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A visita do fantasma de Cruijff a Jesus

Johan Cruijff foi uma das grandes inspirações de Jorge Jesus no início da sua carreira. Este é um diálogo que poderia ter acontecido entre dois treinadores que irão ficar para a história

Plínio Fraga, em Lima

R. Powell

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A primeira coisa que assustou Jorge Jesus foi o tamanho do fantasma de Johan Cruijff. Pareceu-lhe bem maior do que o homem de 1,80 metros com o qual conviveu em 1993, em Barcelona. Tinha uma certa leveza. O quarto do treinador do Flamengo estava escuro, já era madrugada alta quando percebeu que o fantasma o observava. Não era a primeira vez que se encontravam desde 24 de março de 2016, quando disseram que o craque holandês havia morrido — pobre da malta que não sabe que os craques não morrem jamais.

O último encontro acontecera quando ainda treinava o Sporting, e Cruijff aparecera — bastante nebuloso — depois de clássicos vencidos pelo clube português, terminando o campeonato, entretanto, na segunda posição. “A colocação não importa, se as vitórias foram espetaculares. O que é preciso é saber escolher as derrotas. Se for para ser atropelado, que seja por uma Ferrari”, disse então o fantasma.

Desta feita, no quarto de hotel em Lima, o fantasma de Cruijff tinha uma espécie de túnica grená e azul, que logo lhe remeteu ao Barcelona. E também tinha uma espécie de pulseira laranja, decerto uma deferência à Holanda em que nascera. Com Jesus absorto, coube a Cruijff falar:

— Vejo que não esqueceu a principal lição que te dei. Futebol não se joga com os pés, mas com o cérebro.

Christian Liewig - Corbis

— Não adianta que as pernas sejam rápidas se o raciocínio for lento — concordou Jesus.

— Futebol é simples, mas é...

— ...difícil jogar simples — completou Jesus.

— É tudo muito simples: se você faz um a mais que seu oponente, ganha... O melhor escritório é uma bola. Apenas senta e assiste, analisa e pensa em novas ideias. —

Jesus riu-se.

— Pois. Não entendo como ainda há parvos que insistem em que a força e o condicionamento físico são suficientes para a vitória. Um jogador deve correr nove, dez quilómetros por jogo, mas tem de saber por que correr.

ERNESTO BENAVIDES

— No mundo dos cegos, o homem de um olho é rei, mas ele ainda continua caolho.

— Alguns são cegos mesmo. Sem a bola, você não pode vencer. Então tem de colocar todo o esforço na recuperação da bola, para que mantenha o controle do jogo. Vejo que faz isso com o Flamengo.

— Se você tem a bola, o adversário não a tem, você sempre repetiu. Até que não foi tão difícil convencer os jogadores do Flamengo disso. Antes achava que eles tinham dificuldade de entender a necessidade da organização tática. Confesso que, quando estava em Portugal, achava que time que tinha muitos brasileiros faria batuca da melhor do que pressionar e marcar. Estava errado.

— Toda a desvantagem tem a sua vantagem — pontuou Cruijff. — Essa dificuldade de organização em geral vem da fabulosa capacidade de improvisação dos brasileiros. Muitos jogadores se enganam ao imaginar que a imaginação e organização são mais do rimas. Num time organizado, os atacantes devem correr e dar tiros de apenas 15 metros, a menos que sejam estúpidos ou estejam dormindo. Todos os treinadores falam sobre movimento, sobre correr muito. Eu digo que não é necessário correr tanto. Desde que se saiba o que se está fazendo. A velocidade costuma ser confundida com entendimento. Quando começa a correr antes dos outros, parece mais rápido.

— Digo sempre isso aos jogadores. Se me deixarem treiná-los, se abraçarem as minhas ideias, serão melhores do que jamais foram. Eu como jogador fui limitado. Faltou-me ter-te conhecido antes. Com certeza que seria mais que mediano. Sem, claro, nunca chegar perto de ti.

— Um problema do futebol hoje é que os líderes sabem muito pouco. No meu tempo tive com quem aprender. O carrossel holandês era uma enciclopédia de futebol. Um time onde o guarda-redes era o primeiro avançado e o avançado era o primeiro defesa.

STF

— Planeamento e organização. O que muitos acham que é coincidência, na realidade é lógica.

Silêncio. E Jesus perguntou:

— E a final da Libertadores contra o River? O que me diz?

— Seu time é muito bom. Parabéns.

— Uns desavisados atribuem isso ao facto de o Flamengo ter trazido oito jogadores da Europa, gastando milhões de euros.

— Nunca vi um saco de notas marcar um golo.

— Pois, então... Agora me fale do River.

— Os argentinos não podem ganhar, porém pode-se perder contra eles.

— É aquela história. A maior dificuldade que deves ter é a dificuldade de cometer erros.

— Sim. Mande seu time a campo para dar show, para jogar ofensivamente, uma partida atraente para os adeptos.

— A torcida do Flamengo é um espetáculo. Nunca vi nada assim no mundo.

Sergio Moraes

— Então, no campo, observe as bancadas. Elas dizem se você está certo ou está errado.

— Do lado que estás, não sabes de tudo?

— Nunca fui religioso. Nunca quis ser ladrão da minha própria carteira. Em Espanha, assim como no Brasil, os 22 jogadores fazem o sinal da cruz antes de entrar em campo. Se Deus jogasse por todos, sempre daria empate.

— Eu acredito em Deus, mas fora de campo. No campo são os homens.

Silêncio outra vez.

— Não sabes quanto será o placar? — perguntou Jesus.

— Qual gostaria que fosse?

— Prefiro vencer por 5 a 4 do que por 1 a 0.

Cruijff concordou.

— Mas se não puder vencer, certifique-se de não perder.

— Isso quer dizer o quê?

— Se eu quisesse que você me entendesse, teria explicado muito melhor.

E o fantasma de Cruijff foi-se, deixando como presente uma baita insónia para Jesus.

* As frases de Cruijff foram ditas, um dia, pelo holandês. O resto é imaginação.

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