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Duarte Gomes

Duarte Gomes

ex-árbitro de futebol

Racismo, política, tribunais, futebol e os viveiros de estupidez humana

Duarte Gomes escreve sobre decisões polémicas, comportamentos estúpidos e políticos inábeis e perigosos, um cocktail explosivo, mas muito previsível

Duarte Gomes

Nick Potts - PA Images

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Por definição (bem redutora, diga-se), racismo é o preconceito e/ou a discriminação de (alegadas) diferenças biológicas entre povos.

Política é a arte ou ciência da organização, direção e administração de Estados ou nações.
Tribunais são os órgãos a quem compete a resolução de litígios, cujas decisões têm eficácia de coisa julgada.
E futebol, bem... futebol é futebol.

Não precisa de apresentações, porque o seu conceito confunde-se com o nosso. Está entranhado em nós. Nasce connosco. Estas são quatro realidades aparentemente distintas mas que, nos últimos tempos, insistem em cruzar-se. Perigosamente. Vertiginosamente.

O problema não está no conceito que cada uma encerra, em si. Não está naquilo que cada uma representa. O problema está, como sempre, nas pessoas.

Nas pessoas que são racistas e em algumas pessoas que estão na política, que têm poder nos tribunais e que fazem parte do futebol. A pausa (longa, aborrecida e, aos olhos de todos, desnecessária) dos campeonatos despertou o nosso foco para outras realidades. Para realidades que nos devem fazer pensar e que nos devem levar a agir.

Comecemos intra-muros.

Como já foi noticiado, a 9.ª Secção de Juízes do Tribunal da Relação de Lisboa emitiu um acórdão onde se lê, com todas as letras, que o futebol é um espécie de lugar de exceção no que diz respeito a ofensas, injúrias e difamação.

"No contexto futebolístico (...) são absolutamente incapazes de pôr em causa o caráter, a reputação e o bom-nome do visado".

Esta foi uma das muitas justificações que os senhores juízes encontraram para justificar as palavras ordinárias que um delegado de uma equipa disse ao treinador de outra: "Vai prá barraca, vai mas é pró car... seu filho da put...".

Com esta decisão (sublinhe-se, em sede de recurso), ficámos a saber algo muito importante: a partir de agora e desde que se esteja dentro de um estádio, qualquer agressão verbal é lícita.

Podemos ofender adeptos, árbitros, treinadores, presidentes de clubes, jogadores, polícias, políticos, juristas e, claro... magistrados.
Esta é a conclusão clara e inequívoca do referido acórdão sobre o que é permitido dizer-se no futebol. No mesmo futebol que tem obrigação de ser uma referência ética e uma escola de valores para os mais novos. No mesmo futebol que conta com a luta permanente de gente boa para passar mensagem oposta.

Artigo 181' do Código Penal, que prevê pena de prisão até 3 meses ou de multa até 120 dias?!? Naaa... esqueçam lá isso. Lá dentro há plafond. Descoberto Autorizado. Como disse alguém... é uma espécie de offshore.

Estejamos atentos ao precedente.

Mas se cá dentro estas limitações são uma constante que a poucos supreende, lá fora há grunhos que não ficam atrás.

Só na última semana, houve jogos interrompidos devido à presença de drones não autorizados (aconteceu no Dudelange/Qaarabag da Liga Europa, quando o referido objeto pairou sobre o relvado, com uma bandeira da Arménia pendurada, enfurecendo os jogadores azeris); houve também jogadores a fazer saudações militares quando festejavam os golos da sua seleção (alguns atletas da Turquia mostraram assim o seu apoio à invasão unilateral que Erdogan ordenou ao norte da Síria); e houve ainda uma série de vândalos búlgaros que passou todo o tempo a fazer saudações nazis e a entoar cânticos racistas na direção de vários jogadores ingleses que, no relvado, faziam (e bem, seis vezes bem) o seu trabalho.

Este viveiro de estupidez humana - nuns casos por manifesta dependência e subserviência, noutros por loucura ideológica ou malvadez de caráter - é cada vez mais recorrente.

O seu combate não é tarefa fácil mas é necessário: o futebol é demasiado puro para ser usado como arma de arremesso político ou rampa de lançamento de ideais extremistas.

Mais. É demasiado grande para contar com a conivência desnecessária de pessoas que deviam ter na independência de opinião e integridade de caráter a sua força maior.

A politização da indústria não é de hoje mas o seu poder e crescente mediatismo tem-no tornado apetecível para quem não olha a meios para atingir os seus fins.

É preciso impedir que isso aconteça. Rapidamente.