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Não há golo feio, não há golo fácil. Que Fábio Silva, com idade para ser filho de Edinho, nunca se esqueça desta lição

A crónica de Bruno Vieira Amaral desta semana debruça-se sobre o tema “o ponta-de-lança português”, essa espécie amaldiçoada em Portugal

Bruno Vieira Amaral

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Pobre Fábio Silva! Aos dezassete anos, três meses e oito dias de vida, disputando meia-dúzia de jogos com a camisola do Futebol Clube do Porto, bateu inúmeros recordes, alguns do tempo da igreja primitiva, outros remontando à Idade Média. Tornou-se o mais jovem de sempre a marcar um golo oficial pela equipa azul e branca, o mais jovem de sempre a marcar um golo na Liga pela mesma equipa, o mais jovem de sempre a ser o mais jovem de sempre. Os colegas festejaram os seus golos, como o inesquecível quinto golo ao Coimbrões, com uma generosidade e um altruísmo raramente vistos no desporto profissional. Do banco, Sérgio Conceição lançou-lhe um olhar de felicidade paternal, com o orgulho de um pai que, na festa de Natal do infantário, vê o filho a desempenhar sem falhas o papel de anjo Gabriel.

Porque essa é uma vantagem inequívoca de Fábio Silva em relação a outros fenómenos recentes do nosso futebol. Branquinho, com cara de chupeta e bolacha Maria, caracolinhos angélicos em vez de rastas diabólicas, ninguém se atreverá a pôr em causa a sua idade, ninguém exigirá certidões de nascimento, ninguém dirá que foi para o registo de motorizada. Tem tudo para ser feliz, para ser o novo André Silva ou o novo Rui Pedro (não sei se ainda se lembram deste jovem) ou, se as coisas lhe correrem mesmo bem, ser um novo Fernando Gomes e tornar-se uma verdadeira lenda do clube do seu coração.

Mas porquê pobre? A pergunta, caro leitor, é legítima e tentarei responder com toda a honestidade. Ora, Fábio Silva é ponta-de-lança e isso, em Portugal, é uma maldição. A morte de Rui Jordão na semana passada lembrou-nos o tempo em que Portugal não olhava para os pontas-de-lança como um fenómeno raro, quase uma excentricidade, um erro da nossa cultura futebolística. Tínhamos, além de Jordão, o seu companheiro de equipa, Manuel Fernandes, Nené e o já referido Fernando Gomes. Depois disso não foi o dilúvio, mas o deserto. Deserto com alguns tufos de vegetação pelo meio como Rui Águas, Cadete, Domingos ou Nuno Gomes e a exceção insular de Pauleta, mas um deserto. Ponta-de-lança português tornou-se um oxímoro e os adeptos, quer dos clubes, quer da seleção, tradicionalmente complacentes com outros profissionais, passaram a desconfiar da presença dessa espécie estranha no meio dos virtuosos do meio-campo e das setas nas alas.

O Benfica, pela boca do seu presidente, já veio confessar a incapacidade do afamado laboratório do Seixal em produzir um ponta-de-lança. A mais sofisticada tecnologia, os mais avançados métodos, os mais reputados estrategas, os treinadores mais qualificados, os medidores de tensão, de frequência cardíaca, de sono, as mais rigorosas dietas, os exercícios mais detalhados têm gerado uma multidão de Tavares, mas revelam-se ineficazes quando se trata de conceber um avançado em condições de jogar na equipa principal.

Já no Olival a conversa é outra. Seja pelos ares do Norte, seja pelo apuramento genético, das escolas do Porto têm saído alguns pontas-de-lança que, por momentos, nos fizeram acreditar que tinha chegado a hora do Messias da grande área, um avançado robusto e criativo, que à força física de reminiscências teutónicas juntaria a técnica e a manha tipicamente portuguesas. Um avançado capaz de massacrar defesas impiedosas e de, ao mesmo tempo, pôr a bola a beijar delicadamente as redes. Em suma, o avançado do futuro. Acreditei que Gonçalo Paciência fosse esse avançado.

Na passagem de testemunho entre pai e filho está quase uma história social do país, a que o eminente António Barreto poderia dedicar um longo ensaio. De um lado temos o pai, franzino até dizer esquelético, o “Peninha”, inteligente nas movimentações porque qualquer choque seria dramático para a sua segurança física, com um nariz eternamente vermelho de uma eterna constipação moral, o ar frágil, bronquiolítico, de quem passou a infância em contacto com ácaros e humidade nas paredes, o rosto mirrado. Do outro, o filho, de uma pujança nórdica, uns maxilares soberbos, afirmativos, com indícios da prática desportiva regular desde a mais tenra infância a que os pais que escaparam à miséria submetem os filhos para que estes simbolizem, com uma imponência quase érea, esse mesmo triunfo. De pai para filho houve um salto de gerações. Infelizmente para o jovem, os tempos são outros e, ao contrário do pai, talvez nunca se torne um símbolo do Futebol Clube do Porto, embora ainda vá a tempo de se transformar no ponta-de-lança prometido pelos seus primeiros passos.

Ao seu lado, em Frankfurt, tem outra grande promessa que tarda em cumprir o muito que deixou antever nos clubes e nos primeiros jogos com a camisola das quinas. Se Gonçalo Paciência ainda tem alguma da rudeza herdada das ínclitas gerações portistas que o antecederam, André Silva é o definitivo avançado moderno no sentido em que todas as suas características parecem ter sido definidas por um algoritmo à procura do perfil ideal de futebolista para o Instagram. A sua passagem pelo Sevilha, por empréstimo do Milan, foi paradigmática: uma entrada cintilante, mais destinada a angariar seguidores do que a promover a sua afirmação futebolística, e um progressivo apagamento como que a deixar na sua esteira uns pozinhos estelares de tudo o que poderia ter sido.

Fábio Silva talvez ainda não saiba, mas caminha para esta encruzilhada a que qualquer ponta-de-lança português, cedo ou tarde, chega. Em breve surgirão as propostas mirabolantes ou irrecusáveis, ainda que o ideal, à partida, fosse continuar no Futebol Clube do Porto, protegido por equipa técnica, companheiros e direção, e onde, para já, não tem a responsabilidade de carregar a equipa às costas, afirmar-se como o goleador que as suas qualidades fazem antever e só aí, depois de inscrito o nome no panteão das glórias azuis-e-brancas com mais substância do que a dos recordes precoces que excitam os estatísticos, dar o salto lá para fora e tentar contrariar a sina do ponta-de-lança português.

Para que a crónica não morra saturada de tanta juventude, lembro ainda esse jovem ponta-de-lança de 37 anos que agora milita no Cova da Piedade. Com a sua provecta idade, Edinho ainda acredita num regresso à seleção, pela qual marcou dois golos, e di-lo com a candura de um juvenil e sem nenhum do ressentimento dos que se consideram injustiçados. Em entrevista antes do jogo com o Benfica para a Taça de Portugal, na semana passada, disse em pouquíssimas palavras tudo o que há para dizer sobre a função de um ponta-de-lança: “Não há golo feio. Nem feio, nem fácil.” Com a mesma simplicidade respondeu a Fernando Santos que tinha afirmado que não temos pontas-de-lança puros. “Eu sou puro”, afirmou Edinho entre risos. E é. Só um ponta-de-lança puro consegue dizer num segundo aquilo que um pobre cronista queria dizer, sem o conseguir, em sete mil caracteres: não há golo feio, não há golo fácil. Que Fábio Silva, com idade para ser filho de Edinho, nunca se esqueça desta lição tão simples.