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Um terródromo cheio de surpresas

Saiba os segredos do traçado de 16 km onde há mais de 20 anos se disputam as 24 Horas TT de Fronteira

Rui Cardoso

Descida sinuosa no miolo da recta da meta das 24 Horas TT de Fronteira

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A pista das 24 Horas TT de Fronteira, onde esta sexta-feira se disputam os treinos que determinarão a ordem de partida, é um perímetro de 16 km de subidas, descidas e encadeados de curvas, atravessando duas passagens de nível e quatro linhas de água. Leu bem, caro leitor: passagens de nível, pois aqui passava o antigo Ramal de Portalegre, entre esta cidade e Estremoz. Construído em 1937, foi desactivado em 1990, estando já praticável uma ecopista no antigo troço ferroviário de 14 km entre Fronteira e Cabeço de Vide.

Vejamos então como é uma volta a este circuito.

A recta da meta situa-se junto à zona industrial de Fronteira e termina numa curva de 180º à esquerda. Chega-se lá bastante embalado mas convém contar com uma cratera funda que, à medida que as horas passam, se vai abrindo sensivelmente no eixo da curva. Também não convém deixar escorregar demasiado o carro para o lado de fora porque à direita há um talude inclinado.

Segue-se a descida para um pequeno troço de asfalto, sendo que a transição de um piso para o outro vai ficando bastante cavada, contribuindo para moer as suspensões. No alcatrão, estreito e com uma curva à direita, as ultrapassagens são fáceis, excepto se os dois carros andarem o mesmo. Sobretudo porque termina num estreito e numa antiga passagem de nível, agora asfaltada.

Subindo entre oliveiras

Daqui em diante são os cerca de 2 km da chamada “subida das oliveiras”, sinuosa mas sem história especial, onde as trajectórias ideais ficam rapidamente cavadas após os treinos. Lá no alto uma parte muito rápida com duas mudanças de direcção, seguida de uma descida onde até o pior dos calhambeques anda a fundo.

Contudo, no final da rampa há que contar com três lombas e um curva para a esquerda que nem sempre é boa de assoar. Segue-se uma parte muito sinuosa que começa por contornar um silo que parece uma capela e vai enrolando e desenrolando até cruzar a primeira ribeira.

Esta, por enquanto, não tem água mas os rodados dos carros demorarão poucas voltas a transformar num inferno de “chapa ondulada” a subida que se segue. Logo depois, umas centenas de metros planos mas sinuosos que são infernais de fazer durante a noite porque se torna difícil perceber onde estão as regueiras e as pedras.

Quinta a fundo

Após uma curva muito larga para a esquerda que qualquer um faz a fundo e onde costumam estar acampados espectadores vem aquela que, para mim, é a zona mais divertida do circuito: plana, com bom piso e curvas relativamente suaves. É quinta a fundo mas cuidado que termina num estreito e numa lomba cega…

Esta lomba – e aqui está um dos mandamentos deste circuito – tal como as suas congéneres é sempre seguida de curva apertada para a esquerda. O traçado volta a enrolar e a estreitar até descer para a segunda linha de água, neste caso o Rio Grande de Fronteira. O piso é de cimento mas convém não exagerar na curva fechada para a esquerda à saída da ribeira, sob pena de aterrar sobre a capota, tanto mais que segue uma zona de piso degradado. Este bocado, nos anos de chuva, termina na zona mais ingrata do circuito: um sobe e desce muito esburacado e trilhado que pode ficar intransponível.

Segunda passagem de nível

A pista abandona as zonas baixas e volta a ser muito rápida, subindo para a segunda passagem de nível. Costuma ser por esta altura que me debato com um dilema, a saber qual deva amaldiçoar primeiro: se os escassos 110 cavalos do nosso Patrol GR ou as duas toneladas que pesa…

Se a travagem para a dita passagem de nível nunca está grande coisa, que dizer da saída? O melhor é deixar o carro fugir para a direita, a roçar pelo talude, o que tem a vantagem suplementar de abrir espaço para algum adversário que venha de faca nos dentes…

E aí estamos nós em pleno planalto, quase à cota da recta da meta que vislumbramos ao longe, sensivelmente em frente. Mas para lá chegar é preciso voltar a cruzar o Rio Grande. Na nova variante, inaugurada o ano passado por causa da “arrumação” dos espectadores, há que ter cuidado com o gancho a esquerda que antecede a descida para a linha de água, tanto mais que a passagem da terra para o cimento cava sempre buraco. E grande…

Com muita água esta passagem a vau seria um espectáculo. Num ano de muita chuva e muita corrente já cheguei a engatar redutoras à entrada não fosse o diabo tecê-las e o motor “beber o pirolito” ou a força da enxurrada fazer das suas.

Subida final

E, para não nos esquecermos da água, após uma descida sinuosa vem a última ribeira ou, melhor dizendo, uma pequena vala, a seguir à qual a pista não demora a começar a assemelhar-se a Beirute no tempo da guerra civil.

Daqui em diante é (quase) sempre a subir. A excepção é uma curva e contra-curva em piso de cascalho a seguir à qual em ano de chuva se contra-breca e se vai a deslizar na lama até o carro decidir por sua própria vontade voltar a endireitar-se.

Na subida para a recta da meta, quem não os tenha volta a lamentar a falta de cavalos, posto o que se atinge a altitude máxima do circuito, o que nos permite ver o mar de regueiras que nos separa da descida para a dita reta ou para a entrada das boxes, se for o caso.

Aqui está o que, conforme os carros, os pilotos e as alturas da corrida, se pode fazer em dez minutos (os mais rápidos na qualificação), em quinze se tudo estiver a correr bem e em 20 ou mais quando já faltam as forças e a mecânica começa a gemer de forma mais ou menos audível e a aconselhar poucas coboiadas.