Tribuna Expresso

Perfil

Crónica

A Ordem Natural das Coisas

Bruno Vieira Amaral escreve sobre a abordagem santista na seleção nacional e o princípio do qual Fernando Santos não abdica: nenhum princípio é mais importante do que o resultado

Bruno Vieira Amaral

Srdjan Stevanovic - UEFA

Partilhar

Se há coisa de que os treinadores não gostam é de jogos que ganham vida própria, que se emancipam dos planos longamente congeminados durante uma semana e começam a voar em círculos imprevisíveis de anarquia e caos a que o talento de certos jogadores vem devolver alguma ordem. Quando um jogo se torna anárquico impera quase sempre o talento individual. E os treinadores têm horror a confiar numa variável tão volátil. Sobretudo os pragmáticos, como é o caso notório de Fernando Santos.

Lembram-se daquele jogo contra a Hungria no Euro-2016, que acabou empatado a três e nos valeu uma passagem pouco gloriosa aos quartos de final? Quase no fim, o selecionador reforçou o meio-campo com Danilo para segurar o empate, mesmo que um golo húngaro nos pusesse no voo de volta a Lisboa. Fernando Santos justificou-se: “Não sou maluco.” No final da partida, o capitão Ronaldo descreveu assim os noventa minutos: “foi um jogo de loucos.” Indiferente à pragmática sanidade do treinador, o futebol jogado seguiu o seu próprio caminho de loucura e, no final, loucura e racionalidade convergiram e Portugal lá avançou com o credo na boca.

Não há como negar o sucesso da abordagem santista. Os dois títulos conquistados falam por si. Além disso, Fernando Santos tem toda a razão quando diz que é muito difícil ganhar a esta equipa. Não se esperem revoluções táticas da cabeça do engenheiro, não se espere um futebol de encantar, não se espere nada a não ser o desespero dos adversários por não conseguirem desmoronar por completo uma estrutura que, não raras vezes, abana que se farta. Vi o jogo da Holanda com a Alemanha que os holandeses venceram por 4-2. Ora, há pouco mais de dois meses esta renovada laranja foi incapaz de derrubar a nossa seleção. Não é apenas sorte, há ali método. E quando o método não chega, aparece o talento individual, um Bernardo, Um Ronaldo, um São Patrício. Ou a sorte.

Veja-se o jogo contra a Sérvia. A primeira parte decorreu numa toada amena e um tanto aborrecida, menos um jogo de futebol do que uma transposição quase exata dos apontamentos do selecionador para o relvado. A certa altura, a posse de bola estava nos 70/30 favoráveis a Portugal e as balizas eram elementos meramente decorativos. De vez em quando, os sérvios aproveitavam o original sentido de posicionamento de Nélson Semedo para causar algum perigo, mas toda a gente sabe que a exibição dessas vulnerabilidades funciona como uma espécie de engodo que atrai os adversários e acaba por os expor a ferroadas letais, mesmo que estas sejam aplicadas pelo menos letal dos jogadores, como é William Carvalho. No fim da primeira parte, o jogo estava tão parecido com Fernando Santos que só lhe faltava um crucifixo ao peito e um terço no bolso.

Já a segunda parte, para desespero do selecionador, ganhou vida própria. Não enlouqueceu por completo, como aquele jogo contra a Hungria, mas teve os seus desvarios. A seleção, com menos bola e mais dentes, mostrava-se mais aventureira e também mais propensa ao erro. A diferença é que dois dos erros foram aproveitados pelos sérvios para marcar dois golos e o pragmatismo de Santos teve de confiar nos poderes sobrenaturais do talento individual. Quando a equipa tremeu, quando o jogo ficou meio louco, surgiu resplandecente e salvífico o pé esquerdo de Bernardo, um jogador tão bom que prospera em qualquer ambiente, seja o do rigor maníaco de Guardiola, o da ordem espartana de Santos ou o do alegre caos para onde certos jogos inevitavelmente resvalam. Quando o jogo fica partido, é o pé esquerdo de Bernardo que cola os cacos, com o auxílio de uma trupe de artistas de sapatinhos de veludo e meiazinhas de algodão.

Até Ronaldo parece ser apenas mais um, mesmo que um especial. Nem o problema que foi para alguns selecionadores, nem a única solução que foi noutras ocasiões, o capitão joga mais leve. Mérito também de Fernando Santos que conseguiu resolver a dificílima equação que atormentava o país futebolístico: como aproveitar todo o talento e eficácia de Ronaldo sem comprometer o equilíbrio da equipa? Dizem as estatísticas que Ronaldo nunca marcou tanto na seleção como na era Fernando Santos e esses golos, 39 ao todo, não foram estéreis, ajudaram a conquistar os tais dois títulos. Nas conferências de imprensa, Santos não perde uma oportunidade de afagar o ego da sua estrela, sublinhando o seu estatuto de primus inter pares. Mais do que um estratega, revela-se um jardineiro cuidadoso sempre preocupado em verificar a temperatura emocional da estufa para que a sua flor mais preciosa não definhe por falta de mimos. Se não é a quadratura do círculo, anda lá perto.

Como bom pragmático, Fernando Santos tem sólidos princípios de que não abdica. Um deles, talvez o mais importante, é o princípio de que nenhum princípio é mais importante do que o resultado. Ele sabe que quando um jogo enlouquece o melhor é não o contrariar e deixar que seja o talento dos jogadores a repor a ordem natural das coisas que ele tanto aprecia.