Tribuna Expresso

Perfil

Crónica

O caso de Ruben Semedo pode ser exemplar sem as roupagens pesadas e bafientas do moralismo

O escritor Bruno Vieira Amaral escreve sobre o regresso de Semedo à seleção nacional

Bruno Vieira Amaral

Christopher Lee

Partilhar

À justiça o que é da justiça, ao futebol o que é do futebol. Não é assim que se diz? Bem, isto a propósito de Ruben Semedo, central formado nas escolas do Sporting, vendido com proveito económico a um clube espanhol e que, há coisa de um ano, estava alojado num estabelecimento prisional, algures na Comunidade Valenciana, por suspeitas de envolvimento num caso de sequestro, agressões e tentativa de homicídio. Nos meus tempos privilegiava-se o central durinho, mas isto talvez seja levar a ideia demasiado à letra.

Dizia à justiça o que é da justiça porque desconheço em pormenor os factos de que é acusado o cidadão Ruben Semedo e não sou daqueles que acham que os futebolistas têm responsabilidades cívicas acrescidas por serem um exemplo para os mais novos. Muitos destes futebolistas cresceram sem grandes exemplos à sua volta e com o futebol como única saída profissional. Não os sobrecarreguem com a exigência de se portarem como um padre Américo.

É possível que o problema de Semedo tenham sido as más companhias, para as quais já minha avó me alertava (o inferno são os outros, não é verdade?). É natural que estes jovens se mantenham fiéis a amizades que vêm dos tempos em que ganhar a vida a jogar à bola era para eles um sonho longínquo. Acontece que esses amigos, alguns dos quais até poderiam ter seguido carreiras no futebol, têm por vezes a tendência para resolver contendas com recurso a armas de fogo e, em certas ocasiões, sobretudo a altas horas da noite, para contestar o direito à propriedade privada. Ou seja, se essa lealdade revela nobreza de carácter não será propriamente uma mais-valia na gestão de uma carreira desportiva. Pode-se ser amigo de Platão, mas ser ainda mais amigo de não ir parar à cadeia, mandando pelo cano (do esgoto, não da arma) anos de trabalho e de esforço para se chegar ao topo da profissão. Quanto à justiça, fico-me por aqui.

Confesso que quando soube da notícia da prisão de Ruben Semedo fiquei triste. É um sentimento esquisito mas que, volta não volta, me assalta e me deixa na dúvida sobre o que fazer com ele. Trata-se de um sentimento de compaixão por pessoas que, no sentido económico, são mais afortunadas do que eu e que, por erros próprios, deitam tudo a perder. As pessoas conhecem o sentimento de vergonha alheia, quando vemos alguém de que talvez nem sequer gostemos a fazer uma figura tão ridícula que somos obrigados a fugir dali ou, se a prestação for televisiva, a mudar de canal com a atrapalhação da criança que, pela primeira vez, surpreende os pais em combate amoroso. Também conhecem o satânico e frequentemente inconfessável prazer da schadenfreude, a alegria pela desgraça dos outros, que nos compensa de tantas frustrações íntimas. Porém, este sentimento de compaixão por quem só se pode culpar a si mesmo é, de facto, bizarro e não creio que haja uma designação clínica ou literária para o mesmo.

Dou um exemplo. Quando leio, aqui na Tribuna, entrevistas a ex-jogadores fico contente quando eles dizem que fizeram um bom pé-de-meia e acautelaram o futuro e fico preocupado quando confessam ter feito investimentos desastrosos ou que lhes ficaram a dever dinheiro no Chipre ou na Eslovénia. É um movimento irracional e involuntário da minha consciência. Por que razão haveria de me preocupar com indivíduos que gastam cinquenta mil euros em relógios e que, mesmo atendendo à brevidade da carreira, ganham por vezes num mês o que eu não ganho em dez anos? Como disse, a minha compaixão é irracional e involuntária e teria de ser psicólogo para a conseguir descodificar. Seja como for, foi esse o motivo para me ter entristecido com a notícia da prisão de Ruben Semedo.

Da mesma forma, e ainda sem qualquer fundamento racional, alegrei-me com o regresso dele à competição, com o sucesso no Olympiacos e, agora, com a chamada à seleção. Apesar das palavras cristãs do selecionador, acredito que Fernando Santos o tenha convocado pelas suas capacidades futebolísticas e não para lhe dar uma oportunidade de se redimir do seu eventual erro. Esse erro, a ter existido, deve ser a justiça a avaliá-lo e a puni-lo adequadamente. Mas num tempo em que os dedos acusadores, e até a propósito de delitos menores, são mais rápidos do que a própria sombra, o caso de Ruben Semedo pode ser exemplar sem trazer as roupagens pesadas e bafientas do moralismo.

Embora apliquemos às nossas próprias ações critérios morais mais lassos do que às ações dos outros, todos nós cometemos erros. Alguns até podem ter consequências merecidamente graves ou irreversíveis. Mas se há nas histórias dos ídolos de pés de barro algo que nos conforta por nos lembrar da humanidade que partilhamos com eles, também há algo que nos emociona na história de um homem que se reergue depois de ter ido ao tapete. Bem, já viram que nada disto é sobre justiça e também não será sobre futebol. É sobre a vida, sobre um homem. Direi, pois, à vida o que é da vida, ao homem o que é do homem. Não sei se Ruben Semedo aprendeu alguma coisa com o que lhe aconteceu. O que sei de ciência certa é que eu aprendi alguma coisa com a reação dele ao que lhe aconteceu. E é bom vê-lo aproveitar a segunda oportunidade a que nem todos têm direito