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O nível de ansiedade e angústia de RDT já se encontra em níveis dostoievskianos. Mais um grama e transforma-se no Aliocha Karamázov

Bruno Vieira Amaral escreve sobre RDT, um jogador que, qualquer dia, começará a receber discursos motivacionais dos próprios adversários tal é a pena que transmite. “Só que pena é um sentimento que não se ajusta a um jogador que custou 20 milhões de euros”, diz

Bruno Vieira Amaral

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A noite passada tive uma ideia para um conto. É uma história simples. Um homem vai a um velório, dá os pêsames aos familiares e, quando se prepara para homenagear o defunto, descobre com horror que o morto é ele. A história é inspirada no caso verídico de Raul de Tomás, o avançado sem golo. Perdoem-me a insistência.

Eu queria falar da fantástica campanha do Famalicão ou do imbróglio burocrático da não inscrição de Pedro Mendes, jovem avançado do Sporting, mas a seca de RDT (ou DDT, já não sei como o hei de chamar) adquire a cada jogo dimensões épicas. Pode ser um efeito colateral das alterações climáticas, mas em 41 anos de vida nunca vi nada assim. A não ser o ano passado, com Ferreyra, e mesmo este conseguiu marcar um golinho.

Já conhecíamos o avançado-pinheiro e agora dispomos de um exemplar único do avançado-eucalipto, que seca tudo à sua volta, a começar pela fonte de onde deviam brotar os seus golos. Em seu redor, tudo é aridez. Só os centrais contrários vicejam, multiplicam-se, reproduzem-se infinitamente quando na proximidade de RDT. Olho para o ecrã do televisor e onde está RDT estão sempre cinquenta defesas ou apenas um, mas tão grande que parece um exército, uma montanha, como aquele central do Leipzig, um Kilimanjaro com pernas que passou o jogo a ser assediado pelo avançado espanhol do Benfica.

Noutra altura a paciência dos adeptos do Benfica já se teria esgotado. Estaríamos em vésperas de uma guerra civil e fratricida, com defensores de RDT de um lado a ameaçarem rasgar os cartões de sócio se o espanhol fosse para o banco, e os seus detratores a partir cadeiras em assembleias gerais se lhe fosse concedida mais uma oportunidade. Mas as vitórias dos últimos anos tiveram um curioso efeito na psique benfiquista. A maioria dos meus amigos benfiquistas fala do caso RDT com uma paz de espírito de fazer inveja a um monge cartuxo. Oiço-os e é como se estivesse a ouvir uma preleção pedagógica do Dr. Eduardo Sá: “exigência não significa hostilidade” ou qualquer coisa do género.

Após um jogo pavoroso, os adeptos aplaudem-no cientificamente, baseados nos mais recentes avanços da psicologia clínica. Mesmo aqueles que o consideram um caso perdido já optaram pela via contemplativa: continuarão plácidos a observá-lo em campo até que ele desapareça, de preferência por empréstimo com opção de compra, para um Espanhol, Granada ou Alcorcón.

Eu percebo aqueles que não querem aumentar os níveis de ansiedade do jogador com assobios e insultos. Só que é visível que o nível de ansiedade e angústia já se encontra em patamares russos, dostoievskianos. Mais um grama de ansiedade, e RDT transforma-se num Aliocha Karamázov, num Raskolnikoff. Um defesa do Gil Vicente marca um auto-golo e RDT quase arranca os cabelos e as vestes, como se lhe tivessem comunicado a morte de um ente querido. O sofrimento é tal que inspira a compaixão dos adeptos e dos adversários. Não tarda muito e os jogadores da outra equipa estão a animá-lo com discursos motivacionais.

Um mais liberal poderá até dar-lhe uma moedinha, pagar-lhe uma sopa. No jogo contra o Moreirense até mudou de penteado que, por artes mágicas, se transferiu para a cabeça de Caio Lucas. No próximo jogo é bem capaz de entrar em campo com umas olheiras suicidas e a empurrar um carrinho de compras roubado no Colombo, arrastando um rafeiro pela trela.

Acontece que pena é um sentimento que não se ajusta a um jogador que custou 20 milhões de euros. Os otimistas dizem que é uma questão de tempo e recuperam a teoria do ketchup. Ah, basta entrar o primeiro e, a partir daí, escorrerão golos em cascata das botas agora aziagas de RDT, dizem com um ceticismo mal disfarçado. Os pessimistas tentam extrair do caso lições de vida e de gestão desportiva: nunca contratar um jogador que se apresenta com as iniciais do nome.

É que RDT tem uma ressonância futurista, de máquina, como se fosse o resultado de um projeto secreto de engenharia: “Apresentamos o novo modelo, o RDT, um avançado ultrassónico, com cabeça de titânio protegida com múltiplas camadas de Shockwaves, ligações internas de fibra ótica e mira descalibrada.” E depois sai-nos um espantalho, uma carroça, ainda por cima com tendências depressivas. Como aqueles robôs dos filmes que ganham consciência e começam a questionar-se sobre a sua identidade, RDT vai para casa, olha-se ao espelho e pergunta-se: “serei mesmo um avançado a sério ou fui criado para correr atrás dos defesas numa primeira linha de pressão?”

A resposta está nas mãos de Bruno Lage. Ou continua a insistir em RDT à espera de um milagre tecnológico ou concede-lhe umas mini-férias para ele descansar a cabeça, ficar em casa de persianas fechadas a ouvir um CD dos sons das baleias, fazer hipnose regressiva que o faça voltar ao confortável ambiente intra-uterino, reconciliar-se com a vida e, depois, se não for pedir muito, que regresse em forma para marcar um golo de ressalto contra o Tondela