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Obrigado, Jordão

A opinião de Pedro Cruz no adeus ao grande futebolista que hoje desapareceu

Pedro Cruz

Michel Barrault

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Manuel Fernandes, Manoel e Jordão.
Estavam assim, seguidos, nas cadernetas de cromos que estão lá em casa e que me habituei a coleccionar com o meu pai.
Estão todas acabadas, preenchidas até ao último cromo.

A “linha avançada” do Sporting, aqueles três nomes seguidos, formavam uma certa métrica, sem cacofonia, apesar dos dois ‘manuéis’ um Manuel, outro Manoel.

E o Jordão.

Jogava elegante, era elegante no jogo.

E, depois, há o França84, os dois golos do Jordão naquela meia final que perdemos, eu a chorar, com 13 anos, agarrado à televisão, nem queria acreditar, de cada vez que dava a repetição parecia que o resultado, afinal, podia ser diferente, que o Platini ia falhar o terceiro golo e que a história poderia ser diferente.

Ainda hoje, confesso, quando revejo esse jogo, tenho esperança que o Platini afinal não acerte e que o Jordão ainda apareça para fazer o terceiro.

O Jordão deixou de jogar, nunca mais quis dar entrevistas. Tentei por todos os meios, meter cunhas aos seus amigos mais próximos, pedir-lhe que viesse à SIC falar de futebol, do Sporting ou da selecção, qualquer coisa.

Nos últimos tempos, a ideia era que viesse ao GingaBola, um programa sobre futebol africano na SIC Internacional.
Nunca o convencemos, nunca veio, nunca quis.

Já não era o jogador, a estrela, a gazela, o marcador.

Tornara-se num artista, no sentido literal, longe dos relvados, do futebol de hoje.

Não quis ser um comentadeiro, mais um a dizer banalidades.

Nunca o conheci pessoalmente.
Guardo os cromos com a cara dele.

E as memórias de tantos golos mas sobretudo daqueles dois, em França, a bola a entrar, primeiro de cabeça, nós a saltarmos da cadeira, em lágrimas mas de alegria, a gritar pelo nome dele, depois, começamos todos a acreditar, prolongamento, a bola chega, a bola vai… 2-1 a ganhar, e o Jordão a correr, elegante, braço direito no ar.

O resto já se sabe.

Obrigado, Jordão.