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Grandes Treinadores e Treinadores de Grandes

Numa crónica em que coabitam Vítor Oliveira, Sérgio Conceição e nomes como Vítor Urbano, Vítor Manuel e José Romão, Bruno Vieira Amaral fala-nos da diferença entre treinadores com cara sofredora do pontinho e da retranca e aqueles que não especulam na hora de afirmar a sua liderança

Bruno Vieira Amaral

Gualter Fatia/Getty

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O primeiro jogo do Benfica no campeonato que vi no Estádio da Luz foi há mais de 26 anos. O croata Tomislav Ivic começara a época no banco, numa daquelas tentativas de enfrentar o Porto trazendo para a Luz homens que tinham conhecido o sucesso nas Antas, mas, em dezembro, Jorge de Brito, o último dos presidentes românticos, mandou o croata embora e Toni, depois da experiência de 87/88, foi novamente o bombeiro de serviço e assumiu uma vez mais o cargo de treinador principal. Se a defesa não era das melhores, o meio-campo era de luxo. Naquele jogo, disputado no dia 4 de abril de 1993, a equipa inicial contava com Paulo Sousa, Rui Costa, Stefan Schwarz, Alexandr Mostovoi, Pacheco e Paulo Futre, que chegara meses antes graças à liberalidade da RTP. O adversário nessa tarde de domingo foi o Gil Vicente, que tinha na baliza a promessa Brassard e contava com outros nomes míticos do nosso humilde futebol: Laureta, Cacioli, Tuck e um tal Ljubinko Drulovic. Aos noventa minutos, a equipa de Barcelos fez entrar o não menos mítico Tueba que, anos antes, disputara a nefasta final da Taça dos Campeões pelo Benfica contra o PSV.

Lembro-me que o estádio estava praticamente vazio e que os cinquenta adeptos do Gil Vicente, animados por um imparável bombo, não se calaram durante todo o jogo com gritos de “Gili! Gili! Gili!”, que aumentaram quando o defesa Miguel inaugurou o marcador ainda na primeira parte. A muito custo, o Benfica deu a volta ao resultado na segunda parte com dois golos de Pacheco, também ele um dos sobreviventes da final de Estugarda. Facto curioso é que no banco dos gilistas estava o mesmo treinador que orientou o Gil Vicente neste fim de semana no Estádio da Luz, Vítor Oliveira. Naquela altura ainda não era o rei das subidas, mas é significativo que um quarto de século depois ainda tenha oportunidade de demonstrar a sua competência no principal escalão.

Para se ter noção do feito que isso representa basta olhar para os nomes dos treinadores daquela época: o próprio Toni, José Romão, Paulo Autuori, Zoran Filipovic, Jaime Pacheco, Henrique Calisto, Vítor Urbano, Abel Braga, Rodolfo Reis, Paco Fortes, Manuel José, Vítor Manuel e Fernando Santos, além dos já falecidos Carlos Alberto Silva e Bobby Robson. À exceção do agora selecionador nacional Fernando Santos e das passagens conturbadas de Autuori e Manuel José pelo Benfica, nenhum teve oportunidade de treinar um grande. Nem sequer o campeão nacional pelo Boavista Jaime Pacheco. Muitos são hoje comentadores e provavelmente não voltarão a orientar uma equipa na primeira liga. Desgastaram-se nos combates pela permanência sempre com o rótulo de treinadores de equipa pequena e acabaram atirados para o caixote do lixo.

Pedro Fiúza/NurPhoto via Getty Images

Vítor Oliveira foi mais perspicaz. Escolheu sempre os projetos que lhe ofereciam mais garantias, mesmo em divisões inferiores, e hoje está de volta aos palcos principais com o desafio quase sobrenatural de transformar um clube que o ano passado estava no terceiro escalão numa equipa competitiva. A vitória contra o Porto e a boa exibição do Gil Vicente no Estádio da Luz mostram que Vítor Oliveira sabe o que está a fazer. O facto de nunca terem apostado nele para clubes com outras aspirações mostra que os dirigentes muitas vezes não sabem o que estão a fazer.

Em Portugal, o chicote estala com frequência, mas sou capaz de apostar que o treinador do Gil Vicente é dos poucos que não corre esse risco. Como se dá ao luxo de escolher os projetos, só sairá da equipa de Barcelos se e quando quiser. Os restantes vivem com a espada de Dâmocles sobre a cabeça. A dança das cadeiras começa cedo e é normal que essa instabilidade fomente o conservadorismo em detrimento de ideias mais avançadas e de um futebol mais atrativo. O que interessa é o pontinho. Mesmo que um treinador acumule créditos numa época, começa a época seguinte na estaca zero. Veja-se o caso de Silas no Belenenses SAD. E assim vão saltitando de clube em clube, sempre com objetivos de curtíssimo prazo, sem tempo para desenvolverem as suas ideias. Ou encadeiam uma sucessão de épocas positivas e esperam que as circunstâncias os abençoem com um clube grande ou uma aventura no estrangeiro ou vão alternando entre a cadeira e o chicote, com períodos sabáticos no purgatório do comentarismo até já ninguém se lembrar deles para a tarefa de alto risco e parca recompensa que é a de treinar um clube de meio da tabela.

Os próprios treinadores, mais do que ninguém, devem sentir na pele a aleatoriedade dessa hierarquia que põe de um lado os que estão destinados aos grandes e os que nunca hão de conseguir dar o salto. Não pode ser só a capacidade, o conhecimento, a sabedoria. Se assim fosse, Jorge Jesus não teria demorado tantos anos a chegar a um grande, nem Bruno Lage teria saltado da equipa B para a condução da equipa principal do Benfica. Será a postura? O discurso? A cara? É capaz de ser a cara. Penso naqueles treinadores de antanho – Vítor Urbano, Vítor Manuel, José Romão – e vejo que tinham aquela cara sofredora do pontinho e da retranca. Por outro lado, haverá cara mais “retranqueira” do que a de Fernando Santos? Duvido.

PATRICIA DE MELO MOREIRA

Ontem vi a segunda parte do Portimonense-Porto. Nos respetivos bancos, dois ex-jogadores do Porto com uma diferença de quatro anos entre si. Curiosamente são os treinadores mais longevos no mesmo clube. Dá para rir, se não fosse um indicador trágico da condição de treinador em Portugal. Bem, mas o que pensei foi que os papéis poderiam facilmente inverter-se. Não seria um escândalo ver António Folha no banco do Porto e há poucos anos era o próprio Sérgio Conceição que orientava uma equipa algarvia sem outras ambições que não a da manutenção. Com todas as suas limitações, o Portimonense procurar praticar um futebol agradável e o Porto, apesar de todos os recursos, muitas vezes limita-se a ser uma equipa sólida, pouca amiga do espetáculo. Então porque é que um treinador, por acaso o mais velho, está no Portimonense e o outro já foi campeão no Porto?

Uma resposta possível chegou no fim do jogo. Sérgio Conceição não é muito bom a esconder as emoções, o que o torna um caso interessante de acompanhar. Não se trata de elogiar a frontalidade. Trata-se apenas de observar, com algum deleite, a incontinência emocional do treinador do Porto. Pode-se acompanhar o desenrolar de um jogo seguindo unicamente as reações de Conceição no banco. Ontem, até aos setenta minutos, o treinador azul-e-branco estava controladíssimo. O jogo, até esse momento, tinha sido, mais do que um passeio, uma visita guiada. Se os jogadores do Portimonense tivessem entrado de tuk-tuk e megafone a chamar a atenção dos forasteiros para as belíssimas clareiras no seu meio-campo, arriscavam-se a ganhar um prémio da Região de Turismo do Algarve.

Até que Conceição, segundo a sua análise, resolveu complicar. Chamou Nakajima com um assobio – “um assobio japonês”, de acordo com a tirada inspirada do comentador da Sport Tv – e o internacional japonês foi a correr para entrar em campo. Foi a única vez que cumpriu com eficácia uma ordem do treinador. Seria melhor para o Porto se o treinador tivesse continuado a assobiar em japonês. Com a entrada em campo de Nakajima, ele que na época passada foi o motor dos algarvios, o Portimonense ressuscitou. Dois remates, dois golos. No banco, Conceição escondia o rosto com as mãos. No final do jogo, já depois do golo redentor de Marcano, Conceição dirigiu-se ao diminuto Nakajima com uma fúria de Incrível Hulk. Puxou-o por um braço e tiveram de ser os jogadores a arrefecer os ânimos. Nakajima, com aquele ar indecifrável de personagem de Ozu, revelou uma obediência nipónica à autoridade e nem sequer esboçou uma reação. E Sérgio Conceição, no seu aparente descontrolo, afirmou-se como treinador de equipa grande.

É a atitude. Só pode ser a atitude. O treinador do Porto sente que aquele lugar é seu por direito e que não há de ser um japonês instável a estragar o que lhe deu tanto trabalho a conseguir. Quando, há dois anos, Conceição encostou Casillas, muitos viram nessa decisão uma reedição dos conflitos cirúrgicos de Mourinho para mostrar quem mandava. Mas duvido que esses confrontos sejam meramente estratégicos. São o resultado de crença e de confiança. Quem manda ali é ele e mesmo que a condenação pública de um jogador possa ser vista como um sinal de fraqueza e não de autoridade, Conceição não especula na hora de afirmar a sua liderança. Talvez seja isso que distingue um treinador talhado para os grandes dos treinadores que passam uma carreira à espera do som do chicote