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Sobre a incompatibilidade genética de RDT e Seferovic, avançados que combinam tão bem como sardinhas e maionese

Bruno Vieira Amaral escreve nestas linhas sobre a dupla que lhe deixa algumas dúvidas

Bruno Vieira Amaral

Carlos Rodrigues

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Fui acusado de incoerência. Acontece a todos. Uma pessoa reage a quente aos acontecimentos, não tem o cuidado de rever aturadamente tudo o que escreveu e logo aparece alguém dado a arqueologias a brandir uma folha ou um tablet e a gritar: “incoerente!” É aborrecido sermos acusados injustamente, mas, neste caso, a acusação é inteiramente justa. Mais, era quase obrigatório que alguém me atirasse a incoerência à cara como quem atira uma pedra à cabeça de uma prostituta (era assim que se fazia nos tempos bíblicos e hoje ainda se faz em certas sociedades desenvolvidas) porque, ao reler a crónica que escrevi há umas semanas, intitulada Indícios de Desgraça, eu próprio fiquei com vontade de partir a cara ao escriba. E olhem que sei onde é que ele mora e a escola em que os filhos andam. É de facto muita húbris, muita bazófia, ainda por cima resguardadas pela ironia, para um texto tão curto.

Mas em minha defesa devo perguntar: quem poderia imaginar que o entendimento telepático entre Rafa e Pizzi fosse abruptamente cortado por aquele meio-campo musculado do Futebol Clube do Porto? Quem diria que a dupla Ferro e Dias teria um retrocesso à primeira infância? Quem, no seu são juízo, poderia adivinhar a incompatibilidade genética entre Seferovic e Raul De Tomas? Bem, esta, pelas anteriores amostras, era de certa forma adivinhável pois os dois avançados combinam tão bem como sardinhas e maionese. Dos trezentos golos que o Benfica marcou neste início de época apenas um foi da autoria de um dos avançados. Noutros tempos, isto seria motivo de alarme. Agora não. Esperar golos de um avançado é, nesta pacífica Era de Aquário em que talvez vivamos (os astrólogos não sabem muito bem se já começou ou não), uma heresia.

Nunca pensei que os efeitos do movimento #metoo chegassem tão depressa ao futebol. Mas, se pensarmos bem, faz sentido. Afinal, os guarda-redes estão lá para manter a baliza inviolada e não é por acaso que os avançados à moda antiga, os que tinham como função marcar golos, eram chamados de predadores. Tudo isto era de uma enorme violência e agressividade, um exemplo acabado de masculinidade tóxica. Hoje, um avançado deve preocupar-se em ser, desde logo, o primeiro defesa. Depois, caso a ocasião se proporcione, nunca deve atirar para a baliza sem o consentimento do adversário. É fundamental que o avançado moderno fale com os centrais e os guarda-redes e lhes pergunte se estão em condições de sofrer, perdão, de conceder um golo. Querer marcar golos à bruta é um resquício do paleolítico que as novas táticas logo eliminarão.

Por isso, é de elogiar o comportamento digno de Seferovic que só marca golos se não tiver outra alternativa. Ele, sim, é o avançado moderno que compreende a nova mentalidade dos adeptos. Estes ainda apreciam os golos, sobretudo se marcados por médios interiores ou centrais, mas ficam extasiados é com uma boa transição defensiva. Que alegria ver um avançado que custou vinte milhões de euros a pressionar os centrais adversários, a condicionar a saída de bola, a exibir o seu talento gregário! O golo é a bifana, a sandes de courato e o adepto moderno prefere pratos mais elaborados, com a sofisticação de um chef com duas ou três estrelas Michelin.

Ontem, a meio da segunda parte, RDT foi substituído e via-se-lhe no rosto alguma desilusão. É natural. O homem chegou esta época e ainda não se habituou à prática do jejum. É uma questão de tempo até perceber que um avançado não tem de marcar golos para ser aplaudido e admirado. Para quê gastar energias e concentração numa tarefa que pode ser desempenhada com tanto ou maior sucesso pelos defesas adversários como ontem se viu nos dois autogolos do Braga ou no golo que Koulibaly, central do Nápoles, marcou na própria baliza contra a Juventus?

No Benfica de Bruno Lage já se viu que os avançados têm mais que fazer do que andar a marcar golos. Têm de defender, abrir espaços para os colegas, participar em campanhas publicitárias, criar um bom ambiente no balneário, aconselhar Domingos Soares Oliveira, conversar com Rui Costa sobre como era jogar no antigo Estádio da Luz, trocar lâmpadas, visitar a Baía do Seixal, participar em ações de solidariedade, ir a escolas dar autógrafos e camisolas às crianças, enfim, toda uma série de responsabilidades bem mais importantes do que a obsessão primitiva em marcar golos, em “desfeitear” as redes. Consultem um dicionário. Desfeitear é fazer uma desfeita, desconsiderar, ofender, ultrajar. Alguém quer um avançado com estes modos?

RDT está a aprender a ser um avançado sem golo. Custa um bocadinho ao princípio, mas ele é um rapaz inteligente e acabará por se habituar. O grande desafio que tem pela frente não é o de ser o melhor marcador do campeonato. Por amor de Deus, isso é algo ao alcance até de um Seferovic, de um Pena, de um Vata Matanu Garcia. O que é difícil para um avançado é conseguir chegar ao fim do campeonato sem marcar um golo e, mesmo assim, ser um ídolo do Terceiro Anel. Fernando Gomes, o “bibota”, comparava a sensação de marcar um golo a um orgasmo. Porém, atravessar todo um campeonato sem faturar uma única vez é como atingir o nirvana após um prolongado jejum místico. RDT não deve desesperar com a falta de golo. Pelo contrário, deve alegrar-se. Só faltam trinta jornadas para ser um avançado sem mácula e sem golo, um santo dos relvados.