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Indícios de Desgraça

Em teoria, um benfiquista deveria andar sorridente, mas Bruno Vieira Amaral tem uma tese bem diferente: "Tudo isto é muito bonito, mas nada de euforias: vocês sabem o que aconteceu da última vez que o Benfica começou o campeonato a ganhar 5-0? Eu não sei, mas de certeza que não foi bom. E ganhar por 5-0 os dois primeiros jogos oficiais, sabem o que isso significa? É o regresso da Besta, o Apocalipse"

Bruno Vieira Amaral

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Foi com a parcialidade garantida por uma distância de seis mil e quinhentos quilómetros, a humidade baiana e os comentários neutros, porém conhecedores, dos jornalistas brasileiros que assisti, com algumas intermitências, aos jogos da primeira jornada da Liga NOS (ainda é assim que se chama? Há uns anos a designação era alterada constantemente até que eu, perdido no labirinto dos batismos sucessivos, regressei ao uso da sólida “primeira divisão” – o arcaico tem sempre algo de intemporal).

Concluí, talvez afetado pela batucada constante, os foguetes no céu de domingo, o latido dos cachorros “vadignos” (pois revelam todos uma grande dignidade na sua vadiagem, mesmo os que apenas dormem encostados aos muros; um deles, a quem eu chamei de Almirante, parou no meio de uma rua movimentada, não tanto a atrapalhar o trânsito como a impor-lhe um novo ritmo), a música do falar baiano e a fala chorosa do chorinho, que o Benfica tem mais motivos de preocupação que os seus adversários.

Vejamos: os adeptos tendem a concentrar-se nos pormenores, como a goleada, outra manita para dizer adeus à concorrência, ou aquele golo de levantar, não o estádio, mas até um cemitério, marcado na Luz mas criado no laboratório de milagres que é o Seixal que levou João Félix a exclamar do seu medonho exílio madrileno que o “Seixal não falha”, revelando talento de propagandista autárquico e, quem sabe, acautelando o futuro. A propósito, têm visto as exibições do rapaz? Que tristeza. Que lástima este hábito português de ostentar o talento em jogos amigáveis, criando falsas expetativas nos adeptos. Que falta de humildade. Em vez de chegar, esperar que o chamassem para a mesa e que lhe dessem a comida à boca, Félix, ignorando todas as regras da cortesia, chegou, sentou-se e começou a comer. Que vergonha nacional!

Bem, tudo isto é muito bonito, mas nada de euforias: vocês sabem o que aconteceu da última vez que o Benfica começou o campeonato a ganhar 5-0? Eu não sei, mas de certeza que não foi bom. E ganhar por 5-0 os dois primeiros jogos oficiais, sabem o que isso significa? É o regresso da Besta, o Apocalipse. Ademais, os indícios de desgraça estão todos lá: no bigodinho de Grimaldo (será que se pode considerar um bigode? Aquilo parece um conjunto de pelos convocados para um encontro mas que não se conhecem de lado nenhum e resolvem ficar bem afastados uns dos outros), no penteado anos 20 de RDT, como se fosse um figurante da Kananga do Japão, no diminutivo Chiquinho (imagino o treinador adversário a receber a notícia de que o Chiquinho vai entrar ou vai ser titular e a cuspir o café, incapaz de suster o riso que um nome mais apropriado a papagaio ou periquito sempre provoca) ou no diletantismo de Ferro. Quando o vejo entrar em campo, com o seu ar Brideshead Revisited, julgo sempre que a indumentária está errada e que devia vestir aquelas roupas brancas de veraneio que a upper class veste nas praias pedregosas com que Deus castigou aquele povo ou nas visitas às mansões com que a aristocracia se vingou do meteorológico e orográfico desprezo divino.

A máquina de fazer goleadas

Nem foi preciso sacar da exibição mais cintilante ou do futebol mais inventivo. Mesmo com uma entrada a meio-gás, o Benfica acabou a golear o Paços de Ferreira (5-0) na estreia no campeonato e já são 10 golos marcados em apenas dois jogos oficiais

Além disto, devem os benfiquistas preocupar-se com a quase-paradinha de Pizzi na marcação de penáltis (por falar nisso, o locutor brasileiro ficou extasiado com o gesto técnico de Pizzi. Normalmente, na avaliação da marcação de uma grande penalidade, os elogios vão todos para a eficácia e a técnica só é considerada quando o jogador inventa um “panenka”, mas há muita beleza na precisão de um gesto feito sob a mira da arma) e até com o golo de Vinicius. Vindo do banco, o brasileiro fez o que RDT não tinha feito, semeou a discórdia e não demorará muito até que o balneário do Benfica se transforme num drama renascentista de envenenamentos e punhaladas.

Porém, a maior preocupação está no enganador estado comatoso exibido por Porto e Sporting neste início de campeonato. Só pode ser uma armadilha montada em conjunto por estes dois velhos ardilosos e dissimulados. Quando menos se esperar, o Sporting de Keizer aparecerá do escuro e ressurgirá como o novo Ajax que o treinador holandês tem vindo a cozinhar com discrição em Alcochete. Para já, aquilo parece o Sacavenense, mas é só para apanhar os adversários desprevenidos.

Escorregar, no sítio do costume e sem plano B

O Sporting voltou a não passar nos Barreiros (1-1), onde não vence há quatro temporadas. Num jogo mais emotivo que bem jogado, os leões não aproveitaram os intermitentes momentos em que foram a melhor equipa em campo e no final ainda sofreram para segurar um ponto. Em 2019/20, o Sporting ainda não sabe o que é ganhar

O caso do Porto é ligeiramente diferente. Com as fichas todas postas na Champions, descurou o primeiro jogo. Ainda para mais havia clima de festa pelo regresso do Gil Vicente à primeira divisão e pelas ruas de Barcelos ainda corriam rios do esfiuzante espumante. A estratégia de Pinto da Costa é simples e passa por imitar o Benfica do ano passado: conseguir a qualificação para a Liga dos Campeões, despedir o treinador a meio da época e encontrar um Bruno Lage caseiro que conduza o clube à reconquista. Uai, se resultou no Benfica porque é que há falhar no Porto?

Para aqueles que acham que o negativismo é exagerado, deixo a pergunta: onde é que anda André Almeida? Pois. Eu até posso acreditar em milagres, mas ganhar um campeonato sem André Almeida? Impossível. Nuvens negras adensam-se no horizonte.

2001, odisseia no estrago

Há 18 longos anos que o FC Porto não entrava no campeonato a perder. Aconteceu este sábado, em casa do regressado Gil Vicente, num jogo em que os mantras de Sérgio Conceição, a intensidade e a objetividade, não apareceram. A derrota por 2-1 penaliza uma equipa que continua a não confiar no talento quando tudo o resto não funciona