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Mourinho está triste e não há nada que possamos fazer por ele

Dá a sensação, por vezes, de estarmos a assistir ao programa “As Memórias do Saudoso Mourinho”, aquele a quem um dia foi confiado o título de melhor do mundo, o estratega insuperável, o analista metódico, um líder de homens inquestionável. É injusto, mas provavelmente só havia este caminho para a redenção. E para a reconfiguração

Pedro Candeias

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José Mourinho foi a Manchester e viu o seu sucessor no United esmagar o Chelsea por 4-0. José Mourinho foi a Setúbal ver o seu Vitória pela quarta vez consecutiva e pela quarta vez consecutiva o seu Vitória perdeu pontos. Noutros tempos, seriam apenas coincidências inofensivas, sem consequências para o treinador; mas, hoje em dia, com Mourinho, onde há acasos, veem-se casos - e maldições.

[Já o clube é outra coisa, pois o carismático Vitória anda no arame há muito.]

Há um conjunto de circunstâncias que explica o pessimismo generalizado.

Mourinho, recordemos, está sem clube desde que saiu do Manchester United em dezembro de 2018, depois de uma sequência negativas de resultados, análises e de histórias de um balneário descontrolado; recordemos, também, Mourinho está pela primeira vez na vida sem clube para treinar no momento em que os campeonatos das grandes ligas se prepararam todos, sem exceção, para arrancar. No querido mês de agosto.

Dizer que a carreira de Mou já viu melhores dias é, por isso, um disparate eufemístico – a carreira está efetivamente parada. O multitulado português está no limbo do desemprego há meses, meses demais para quem acredita na teoria do período sabático que, aliás, o próprio – um workaholic incorrigível assumido – sempre desdenhou.

A melancolia de Mourinho: “O Zé tem que ser Zé até ao último dia. Tenho saudades das pessoas que me querem”

Mourinho diz que a paragem desde dezembro fá-lo sentir que entrou para o museu do futebol. E esse não é um bom sentimento

Nunca saberemos se alguma coisa falhou com o PSG, com o Real Madrid ou outro gigante qualquer do qual se falou nesta ‘pausa’.

Terá sido o diretor desportivo que não quis ou terão sido manda-chuva dos plantéis que não o quiseram? Jorge Mendes estava demasiado ocupado ou estarão os lugares em overbooking? Ou terá Mourinho perdido, simplesmente, o sex appeal que o tornou irresistível ao ponto de ter seduzido Abramovich a contratá-lo pela segunda vez?

Publicamente, o Special One admitiu ter recusado convites por estar à espera do clube certo, com a administração e a estrutura certas, e essas são as que realmente compreendem a pinta, a filosofia e a estratégia. É possível tresler nisto que nenhum dos alegados pretendentes lhe dava condições - tradução: dinheiro - para ganhar o que fosse.

Por outro lado, amoleceu o discurso férreo, posou em fotografias com Iker Casillas, elogiou Cristiano Ronaldo, e abriu inclusivamente a porta às federações internacionais, um salto notável na sua narrativa anti-seleções que sempre o acompanhou. Porque ser selecionador era uma chatice, coisa de velhos de 65 anos, uma pré-reforma para quem, ao contrário dele, não sentia saudades do treino. “Neste momento, vejo-me mais numa seleção”.

Certo.

Mou tem 56 anos e desdobra-se em múltiplas entrevistas e contratos para comentários futebolísticos e técnicos, onde não faltam as viagens ao passado inquestionavelmente glorioso. Nestas recordações, cabem sempre os méritos do FC Porto e aquela meia-final contra o Barcelona, e o mito Mourinho mantém-se vivo e o nome a circular, ligado a imagens de arquivo.

Dá a sensação, por vezes, de estarmos a assistir ao programa “As Memórias do Saudoso Mourinho”, aquele a quem um dia foi confiado o título de melhor do mundo, o estratega insuperável, o analista metódico, um líder de homens inquestionável. É injusto, mas provavelmente só havia este caminho para a redenção. E para a reconfiguração.

Agora, oito meses após ser chutado do United, é Mourinho a confessar que poderá estar datado. “Este é um mundo novo”, disse ele ao Canal 11, “ao qual tenho de me adaptar, nunca perdendo a identidade, porque foi a minha identidade que me trouxe até aqui”.

Ou seja, Mourinho, enfim, percebeu que as táticas de guerrilha, as críticas aos jogadores (seus e dos outros), os tiques de generalíssimo e as conferências de imprensa insistentemente agressivas deixaram de funcionar.

Mudar nunca é fácil, sobretudo quando se ganhou tanto em tão pouco tempo, uma combinação permeável aos assuntos do ego. Mas Mourinho vai a tempo. Pode ser que sim. Pode ser que não seja só uma manobra de relações públicas.