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Uma crónica para os heróis esquecidos

Desta vez, o escritor Bruno Vieira Amaral foge ao futebol e, partindo do exemplo da jovem tenista Coco Gauff, lança a discussão: no desporto, a memória é de curta duração. E deixa uma homenagem a vários heróis e heroínas que tendemos a esquecer na voragem mediática

Bruno Vieira Amaral

ADRIAN DENNIS

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Coco Gauff é uma tenista norte-americana. Tem apenas quinze anos e ontem conquistou o primeiro título da carreira, em Linz, na Áustria. É a mais nova campeã num torneio do WTA desde Nicole Vaidisova, que em 2004 ganhou em Vancouver, e a mais jovem norte-americana desde que Jennifer Capriati conquistou um torneio em 1991. É também a mais jovem a entrar no top-100 desde 2005, quando a búlgara Sesil Karatantcheva integrou a elite. Um feito é um feito e eu confesso o meu vício por estatísticas, mas o que me chamou a atenção ao ler a notícia do triunfo da jovem Coco Gauff (e digam lá que não há nomes que já são uma certeza de glória) foram aqueles nomes, agora esquecidos, das suas antecessoras.

Nicole Vaidisiova? Nunca ouvi falar. Sesil Karatantcheva? Ainda menos. Caso um pouco diferente foi o de Capriati que, mesmo assim, ainda teve de descer ao inferno antes de reaparecer e concretizar o muito que tinha prometido na adolescência. E lembrei-me também da “nossa” Michelle Larcher de Brito. Lembram-se? Há uns anos era a grande esperança do ténis feminino em Portugal. Semana sim, semana não, lá vinha uma reportagem ou uma notícia sobre Michelle, a academia de ténis de Nick Bolletieri, os gritinhos no court. Entretanto, Michelle desapareceu e ainda não passou o tempo suficiente, o período de nojo da fama efémera, que justifique um trabalho jornalístico do género “O que é feito de si?” Bem, para vos satisfazer a curiosidade posso adiantar que Michelle Larcher de Brito abandonou os courts e é agora treinadora. Até que surja um novo fenómeno, continuará a ser a melhor tenista portuguesa de sempre.

O que eu queria dizer é que na voragem das notícias e do último resultado cometem-se grandes injustiças. Nelson Évora, por exemplo. É, sem qualquer dúvida, um dos nossos mais extraordinários atletas de sempre com resultados que lhe garantem um lugar cimeiro na história do desporto português. Para mim, quase tão inacreditável como a medalha de ouro em Pequim foi a medalha de bronze nos mundiais há dois anos ou a medalha de ouro nos europeus de 2018 depois do calvário das lesões, provas de um estofo competitivo raríssimo. Porém, bastou um resultado mediano nestes últimos mundiais – a idade começa a pesar e a meta mágica dos 18 metros provavelmente nunca será alcançada – para que Nelson Évora desaparecesse das manchetes e fosse arrumado na categoria a que os ingleses chamam “has been”, aqueles que foram grandes, mas já não são.

Acontece que Nelson Évora será sempre grande, enorme, e vê-lo a competir aos 35 anos entre os melhores não devia servir como lembrete da sua decadência, mas como sinal inequívoco e raro da sua grandeza, da sua excelência. Se isto acontece a um dos nossos raros campeões olímpicos, imagine-se o que espera os outros. Há dias, numa daquelas declarações de populismo inócuo em que costuma incorrer, o Presidente da República disse que Rosa Mota era mais importante que todos os governos. Descontando o exagero presidencial, marcelático, sabe bem ver reconhecida a excelência desportiva de uma atleta como Rosa Mota, cujo currículo poderá parecer aos mais jovens uma página de ficção científica de pendor nacionalista saída de um daqueles livrinhos de propaganda patriótica destinados a transformar o mínimo feito numa gesta incomparável.

O caso de Ruben Semedo pode ser exemplar sem as roupagens pesadas e bafientas do moralismo

O escritor Bruno Vieira Amaral escreve sobre o regresso de Semedo à seleção nacional

A verdade é que aquela mulher foi campeã olímpica, mundial, europeia, venceu por três vezes a maratona de Boston e muitos de nós tivemos a sorte de sermos seus contemporâneos e de termos testemunhado, ao vivo ou na televisão, quase todos esses feitos. Que sorte a minha, que sorte a nossa, de ter visto a Rosa da Foz a acelerar pelas ruas de Roma em 87 ou a arreganhar os dentes para a sua última grande conquista internacional nos Europeus de Split, em 1990. Mas se Rosa Mota é, pela dimensão mundial dos seus feitos, indiscutível e uma presença viva na nossa memória coletiva, há muitos outros que, mesmo tendo alcançado resultados de grande valia, foram atropelados pelo tempo, atirados para as estantes escondidas. Falo de Domingos Castro e da sua medalha de prata naqueles mundiais de Roma, de Mário Silva e da inesperada medalha de bronze conquistada em Split ou do nosso super-homem Mário Aníbal, hoje num regresso lateral à ribalta graças à fotogenia da filha atriz.

Falo de mulheres campeãs do mundo como Manuela Machado ou Carla Sacramento, que podem não valer todos os governos de Portugal, mas certamente valem umas valentes dúzias de ministros. Falo de Albertina Machado e de Conceição Ferreira. Falo de Carlos Calado, que abriu as portas das medalhas nas disciplinas técnicas. Falo também de muitos que não conseguiram medalhas e que, apesar disso, me enchiam de orgulho sempre que os via em pista nas grandes competições: Lucrécia Jardim, o meu vizinho Edivaldo Monteiro, o esforçado varista Nuno Fernandes, e tantos, tantos outros que têm um lugar reservado no meu modesto panteão pessoal.

Talvez a conquista de Coco Gauff seja o início de uma carreira brilhante, talvez daqui a uns anos esteja ao nível de uma Serena Williams ou, a exemplo de Simone Biles, que também este fim-de-semana voltou a fazer história na ginástica, alcance resultados que inscrevam o seu nome na galeria dos maiores. Ou talvez nunca venha a atingir as alturas que o seu talento precoce promete. Talvez se reforme antes dos 25 anos e se dedique a treinar novos talentos. Porém, é nosso dever, enquanto adeptos de desporto e admiradores dos exemplos de excelência que estes atletas nos oferecem, reafirmar que nem tudo se perde na tal voragem mediática em que só parece contar o último resultado. É que na nossa memória nem tudo o que reluz é ouro. Às vezes é apenas prata, como a de Carla Sacramento em Budapeste, ou bronze, como o bronze tardio agora outorgado a Naide Gomes. Às vezes nem sequer é nenhum metal. É apenas a recordação do suor e do esforço, mas também ela rebrilha.