tio-avô cujo benfiquismo inequívoco já tinha conhecido dias mais exuberantes. Após anos de modorra, de falsas promessas, de desnorte tático, de jogadores mais fadados para o dressage do que para a alta intensidade do futebol moderno, as palavras de Jesus – “comigo estes jogadores vão jogar o dobro” – foram recebidas pelo meu parente com certa fleuma confuciana. Eu, traumatizado pela polidez tauromáquica de Quique Sanchéz Flores – a memória tem vida própria e lembro-me dele não com o fato de treino do Benfica, mas em traje de luces, montera e capote – apreciei a saudável loucura de Jesus, a sua tendência para a hipérbole, a sua filosofia de “tudo ou nada”, “ou vai ou racha.”

Habituado a longas curas em águas termais, com os jogadores a arrastarem-se em campo como tuberculosos em passeios circulares num sanatório, o Benfica precisava de uma terapia de choque, de um desfibrilhador, e Jesus trouxe a descarga elétrica necessária para acordar o plantel e as bancadas repletas de céticos, desiludidos e mortificados. Jesus chegou, viu e venceu, mesmo com um exército a chegar ao fim de gatas. Não vale a pena relembrar ao pormenor a montanha-russa das seis épocas de Jesus no Benfica, mas é inegável que aqueles seis anos mudaram o futebol do Benfica e o futebol português.

Michael Regan

A saída para o Sporting, apesar de todos os esforços de comunicação, foi dolorosa. Com todos os seus defeitos, a sua vocação atrabiliária, as suas derrotas épicas, a húbris de herói trágico, Jesus era nosso, dos benfiquistas. Com a mudança para Alvalade, o epicentro do futebol português deslocou-se algumas centenas de metros e o homem que, sozinho, fazia de cada temporada uma expedição única na sua mistura de conquistas, naufrágios e escorbuto, foi liderar as caravelas de um rei maníaco.

O estupendo fracasso do Sporting, em que teve alguma responsabilidade mas não toda, foi o grande acontecimento daqueles três anos. Enquanto os troféus de Rui Vitória eram baços, mortiços, as derrotas de Jesus, tal como já tinha acontecido no Benfica, resplandeciam, tinham qualquer coisa de ouro e glória, como se um tivesse ido buscar as vitórias debaixo da terra, desenterrando-as das pedras e do pó, e o outro tivesse caminhado até ao topo da montanha mais alta, onde o ar é mais límpido, para regressar com o cálice rebrilhante da derrota. É isso que distingue Jesus dos outros: as suas derrotas brilham mais que as vitórias deles.

NurPhoto

Foi com mágoa que o vi partir para os seus quarenta dias e quarenta noites no deserto, tentado por promessas de riqueza asiática. Mesmo no Sporting, Jesus ainda estava suficientemente perto para animar os nossos fins-de-semana, para contrapor aos discursos balofos e rotundos dos seus adversários a lâmina aguçada do seu português menos que perfeito. As notícias dos seus sucessos nos Emirados chegavam amortecidas pela sensação de exílio dourado e estéril, como as atividades lúdicas da aristocracia europeia no refúgio do Estoril. Jesus balouçava indolentemente num trapézio de gaiola.

A ida para o Flamengo recuperou-o para o mundo dos vivos. Agora, em Portugal, podemos todos apreciar o treinador sem a intromissão do veneno clubístico. Podemos festejar as goleadas áureas do Mengão e festejar também as suas derrotas patéticas contra clubes equatorianos, podemos sorrir com a audácia de Jesus e rir a bandeiras despregadas com as suas invenções clássicas que, no Brasil da imaginação, já lhe valeram o apodo de Professor Pardal, podemos divertir-nos com as suas histéricas correções de posicionamento e com as suas galantes tiradas às “jornalistas femininas” com o donaire de Don Juan da Amadora a treinar a gramática do malandro carioca. É justo dizer que ir para o Flamengo foi a melhor decisão que Jorge Jesus tomou nas nossas vidas.