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O nosso futebol é um bocado isto

O nível da Liga portuguesa está cada vez mais baixo, considera o escritor Bruno Vieira Amaral: "Ontem, em Inglaterra, os jogadores viravam a cara apavorados com a lesão horripilante de André Gomes. Por cá, deviam esconder a cara de vergonha"

Bruno Vieira Amaral

PAULO NOVAIS

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Nelson Rodrigues dizia que uma boa peça de teatro tinha de incomodar o espectador. Vaias, apupos e pateadas eram mais bem-vindos do que a indiferença ou do que o aplauso morno. Rodrigues, que antes de ser cronista exímio de jogos que via mal por causa da sua miopia foi o maior dramaturgo brasileiro do século XX, não devia aplicar o mesmo critério ao futebol. No futebol os assobios dos adeptos sinalizam sempre um espectáculo pobre e mesmo que a vitória apazigue alguns espíritos a sentença das bancadas é inequívoca: se não gostou, o adepto assobia e nenhum treinador irá para casa satisfeito, consolando-se com a ideia de um futebol subversivo e incómodo.

Porém, ao ver jogos do campeonato português fico com dúvidas se alguns dos nossos treinadores não serão dramaturgos disfarçados cuja missão é a de provocar a fúria dos adeptos, de lhes oferecer espectáculos tão hediondos que, no final, as bancadas espumem de raiva, vomitem assobios biliosos. Não estará longe o dia em que o público pagante exija a devolução do dinheiro e, tal como sugerido há uns tempos por Sérgio Conceição, opte por peças de teatro tétricas, cinema húngaro e velórios, que por enquanto são abertos a todos.

A desolação começa nas bancadas. Ontem, no Dragão, nem sequer estavam trinta mil espectadores. Ainda assim foram quase trinta mil masoquistas que saíram de casa na esperança de assistir a hora e meia de entretenimento e terão regressado aos aposentos ansiosos que chegasse segunda-feira e com ela a perspetiva animadora de mais uma semana de trabalho entediante. A meteorologia e os horários criativos explicam, em parte, a fraca adesão, mas começo a desconfiar que a Liga de Clubes funciona como provedoria dos adeptos e só os quer poupar à miséria obscenamente exibida a cada semana.

Na minha opinião, não chega. Além da medida higiénica de não exibir jogos em canal aberto, urge marcá-los a horas tardias, de madrugada, para que nenhuma criança corra o risco de assistir a estas torturas audiovisuais que são o melhor veículo de promoção de modalidades como o curling ou a equitação. O pior é que as exibições confrangedoras das nossas melhores equipas têm prosseguido nas competições europeias e aí, com jogos em canal aberto e em horário nobre, não há forma de lhes escapar. Faz lembrar o tratamento de choque a que o Alex da Laranja Mecânica é submetido a fim de lhe condicionar os instintos violentos. Aqui, o objetivo inconfessado é o de destruir o nosso amor pelo futebol.

Na Luz, o laboratório de bolas paradas tem ajudado a equipa a libertar-se e a jogar menos mal do que tem sido hábito. As exibições paupérrimas empurraram o discurso sagaz do Bruno Lage campeão para o campo das considerações melancólicas sobre o estado da relva. Qualquer dia ainda o ouviremos falar, a exemplo do filósofo Cantona, em gaivotas, traineiras e apocalipses. O teste internacional de Lyon será um check-up ao paciente encarnado que, apesar de tudo, lá segue em primeiro lugar, empurrando a custo a cadeira de rodas e liderando um pelotão de entrevados. A relva não servirá de desculpa.

O pouco que vi do Tondela-Sporting foi penoso. Um jogo de terceira divisão sem a beleza rústica, meio primitiva, de um jogo de terceira divisão. Os comentadores foram unânimes em considerar que esta até foi das melhores exibições do Sporting, o que dá para ter uma ideia do nível a que se chegou. Ontem, em Inglaterra, os jogadores viravam a cara apavorados com a lesão horripilante de André Gomes. Por cá, deviam esconder a cara de vergonha. Na conferência de imprensa, Silas surgiu desanimado: “O Tondela acaba por ganhar o jogo e faz um remate à baliza”, para logo concluir que “o futebol é um bocado isto.” Pois é. O nosso futebol é um bom bocado isto. Talvez seja apenas um ano mau ou talvez não dê mesmo para mais.