Tribuna Expresso

Perfil

Crónica

O Humilde Bernardo

Bernardo Silva não foi um dos nomeados para melhor do mundo e Bruno Vieira Amaral sabe porquê: "Com a bola nos pés é um líder, mas tem o espírito humilde do aguadeiro"

Bruno Vieira Amaral

Matt McNulty - Manchester City

Partilhar

Sempre que o vejo jogar, fico com o coração apertado, sinto uma dor no peito, aquela angústia que nos faz ter vontade de lhe gritar “já chega, não corras tanto”. Bernardo Silva é um génio. Ao contrário de muitos génios do futebol, não veio da pobreza. E isso nota-se na forma como joga. Parece que se sente culpado pela dupla bênção do talento e de não ter nascido numa manjedoura. Corre o jogo todo. Defende. Pressiona. Mata-se a trabalhar. Com a bola nos pés é um líder, mas tem o espírito humilde do aguadeiro. Por isso, e não pela campanha insuficiente do Manchester City na Champions, ficou de fora da lista dos dez candidatos a melhor do mundo.

Por isso e porque nas equipas de Pep Guardiola só há uma cabeça onde os louros da genialidade podem pousar, a cabeça calva do treinador (a exceção, claro, foi Messi, mas essa é outra história). Apesar do City ter dominado o futebol inglês como nenhuma equipa o tinha feito, conquistando quatro troféus e sendo eliminada à justa pelo Tottenham na Champions, nenhum dos seus jogadores entrou para as contas do troféu individual da FIFA. Bernardo seria a melhor opção. O problema é que (ainda) lhe falta golo e os golos serão sempre mais telegénicos do que o altruísmo dos passes e a inteligência das movimentações e as estatísticas quenianas de corredor de meio-fundo.

Frenkie de Jong também não tem golo e joga numa posição em que provavelmente nunca terá, mas a posição central que ocupa em campo permite-lhe jogar com a legitimidade de um monarca, do soberano que põe e dispõe, que marca o ritmo, que, com um gesto, uma abertura, define o futuro de uma jogada. Joga de coroa, manto e cetro. Já Bernardo veste o hábito esfarrapado do franciscano, não se importa de fazer o papel de fiel escudeiro do Quixote que, a partir do banco, vê um gigante em cada moinho, um exército em cada rebanho, sempre disposto a inventar formas criativas de subjugar adversários que, muitas vezes, só existem na sua exasperada imaginação.

Bernardo é um Tiger Woods feliz por ser caddie. Gosta tanto da relva que quase agradece o privilégio de carregar os tacos. Se Guardiola amanhã o pusesse a lateral-esquerdo, imitando outra fenomenal cabeça, Bernardo rejubilaria. Se o mandasse para o banco, Bernardo baixaria a cabeça e aceitaria a sentença com a humildade excessiva, doentia, do génio que não se consegue reconciliar com a graça fortuita dessa mesma genialidade. Bernardo, como qualquer predestinado, não tem culpa de o ser, mas joga como se tivesse, como se os elogios dirigidos aos seus atributos inatos fossem imerecidos, celebrações de um acaso, e só o reconhecimento da sua ética de trabalho tivesse valor.

Rob Newell - CameraSport

Na época passada, Guardiola afirmou que Bernardo era o jogador que todos os treinadores gostavam de ter, por aquilo que corria, pela adesão incondicional às exigências táticas do seu mestre, naquele género de encómio que engrandece os esforçados e deslustra o génio, como se o que há de admirável em Bernardo, com um pé esquerdo capaz de inventar maravilhas e prodígios, formulações raras, inacessíveis aos mortais, fosse a sua caligrafia perfeita de escriba persistente.

A culpa não é do catalão maníaco. Na seleção, à sombra do mármore de Cristiano, Bernardo também parece feliz com a sua condição adjunta. Nas entrevistas é todo ele humildade e deferência, com tiques de aia modesta. Só falta referir-se ao companheiro como o Senhor Ronaldo e perguntar-lhe servilmente se não precisa de mais nada e se já pode recolher aos seus aposentos. Não me entendam mal. A humildade é uma virtude e Bernardo parece ser uma joia de moço. Mas o génio que demonstra em campo pede mais desfaçatez, atrevimento, o nadinha de arrogância que só é verdadeiramente indesculpável nos medíocres.