Tribuna Expresso

Perfil

Crónica

Foi mais na raça do que na arte e nenhum torcedor flamenguista foi dormir triste. Na verdade, nenhum torcedor flamenguista foi dormir

O escritor Bruno Vieira Amaral escreve sobre o Flamengo - River Plate que coroou Jorge Jesus na América do Sul

Bruno Vieira Amaral

Wagner Meier

Partilhar

Foi um jogo feio como são todas as finais quando bem jogadas. Quem vem de traje de gala vê-se obrigado a sujá-lo. Sorte a dos precavidos que trazem o fato-macaco. O River Plate chegou de fato-macaco. O título de campeão das Américas conquistado o ano passado não deslumbrou Marcelo Gallardo, El Muñeco, que foi jogar não em estilo “milionário”, mas no estilo esfarrapado e mercenário de quem entra em campo sem vergonha de ter como intuito a anulação do rival. Era o Flamengo que chegava principescamente ao Monumental de Lima, um rei ainda sem coroa, mas com o manto bordado à mão de sumptuosas exibições e goleadas. Só que uma final, jogo feio, jogo tenso, não é disputa para fidalgos, é campo de batalha de operários. Champanhe, só no fim. Durante o jogo só se bebe o próprio suor.

E foi aí, na postura de um rei humilde e nas aspirações de um rei sem coroa, que o River Plate alicerçou a sua superioridade. Gallardo preparou os seus homens para a guerra e eles obedeceram-lhe sem pejo nem pudor. Correram como hienas, dois ou três jogadores em cima do desgraçado flamenguista que recebia a bola e era obrigado a livrar-se dela como de um objeto amaldiçoado. Resultado: nem uma daquelas jogadas rápidas, intoxicantes, que desmontaram quase todas as defesas do Brasileirão. Havia sempre uma parede branca pela frente e o talento opíparo dos craques do Flamengo não chegava sequer para umas arranhadelas, quanto mais para a derrubar.

O golo madrugador caiu na perfeição no plano de Gallardo. O plano A era agora Plano A+1. Com a vantagem de um golo de segurança, bastava continuar a seguir à risca o guião, sem adornos inúteis, sem invenções supérfluas. Já todas as ideias do Flamengo (na verdade, só tinha uma, que era a de fazer o mesmo jogo de sempre) esbarravam na tenacidade porteña. Na segunda parte, o Flamengo ainda teve uma oportunidade, mas o jogo logo regressou ao ritmo emperrado que convinha aos argentinos. Dos bancos as mudanças efetuadas eram as ditadas pelo tempo, pelo desgaste e pelas lesões. A pressão feita pelo River teria, mais cedo ou mais tarde, custos para a equipa. Daí que aos 77 minutos, Gallardo já tivesse esgotado as alterações. Não para corrigir o plano, mas apenas para o refrescar. A primeira alteração de Jesus, e tão elogiada após o jogo, só foi feita porque Gerson se lesionou. A entrada de Diego foi mais reformista do que revolucionária porque, melhorando um pouco o jogo do Flamengo, não melhorou o suficiente para que a equipa causasse perigo.

Só que o River Plate, que tinha asfixiado o adversário durante todo o jogo, não teve a frieza de lhe aplicar o golpe de misericórdia. Pelo contrário, ofereceu-lhe oxigénio. Quem carregou as botijas foi um dos heróis da final de 2018, Lucas Pratto. Quando se pedia ratice e controlo, na hora em que a experiência dos argentinos devia ser fulcral, Pratto trouxe excesso de voluntarismo e más decisões. As fendas que o Flamengo não conseguira abrir na muralha de Gallardo apareceram finalmente com a contribuição de um jogador argentino, quando os adeptos do Flamengo já desesperavam com a falta de soluções e intervenção do salvador Jesus.

Para que serve uma substituição aos 86 minutos de uma final quando se está a perder por 1-0 desde os quinze? No entanto, essa foi a escolha racional. Com as melhores cartas desde o início em cima da mesa, Jesus não tinha trunfos na manga. O ouro estava todo em campo e só a regra aflitiva que dita que é melhor fazer alguma coisa do que não fazer nada daria sentido a uma substituição (a entrada de Lincoln) que, por colaboração de Pratto e graças ao talento dos seus génios, Jesus nem teve de fazer.

Segundos antes do avançado do River ter perdido a bola ainda no campo do Flamengo, eu dizia, no conforto do meu sofá, que só um milagre poderia evitar a derrota do clube do Rio. Milagre não terá sido, mas toda a jogada foi agónica, do arranque de Bruno Henrique ao cruzamento em esforço de De Arrascaeta. Só o encosto de Gabriel foi simples, como um suspiro de alívio. Jesus guardou no bolso o lenço branco da rendição. Já a muralha laboriosamente erguida por Gallardo e os seus homens que, durante oitenta e oito minutos, parecia incólume ameaçava desmoronar a qualquer momento. O Flamengo nunca ganharia este jogo aos pontos, teria de ser por K.O. E o golpe decisivo não tardou, veio naquele minuto desgraçado que, em tempos idos, obrigara Jesus a ajoelhar-se em humilhação suprema.

Destruir cansa, mas não conseguir construir também cansa, irrita, frustra. O segredo do Flamengo, se é que existe algum, foi não permitir que essa frustração natural por não ligar o seu jogo, por não encontrar a fluidez habitual, esgotasse o discernimento, as forças e a fúria. Porque foi com fúria e determinação, a mesma fúria e determinação com que os jogadores do River tinham disputado cada lance, que Gabigol se lançou contra os defesas adversários e rebentou de vez com a fortaleza argentina. Foi mais na raça do que na arte. Mas nenhum torcedor flamenguista foi dormir triste. Na verdade, nenhum torcedor flamenguista foi dormir.

Terminada a batalha, a hora era dos vencedores, mas aí quem brilhou mais foram os vencidos. Depois de um jogo feio como devem ser todas as finais, os jogadores e equipa técnica do River compensaram em beleza e galhardia (perdoe-se o trocadilho) com a postura na derrota. Sendo compreensivo com a frustração dos derrotados, irrita-me muito o hábito protocolar de os jogadores não aceitarem a medalha de vice-campeão ou de a retirarem logo que saem do palanque. Pois os jogadores do River não só mantiveram as medalhas ao peito como aguardaram com estoicismo e honra a comemoração do rival. Poderá dizer-se que a vitória no ano passado está na origem da magnanimidade agora exibida, mas que uma derrota tão dolorosa e, para eles, tão cruel tenha sido digerida com tanta nobreza foi das coisas mais bonitas que o futebol nos deu a ver nos últimos tempos. O jogo foi feio, mas a festa foi bela.